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Em meio a casos de violência e assassinato, motoristas de aplicativo relatam medo de trabalhar em cidades no interior de Minas Gerais: ‘Tenho que voltar para casa vivo’

Em meio a casos de violência e assassinato, motoristas de aplicativo relatam medo de trabalhar em cidades no interior de Minas Gerais: ‘Tenho que voltar para casa vivo’
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Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

Motoristas de aplicativo que trabalham em Ouro Preto, Mariana e Itabirito, na Região dos Inconfidentes, no interior de Minas Gerais, relatam uma rotina marcada pelo medo de assaltos, agressões e ameaças. Por conta disso, alguns têm alterado os horários de trabalho e repensado a continuidade na profissão.

Em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto, motoristas relatam experiências e preocupações que refletem a vulnerabilidade enfrentada por trabalhadores do setor. Ambos apontam a falta de proteção efetiva e o receio de serem vítimas de criminosos durante as corridas.

Guilherme Assis, que utiliza os aplicativos como complemento de renda, afirma que passou a enxergar os riscos da atividade de outra maneira depois de sofrer uma agressão física. Segundo ele, o episódio começou após uma colisão proposital na traseira de seu veículo.

Imagens de câmeras de monitoramento de residências próximas, conforme o relato do motorista, mostram o momento em que o agressor procura algum objeto no porta-malas do próprio carro. Como não encontra o que procurava, pega uma pedra e começa a atacar Guilherme.

O motorista afirma que conseguiu se esquivar dos golpes e evitar ferimentos graves. Depois da ocorrência, registrou boletim de ocorrência, procurou atendimento médico e realizou exame de corpo de delito.

“Os motoristas ainda estão muito expostos à violência e, muitas vezes, dependem da própria sorte para trabalhar com segurança”, afirma.

A experiência também mudou a maneira como Guilherme organiza a rotina. Como possui emprego formal, ele costuma trabalhar com os aplicativos à noite, nos finais de semana e feriados. Agora, passou a avaliar com mais cautela os horários, os locais e os tipos de corridas que aceita.

“Meu maior medo é enfrentar uma situação de violência e não conseguir pedir ajuda a tempo”, relata.

O motorista afirma que já chegou a considerar abandonar a atividade. Para ele, a renda complementar deixou de representar apenas uma oportunidade de aumentar os ganhos e passou a envolver uma avaliação constante dos riscos.

“É inevitável questionar se o retorno financeiro compensa os riscos da atividade”, diz.

‘Tenho que voltar para casa vivo’

A preocupação também é compartilhada por Jonas Nicolino, outro motorista de aplicativo de Cachoeira do Campo. Diferentemente de Guilherme, ele depende diretamente da atividade para garantir o próprio sustento e o dos filhos.

Jonas afirma que não percebe atenção suficiente à segurança dos profissionais e diz que os trabalhadores acabam assumindo individualmente a responsabilidade pela própria proteção.

“Os motoristas de aplicativo não têm qualquer atenção ou parceria em relação à segurança. Aliás, sentimos a marginalização da profissão até por quem poderia nos oferecer segurança”, afirma.

Entre os maiores temores, ele cita a possibilidade de ser atraído para uma corrida falsa, sofrer um latrocínio e não conseguir voltar para casa.

“Meu medo é não voltar para os meus filhos”, resume.

Apesar da insegurança, Jonas diz que não tem a opção de deixar de trabalhar. Segundo ele, a necessidade de sustentar a família faz com que continue aceitando corridas inclusive durante a madrugada.

“Mesmo inseguro, continuo trabalhando na madrugada ou em qualquer horário em que for solicitado. Não tenho opção. Eu trabalho e sou responsável pela minha própria segurança. Tenho que voltar para casa vivo”, afirma.

Entre as situações que considera mais perigosas estão passageiros que não se identificam corretamente e corridas realizadas durante a madrugada sem um destino previamente definido.

Na avaliação do motorista, a vulnerabilidade dos profissionais aumentou nos últimos anos, principalmente pela falta de policiamento e pela sensação de impunidade. Ele também destaca a união entre os trabalhadores como uma forma de proteção.

“Estamos cada vez mais vulneráveis à criminalidade. A falta de policiamento local e a sensação de impunidade fazem com que sejamos aparentemente alvos dos bandidos. Se não fosse a união dos motoristas, certamente estaria bem pior”, avalia.

Motoristas cobram mais proteção das plataformas

Os dois profissionais também apontam limitações nas ferramentas de segurança oferecidas pelas plataformas.

Guilherme reconhece que recursos como GPS, registro das corridas e canais de suporte são importantes, mas considera que ainda faltam mecanismos capazes de garantir uma resposta rápida em situações de emergência.

Na avaliação dele, as empresas poderiam aprimorar o monitoramento das viagens, identificar padrões de risco e facilitar o acionamento das autoridades em situações de ameaça, perseguição ou agressão.

Jonas, por sua vez, considera que a própria plataforma representa uma das principais ferramentas de proteção disponíveis atualmente. Ele cita iniciativas adotadas pela OPER após o assassinato de um motorista parceiro.

