(Lição 5 – Manual de sobrevivência aos fantasmas)
Eu não costumo brincar com fantasmas, ainda mais quando é o fantasma de uma bruxa. Então, para evitar qualquer assombração devido a algum mal-entendido que possa chegar torto ao mundo dos espectros, gostaria de mostrar o outro lado da nossa Mestra das Feiticeiras, de que tratamos na última lição. Refiro-me à empresária itabiritense que conhecemos de uma das denúncias mais caricatas da história brasileira, datando de 1760.
Ângela teria vivido na condição de escravizada por um tempo em Cachoeira do Campo e, quando liberta, teria feito a vida em Itabira do Campo, atual Itabirito.
O trabalho dos historiadores Aldair Rodrigues e Moacir Maia indica que o som que os vizinhos ouviram era o Acotundá, também conhecido por Tambor de Mina, expressão religiosa legítima de Costa da Mina, região da qual Ângela teria vindo. Essa demonização da religião africana era feita pela cultura colonial para manter a supremacia católica e autorizava o uso da força quando a Igreja e a Coroa acreditavam que determinado culto estava levando à formação de lideranças de resistência à escravidão, como foi com o Quilombo de Palmares, em que houve guerra, e das pesadas. Ângela provavelmente teria liderado essa manifestação religiosa, pois era conhecida como “mestra” daquelas praticantes, mas isso pelos denunciantes, então não dá para ter absoluta certeza. Entretanto, sua denúncia não foi investigada por razões que não sabemos, mas podemos apontar que se os poderes da época vissem ali qualquer ameaça, ela não seria poupada.
Esse culto que liderava preservava os “Santos de África”, em língua Fon (de atual Benin) “voduns”. Santos que, segundo os africanos, já vinham de lá batizados por Nossa Senhora do Rosário. Exemplo disso é o depoimento de Rosa Pinheira, também vinda de lá, que dizia que seu santo havia ficado “sete anos de joelhos diante de Nossa Senhora do Rosário para lhe dar licença para vir a essa terra”. Para a visão africana, o mundo era todo repleto de santidades, então, a fé católica em nada os parecia incompatível com sua visão de mundo. E um dado, se ela já fosse liderança religiosa antes de sair de África, em seu corpo seriam reconhecíveis pelos seus conterrâneos escarificações que marcavam essa liderança. Escarificações são tatuagens feitas de cicatrizes.
Era também a partir do culto a Nossa Senhora do Rosário que essas mulheres se colocavam perante a igreja e construíam suas relações com a sociedade colonial como um todo. Ângela, sabemos, gozou de dois mandatos como Rainha da Irmandade do Rosário dos Pretos. O contexto todo mostra que era importante financiadora das atividades eclesiais desta irmandade. Não só na resposta com o inquisidor em que dá a cartada seu “crédito”, mas sabe-se que uma de suas escravas também foi eleita ‘juíza’ da irmandade, cargo muitas das vezes mais importante do que rainha. Em razão desse acontecimento, Ângela teria doado uma vara de prata, um objeto cerimonial, para a igreja. Ao morrer também teria deixado imóveis (isso, no plural) para a irmandade. Isso tudo mostra como apostava mesmo na Irmandade do Rosário como um ambiente de apoio e acolhimento para o seu povo.
Segundo o historiador de Itabirito Reminy Fonceca, que foi quem me apresentou toda essa história, “o poder econômico de Ângela parece ter tido um papel importante na colocação desta mulher na sociedade, que mesmo tendo sido acusada à inquisição, conseguiu ocupar lugar de prestígio na sociedade de Itabira do Campo”.
Sobre outras mulheres libertas e prósperas oriundas da Costa da Mina e que também eram Rainhas do Rosário sabemos que frequentemente elegiam escravizadas suas como lideranças das Irmandades do Rosário e que facilitava-se a compra de suas alforrias, o documento que garantia a liberdade. Poderia ser esse o caso de Ângela, pelo contexto de que provavelmente agia ativamente para a preservação da identidade de seu povo, seja pelo Acotundá, seja pelo culto a Nossa Senhora do Rosário, mas disso não temos nenhum documento que comprove.
Dos documentos desta personagem histórica, temos preponderantemente os preconceitos, as sombras e as fantasmagorias. Temos que buscar ativamente as luzes e as virtudes para vencer a versão fantasmática e podermos nos aproximar da verdade. A não ser que acreditemos que ela invocava mesmo morcegos, porcos e piolhos de galinha com sua música.
