(Lição 4 – Manual de sobrevivência aos fantasmas)
Em 1760, a Inquisição, em Lisboa, recebeu uma enxurrada de denúncias: os moradores haviam descoberto quem era a Mestra das Feiticeiras do distrito de Itabira do Campo (atual Itabirito), que pertencia à Vila Rica. Tratava-se de Ângela Maria Gomes, padeira, negra liberta, dona de um negócio próspero na vila e de um casarão. As denúncias a acusam de liderar um grupo de feiticeiras que estava causando todo o tipo de doenças na cidade e levando as pessoas à morte.
Um tal de Manuel Rocha afirmou nunca ter presenciado nada, mas ele… olha só: conhecia um monte de gente que tinha presenciado. Assim, podia afirmar com certeza absoluta que Ângela “rezava com o rabo para o ar”, dizia que da casa dela às terças e sextas ouviam músicas infernais, e que ela dançava com o próprio diabo. Outro para ilustrar por que acreditava que a música que ouvia era infernal, complementa: “quando a música tocava saíam porcos pela porta e morcegos pelo telhado.”
Um casal que cuidava de um doente que era vizinho de Ângela dizia que os sons bizarros causavam efeitos terríveis e mágicos neles: os impediam de dormir! Um deles até tentou pular o muro para matá-la por isso, mas nesse momento o som parou, e o bom homem foi desobrigado de cometer o assassinato. Que ela invocava nuvens de piolhos de galinha é citado três vezes. O pároco que colheu os testemunhos e também era amigo do doente reclama que até foi pedir para que ela parasse com a música, mas ficou desconcertado quando ela o lembrou de seu crédito (a empresária provavelmente financiava setores da igreja de Itabira do Campo).
O minerador João Leite, um amigo desse trio insone, foi quem tirou a prova final. Destemido, fez o que ninguém mais tinha coragem de fazer: se esgueirou pela varanda do doente e bisbilhotou a casa da temida Mestra das Feiticeiras. Ele foi um dos poucos que realmente viu, com aqueles olhos que a terra houve de comer, aquilo que ele relatou. Transcrevo aqui, em linguagem atualizada, todo o horror que ele testemunhou:
“Fui para a varanda e, já bem tarde da noite, ouvi, vindo da cozinha ou de uma casa nos fundos do quintal, um instrumento cujo nome não sei dizer. (…). Também ouvi vozes que não conseguia entender. Enquanto ouvia aquele rumor de gente, alguma coisa parecida com piolhos de galinha, ou coisa semelhante, estalou contra o meu rosto.
No telhado da casa vi um cachorro branco. Pouco depois, apareceram outros dois, um vermelho e outro cinzento. O cinzento foi para onde vinha o som do instrumento. O vermelho subiu no telhado, começou a andar por cima da casa e, com a mão, ajeitava as telhas enquanto olhava para dentro. Eu o via porque a lua estava muito clara. Depois saltou e foi embora pela rua. O cinzento desapareceu.
Ao mesmo tempo, apareceu um gato preto, muito comprido. Parecia ter quatro palmos. Eu não o medi, mas nunca tinha visto um gato daquele tamanho. Ele foi para onde vinham os sons, andando por cima da casa.
Então ouvi, dentro da casa da dita Ângela, uma espécie de ronco. O primeiro foi tão forte que meus cabelos se arrepiaram. Depois veio outro, menor, mas tão estranho que não sei explicar nem dar nome. Pouco depois, ouvi um terceiro, diferente dos anteriores e igualmente medonho.
Tudo aconteceu na mesma noite, quase à meia-noite. Depois disso, não ouvimos mais nada na dita casa.”
Com um instrumento desconhecido, piolhos de galinha emanando da residência, três cães terríveis (inclusive um vermelho que tem o dom de consertar goteiras), um gato preto de quatro palmos e alguém roncando muito, muito alto… a conclusão é lógica: Santa Inquisição, cumpra seu papel e queime a bruxa! O Chaves, quando invadiu a casa da Bruxa do 71, teve impressões muito parecidas com essas.
O que acontece é que o Santo Ofício não levou as denúncias adiante (será que por medo de tamanho poder mágico?). O fato de tantas testemunhas relatarem coletâneas de boatos tão fantásticos e estereotipados, quem sabe, pode ter dado a impressão de que houve uma campanha de denúncias contra a empresária. E eu não quero insinuar nada, mas uma mulher negra rica, poderosa e dona de si podia despertar sentimentos muito negativos em 1760 (ainda bem que nada disso acontece mais).
Ao vasculharem os documentos da igreja atrás de outras informações sobre o que aconteceu nos anos seguintes à denúncia de Ângela Maria Gomes, os pesquisadores Aldair Rodrigues e Moacir Maia encontraram o fim da terrível feiticeira: em 1772, doze anos depois, Ângela aparece em uma ata decidindo incluir mais uma procissão na festa do Rosário, no alto de seu cargo como Rainha da Irmandade do Rosário dos Pretos de Itabira do Campo. Mas essa história a gente termina de contar nas próximas semanas. A acusação pode ter sido mesmo estapafúrdia, mas colocou essa mulher na história.
