Desde as eleições de 2018 que muito se discute, no país, sobre as possibilidades de uma candidatura “de centro” se viabilizar eleitoralmente na disputa presidencial. De fato, foram muitos candidatos que tentaram se mostrar desse modo, mas os que chegaram em primeiro e em segundo lugar no primeiro turno de 2018 foram candidatos representantes de tendências polarizadas, um à esquerda e outro à direita. E o segundo turno foi uma disputa entre candidatos que vieram dos polos mais extremados da escala política.
Desde a posse de Jair Bolsonaro que partidos auto identificados como “de centro” testaram diversos nomes para a disputa presidencial de 2022, mas o insucesso da empreitada fica bem visível nas pesquisas de intenção de voto, que revelam que entre 60% e 65% do eleitorado está escolhendo candidatos dos polos mais extremados (Bolsonaro e Lula). A parcela restante do eleitorado (em torno de 35%) fragmenta suas preferências em diversos nomes de diversas tendências políticas, além de optarem de votar nulo ou em branco nessa disputa.
A ciência política, através do teorema do eleitor mediano, explica esse fenômeno recorrente no Brasil. O eleitorado se divide, basicamente, em dois grupos: eleitores militantes e eleitores não militantes. Os militantes ocupam uma parcela significativa do eleitorado (nos últimos anos, no país, em torno de 35% votaram e ainda votam em Bolsonaro, e em torno de 30% votaram e ainda votam em Lula). Dos 35% restantes, um pequeno percentual milita em candidaturas da extrema esquerda e a maior parte não tem candidato escolhido. Em torno de 30% estão situados como eleitores medianos (de acordo com a conjuntura política esse percentual pode aumentar ou diminuir). Cabe destacar que o eleitor mediano não tem partido nem candidato de coração, é muito exigente nas eleições (tende inclusive a se recusar a votar nos candidatos lançados) e não é fiel às suas eventuais escolhas (na próxima eleição pode votar em outro candidato sem nenhuma dificuldade).
Historicamente, nas disputas presidenciais no país, um candidato que teve pelo menos um terço do eleitorado votando nele ou ganhou a eleição no primeiro turno, ou chegou em primeiro lugar no primeiro turno, ganhando depois no segundo. Um terço do eleitorado significa, pelo menos, 46% dos votos válidos, ou nominais, na eleição. É esse o objetivo que os candidatos buscam nas disputas eleitorais. Assim, de acordo com as últimas pesquisas de intenção de voto presidencial no Brasil, Bolsonaro já tem garantido, no mínimo, um lugar no segundo turno, com grandes chances de chegar em primeiro nesse turno. Lula é o outro favorito para conseguir a segunda vaga no segundo turno. Mas por que isso poderá acontecer?
Como explica o teorema do eleitor mediano, o eleitor não militante é flexível nas suas opções políticas e é mais fácil um candidato que vem de um polo extremado conquistar a parcela necessária de votos nesse eleitorado mediano que um candidato “de centro” conseguir conquistar os votos dos eleitores militantes, pouco afeitos a mudar suas opções políticas e sua fidelidade a um candidato que represente sua tendência.
De fato, um candidato que se queira de centro imagina que terá a totalidade dos votos não militantes e que será mais fácil, depois, conquistar os votos dos militantes. Mas para que isso aconteça esse candidato “de centro” terá que assumir posições políticas, terá que se posicionar ou mais à esquerda ou mais à direita, enfim, terá que sair de cima do muro, como se diz popularmente. E essa operação não é fácil, pois ao fazer isso ele tende a se aproximar das posições extremadas e se afastar dos leitores não militantes. Além disso, ele terá que ser convincente para conseguir atrair votos dos eleitores mais extremados, ou militantes. Não é uma tarefa nada fácil. Por outro lado, um candidato posicionado em um dos extremos do espectro político tem uma base eleitoral sólida (militantes) e seu esforço será o de conquistar uma parcela do eleitorado não militante suficiente para que ele obtenha, pelo menos, um terço do eleitorado total votando nele no turno.
Consequentemente, o fato de até hoje nenhum nome “de centro” ter conseguido uma intenção de votos capaz de competir contra o favoritismo de Bolsonaro e Lula indica que, até o momento, a eleição de 2022 será decidida entre esses dois nomes. Uma das principais razões, além do que o teorema do eleitor mediano explica, é que tanto Bolsonaro quanto Lula tem uma qualidade eleitoral rara: eles são carismáticos, têm uma postura e uma capacidade de comunicação política que mobiliza milhares de eleitores a seu favor e são convincentes o suficiente para seduzir uma parcela significativa do eleitor mediano. Para que uma terceira via, um candidato “de centro” consiga competir contra Bolsonaro e Lula ele também deverá ter carisma. E carisma não é algo feito em assessorias políticas, ou de comunicação. É uma qualidade natural que um indivíduo possui. Nessa altura dos acontecimentos, um nome “de centro” em condições de competir contra Bolsonaro e Lula já deveria ter aparecido e se mostrar como um fenômeno eleitoral. E, de acordo com as pesquisas de intenção de voto presidencial para 2022, isso ainda não aconteceu, e dificilmente acontecerá.
Resumindo, há espaço no eleitorado brasileiro para uma terceira via, mas não há candidatos viáveis que consigam ocupar esse lugar.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP