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Pastel de angu de Itabirito recebe novo selo e avança no processo de Indicação Geográfica

Pastel de angu de Itabirito recebe novo selo e avança no processo de Indicação Geográfica

Victória Oliveira

Em Itabirito, o pastel de angu carrega mais de um século de memória, além de sabor e saberes transmitidos por muitas gerações. Agora, essa trajetória ganha um novo capítulo. Foi apresentado na tarde desta quinta-feira (10), na Casa de Cultura Maestro Dungas, o novo Selo de Indicação Geográfica (IG) do Pastel de Angu de Itabirito.

A iniciativa representa mais uma etapa de um processo que busca reconhecer, valorizar e preservar os conhecimentos ligados ao modo tradicional de produção da iguaria, além de fortalecer sua relação com a cultura e o turismo do município.

O lançamento reuniu representantes do poder público, como o prefeito Élio da Mata, o vice-prefeito Rafael Rondow e secretários municipais, além de profissionais envolvidos na construção da Indicação Geográfica e, principalmente, pessoas que fazem parte dessa trajetória: os produtores e vendedores que mantêm o pastel de angu presente no cotidiano de Itabirito, as chamadas “mantenedoras”.

Mais do que identificar um produto, a proposta busca dar visibilidade a um saber que já integra o patrimônio cultural do município. E, embora a apresentação do selo represente um momento importante, o processo de Indicação Geográfica ainda tem etapas a serem cumpridas até sua conclusão.

A identidade visual apresentada durante o evento foi construída a partir do diálogo com vendedores de pastel de angu. A proposta buscou reunir elementos que remetessem não apenas ao alimento e aos seus ingredientes, mas também ao trabalho e aos conhecimentos envolvidos em seu preparo. Predominam o amarelo, em referência ao fubá, e o roxo, associado ao umbigo de banana, um dos recheios tradicionais do salgado.

Essa dimensão afetiva apareceu na fala de uma das mantenedoras, Zarinha, que lembrou das mulheres e famílias responsáveis por manter esse modo de fazer ao longo do tempo. “Gente, olha onde nós chegamos. Além do que a gente sonhava. Já imaginavam essa história da Maria Conga e da Filó chegarem até aqui? Quantas pessoas que fizeram pastel de angu e perpetuaram essa história ao longo dos anos? Gratidão.”

Uma história que começa no século XIX

A relação de Itabirito com o pastel de angu não é recente. A iguaria é difundida pela região central de Minas Gerais, mas sua origem é tradicionalmente associada ao município, em meados do século XIX.

A história remonta à Fazenda dos Portões, onde duas mulheres escravizadas, Maria Conga e Filó, teriam utilizado sobras de angu recheadas com guisado de umbigo de banana para preparar o que posteriormente se tornou conhecido como pastel de angu. O modo de fazer foi sendo transmitido e preservado ao longo do tempo, permanecendo presente na cultura alimentar de Itabirito.

Esse saber foi reconhecido pelo município como Bem Imaterial, por meio do Decreto nº 9.125, de 10 de dezembro de 2010. O registro reconhece o valor histórico e cultural de uma prática que não está apenas no produto final, mas também nos conhecimentos, técnicas e formas de preparo compartilhados entre gerações. É justamente nessa relação entre o produto, o território e o saber fazer que se insere o processo de Indicação Geográfica.

O que significa a Indicação Geográfica?

A Indicação Geográfica é uma forma de identificar produtos ou serviços cuja origem está diretamente relacionada à sua reputação, características ou qualidade. O reconhecimento considera a relação particular que determinado produto estabelece com o território onde é produzido.

Essa relação pode estar ligada a características naturais, como solo, clima e vegetação, mas também ao chamado saber fazer: conhecimentos e técnicas desenvolvidos e transmitidos ao longo do tempo por uma comunidade.

No caso do pastel de angu de Itabirito, a discussão vai, portanto, além do alimento. Envolve a relação entre território, memória, técnica e as pessoas responsáveis por manter esse conhecimento vivo.

O lançamento do selo não encerra o processo de Indicação Geográfica. Ainda há etapas a serem cumpridas até a consolidação do reconhecimento, e o trabalho continua para estruturar esse processo e estabelecer as condições relacionadas à utilização da IG.

Da memória à economia

Além da dimensão cultural, a expectativa é que a iniciativa também contribua para ampliar a visibilidade do pastel de angu como patrimônio gastronômico e elemento de interesse turístico de Itabirito.

A gastronomia é uma das formas de apresentar um território a quem chega. Nesse sentido, um produto que já faz parte da memória dos moradores pode também se tornar uma referência para visitantes, ajudando a movimentar a economia e a valorizar os produtores e vendedores que mantêm essa prática no município.

O desafio, daqui para frente, é fazer com que esse reconhecimento se traduza em valorização concreta para quem mantém o pastel de angu presente no cotidiano.

Em Itabirito, cada pastel de angu preparado hoje carrega um sabor que, ao ganhar uma identidade própria, passa a contar também, de forma ainda mais visível, a história do lugar onde nasceu.

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