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Drummond ensina: o pico do Itabirito é uma abertura para a eternidade, isto é, enquanto ele ainda está aqui

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(Lição 6 – Manual de sobrevivência aos fantasmas)

 O Presidente do Brasil, Marechal Castelo Branco, em 8 de Junho de 1965, publicou no Diário Oficial da União, um despacho que destombava o pico do Itabirito, permitindo que fosse dinamitado para fins de mineração em favor de um consórcio de empresas dos Estados Unidos da América. Os versos de Drummond que protestam contra essa decisão dizem: “E o pico do Itabirito / será moído e exportado / se quedará no infinito / o seu fantasma desolado”.

O ato de governo respondia a um recurso pelo destombamento feito por três empresas mineradoras, duas americanas e uma inglesa. Mais tarde, elas comporiam um consórcio, a MBR – Mineradoras Brasileiras Reunidas S.A. Isso mesmo, o consórcio de liderança americana, que queria subtrair o patrimônio dos cidadãos, tinha “brasileiro” no nome. Pelo menos grafavam Brasil com “s”.

O tombamento por sua vez, que é o ato que protege um patrimônio, havia sido realizado em 1961, por pressão da população Itabiritense em um movimento que desde 1940 (quando começou a exploração dos seus arredores no governo Getúlio Vargas) defendia o tombamento do pico por ser símbolo da cidade, enquanto percebia a servidão mineral, nome que se dá aos sítios em que a mineração é permitida, avançar ao redor.

Na dissertação de mestrado da arquiteta Thaís Lanna Junqueira, que tem o nome de “O destombamento do pico de Itabirito”, é apontado que essa pressão levou ao engajamento de diversos técnicos pela causa, o que levou ao seu tombamento posterior. O parecerista mais interessante apontado por ela foi Luiz Kuchenbecker, engenheiro alemão e diretor o Arquivo Mineiro Barão de Eschwege, situado em Congonhas.

Em uma carta aos órgãos competentes, o engenheiro trazia três argumentos para sua preservação. No primeiro, ressaltava sua grandiosidade. Que sua “silhueta de imposante rocha coroada de um castelo” era uma joia da natureza e um milagre da criação. O segundo argumento era que, ao se espalhar, em 1959, que se mineraria o pico, uma multidão se reuniu aos seus arredores em ato de protesto, ressaltando a importância daquele monumento natural para aqueles cidadãos.  O último argumento do engenheiro alemão chama atenção, por ser algo muito pouco comum a seu tempo: preservar o pico era uma “obra de patriotismo”. Isso porque era uma homenagem póstuma aos indígenas que habitavam aqui antes da invasão portuguesa e que nomearam aquele pico como “Itabira”, “pedra empinada” em Tupi, depois evoluindo para “Itabirito”, “pedra que risca vermelho”.

A importância simbólica do pico é flagrante hoje no brasão da cidade, no uniforme escolares das crianças, nas capas de cadernos e no grafite do prédio da Secretaria do Desenvolvimento, que marca a praça da estação. É o último degrau de nossa resistência ao céu: as vezes se erguendo das nuvens, as vezes as acumulando.

Cinco anos depois do tombamento, o ditador Castelo Branco ignorou todo o valor sentimental e o simbolismo patriótico, reduzindo em seu decreto todo e qualquer valor daquele monumento às poucas toneladas (se consideradas o todo da jazida) de minério que forneceria.

Deste debate público brasileiro envolvendo o pico de Itabirito surge o poema de Drummond publicado no Correio da Manhã, um jornal carioca, em 1965. Nele o poeta diz que se avança sobre o pico “E nem sequer presta ouvido / Ao grave apelo da história / Que recortou nessa imagem / Um outro azul da memória / E um assombro na paisagem”. O poeta tem um desafio em sua argumentação que é como convencer aqueles que só veem valores em espécie? Que só veem riquezas financeiras? Para isso coloca a montanha como “Nobres cimos altaneiros / Que davam com sobriedade / Aos de casa e aos forasteiros / Um curso de eternidade”.

Em uma região tão marcada pelo seu passado colonial e violento, um “curso de eternidade” faz mais do que bem para o enfrentamento de seus fantasmas desolados da cultura. As rochas com as quais os EUA fazem bugigangas e carros se acumularam no fundo dos oceanos há 3 bilhões de anos atrás, se ergueram em eventos geológicos há cerca de 500 milhões de anos, quando a vida nos oceanos se estabelecia na terra, atravessaram três eras geológicas, a civilização indígena, a colonização, viram cada luta deste povo e se estenderão pela eternidade após a nossa extinção. A não ser que um presidente qualquer sem nenhum apreço por nossa civilização despache um documento reduzindo o pico de nossa história à poeira de minério. O pico só foi retombado em 1989, quatro anos após a queda da ditadura militar, e ainda se tenta restaurar seus arredores.

Grafite no prédio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e SINE
Sobre o autor
  • Vinicius Tobias

    Vinicius Tobias é poeta e escritor. Autor dos livros “A estrada e o Moirão” (Ed. Capim Limão) e “A luz da minha irmã” (Ópera Editorial) e de uma dezena de auto publicações. Foi figura central no movimento Larvas Poesia que marcou a produção independente da região das vertentes. É também doutor em Ciência da Religião, especialista em Religião e Arte e professor da Rede Municipal de Itabirito.

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