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Manual de sobrevivência aos fantasmas. Lição 1:

Você vai ver fantasmas e eles não podem te fazer mal – a não ser para a sua cabeça

Há um espectro conceitual que ronda a história da arte: o de fantasmas.

Fantasmas é como são chamadas imagens que não temos meios culturais para compreender seus significados: ícones de outros povos, imagens de outros tempos, aparições de outras formas de ser, traços de estilo que permanecem ao longo da história, aquilo que nossos olhos produzem antes sequer de ver a imagem, as interpretações anacrônicas que fazemos…

 Essas aparições, em certos sentidos, nos assombram, apontam os nossos abismos.

Esse é um desafio real da vida na Região dos Inconfidentes, aprender a conviver com tantas imagens de outros tempos. Ou usando este modo de falar: aprender a conviver com fantasmas            

Eu não sei se fantasmas são reais: mas em Ouro Preto eles existem.” Ou pelo menos foi o que me disse o simpático casal de idosos super bem humorados, anfitriões da minha estadia de aplicativo, quando me preparava para mudar para a cidade.

Não tinham dito nada enquanto achavam que éramos turistas, nessa condição nos falavam sobre as igrejas, a locomoção, sobre onde o carro não sobe quando chove, onde comer…  Mas quando revelamos que estávamos nos mudando para cá o assunto naturalmente mudou, preço do aluguel, localização, dicas sobre compras, como controlar o mofo e… fantasmas.

“Olha, uma coisa eu vou dizer pra você que está chegando” – disse o senhor – “você vai ver fantasmas, todo mundo vê. A vizinhança aqui, não tem uma só pessoa que não viu, ouviu, sentiu, ou qualquer coisa nesse sentido. E assim, não vai ser vultozinho não, meu amigo. É coisa assustadora mesmo, seres deformados, mutilados, choros arrepiantes, pedidos de socorro. E eu estou te preparando, porque, assim, é de se desesperar.”

Eu não sabia se ria, se ficava com medo, se era uma pegadinha, se perguntava mais…

A curiosidade sempre vence: “O que você viu?”

“Na minha casa temos um problema com correntes. Na alta madrugada somos acordados pelo som que só uma corrente pesadíssima faria se fosse arrastada, e ela vai passando pelos cômodos, acompanhada de gemidos sofribilíssimos.”

“E o que vocês fazem?” – perguntei.

“E o que dá para fazer contra fantasmas? A gente espera eles passarem!”

“Sentindo medo?”

“Terrivelmente!”

Aquilo me pegou de verdade, ele não estava brincando, rindo, mentindo. Dava para ver que ele acreditava mesmo naquilo. Ao ver minha cara de surpresa e despreparo ele resolveu me ensinar a lidar com eles e eis que recebi a primeira lição deste manual:

“Eu parei de sentir medo, pois saiba uma coisa, por mais que as aparições sejam terríveis, tenha em mente que eles não vão te fazer mal. De todos que eu conheço que viram, e são quase todos que conheço, ninguém foi ferido por eles. O mal que podem te fazer é na sua cabeça. Se ficar muito preocupado ou impressionado, eles podem despertar o pior em você: por isso, nunca baixe a guarda.”

Já tinha por onde começar, embora, àquela altura ainda não estava convencido de que os fantasmas realmente existem. Isto é, por aqui.

Vitrais de entrada da Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora das Mercês e Perdões

Sobre o autor: Vinicius Tobias é poeta e escritor. Autor dos livros “A estrada e o Moirão” (Ed. Capim Limão) e “A luz da minha irmã” (Ópera Editorial) e de uma dezena de auto-publicações. Foi figura central no movimento Larvas Poesia que marcou a produção independente da região das vertentes. É também doutor em Ciência da Religião, especialista em Religião e Arte e professor da Rede Municipal de Itabirito.

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