Segundo ele, a empresa está implementando rastreadores veiculares e câmeras de vídeo de alta qualidade nos automóveis, conectados a uma central de monitoramento.

O motorista defende que o acompanhamento das corridas em tempo real pode ajudar a identificar situações suspeitas e inibir a ação de criminosos.

Para Guilherme, entretanto, a responsabilidade pela segurança não pode ficar concentrada nas empresas. Ele defende uma atuação conjunta entre plataformas, forças policiais e poder público, com reforço do policiamento em regiões e horários de maior vulnerabilidade.

“Espero que a segurança dos motoristas seja tratada com mais prioridade, para que ninguém precise colocar a própria integridade física em risco para obter uma renda extra”, afirma.

Perseguições e ameaças em Mariana e Ouro Preto

Além dos episódios de violência, motoristas de aplicativo também relatam conflitos entre profissionais que atuam em diferentes plataformas na região.

Em Mariana e Ouro Preto, denúncias de perseguições e ameaças envolvendo condutores da 99 acenderam um alerta entre os trabalhadores. Os relatos apontam que as intimidações teriam começado após a chegada da plataforma a Mariana.

Segundo os profissionais, alguns motoristas passaram a ser seguidos durante o trabalho e questionados sobre sua procedência. Em determinadas situações, os episódios teriam provocado o afastamento temporário de condutores da cidade por medo de novas ameaças.

Um dos casos relatados aconteceu em 19 de junho de 2026. Na ocasião, um motorista que realizava uma corrida de Ouro Preto para Mariana teria sido intimidado por outros profissionais, que afirmaram que a 99 não seria bem-vinda no município e que ele sofreria consequências caso continuasse trabalhando na cidade.

Outro episódio relatado envolve um motorista que teria sido cercado por ocupantes de um carro branco na região da rodoviária de Mariana. Um dos profissionais descreveu a situação enfrentada pelos trabalhadores.

“A partir do momento em que a 99 chegou em Mariana, os motoristas começaram a ser perseguidos por outros motoristas de outros aplicativos. Começaram a ser seguidos. Um motorista da 99, que veio pegar uma corrida de Ouro Preto a Mariana, foi intimidado. Falaram que a 99 não era bem-vinda lá e que ia sofrer as consequências se continuasse rodando. Vários carros da 99 estão sendo seguidos em Mariana”, relatou.

Os episódios reforçam outra preocupação da categoria: além dos riscos relacionados aos passageiros e à criminalidade, os profissionais também dizem enfrentar situações de intimidação durante o exercício da atividade.

Morte de motorista

A morte de Hernandes Nascimento, de 46 anos, foi o episódio mais grave envolvendo motoristas de aplicativo na região em 2026.

Ele foi encontrado morto na noite de 5 de outubro, às margens da MG-440, entre Santo Antônio do Leite e Engenheiro Corrêa, distritos de Ouro Preto.

De acordo com informações da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), durante uma corrida, o passageiro de 33 anos teria atacado o motorista com uma facada no pescoço, com a intenção de roubar o veículo.

Ainda conforme a versão apresentada pela corporação, Hernandes saiu do carro e tentou fugir. O suspeito teria assumido a direção de um Chevrolet Prisma e atropelado a vítima, que foi arremessada para uma ribanceira. O corpo foi localizado posteriormente, assim como o automóvel utilizado na corrida.

O segundo suspeito, um passageiro de 29 anos, que acionou a Polícia Militar, foi localizado a aproximadamente dois quilômetros do local. Segundo a corporação, ele apresentava sinais de estar sob efeito de substância ilícita e apresentou uma versão considerada controversa pelos militares.

Os dois homens foram encaminhados à Delegacia da Polícia Civil, juntamente com os materiais apreendidos.

Mobilização de motoristas

A morte provocou comoção entre os trabalhadores do transporte por aplicativo. Na tarde de 6 de outubro, motoristas de diferentes plataformas organizaram uma carreata em homenagem a Hernandes e em cobrança por justiça.

A mobilização saiu de Cachoeira do Campo em direção a Santo Antônio do Leite, onde o motorista foi sepultado. Dezenas de veículos participaram do ato, muitos com balões pretos e mensagens de protesto e homenagem.

Durante o percurso, os participantes fizeram um buzinaço para chamar a atenção da população. Entre as reivindicações estavam o esclarecimento das circunstâncias da morte, a apuração completa do caso e a responsabilização dos envolvidos.

Entre os colegas, Hernandes era lembrado como um homem tranquilo, trabalhador e esforçado.

A mobilização também evidenciou a preocupação de uma categoria que, diariamente, circula por diferentes bairros, distritos e municípios para garantir o próprio sustento.

Enquanto os casos de violência, ameaças e perseguições continuam alimentando o sentimento de insegurança, os motoristas cobram medidas concretas para que trabalhar ao volante não signifique colocar a própria vida em risco.

Imagem: Imagen cedidas ao Jornal O Liberal
Sobre o autor
  • Marcos Delamore
    Graduado em Jornalismo e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Repórter de conteúdo multiplataforma em O Liberal. Experiência em jornalismo esportivo, rádio, impresso e assessoria de comunicação.

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