Bom, dirão que o carnaval passou! Passou mesmo? Até certo ponto, passou, e, há muito tempo, deixando saudades e uma eterna e dolorida expectativa por sua volta. Só que o tempo não tem e não dá retorno. O que se foi, foi! Passou o carnaval-arte, passou o carnaval do povo, com o povo, pelo povo e para o povo, em três dias únicos entre os trezentos e sessenta e cinco dias contidos no calendário, setenta e duas horas de pura alegria e muita descontração, mas não muito além dos limites. Passou o carnaval-poesia, até mais romântico, da música bem elaborada, da letra bem dita e bem entendida; passou o carnaval das fantasias coloridas, das figuras típicas, pierrô, arlequim e colombina; passou o carnaval dos mascarados, a ocupar as ruas, em alternância com a festa noturna, enquanto o sol não se punha; passou o carnaval do deboche escrachado e da crítica sarcástica e satírica a personagens, coisas e fatos do ano anterior, notadamente os de cunho político, excetuando-se os de natureza religiosa, aos quais devia-se respeito; passou o carnaval do confete e serpentinas coloridas, bem como do xxxxxxxx (nome omitido para não ser considerado apologia ao, agora, ilícito) e toda uma sorte de indispensáveis adereços carnavalescos. Passou, enfim, o carnaval dos grandiosos e animados bailes, iniciados após a folia de rua e estendidos até o raiar da aurora. Passou o carnaval da exceção em relação às regras do quotidiano, quando, na quarta-feira de cinzas, tudo voltava ao eixo civilizatório, limpando-se as ruas dos confetes e serpentinas, guardando-se as fantasias, suspendendo-se, por quarenta e sete dias, as festas ruidosas. O carnaval era, então, uma ilha no tempo, aberta a todos a cada ano, para que pudessem se soltar um pouco das amarras civilizatórias. Essa ilha não mais existe! O que era do, com, pelo e para o povo passou a outras mãos, degradou-se e lhe foram dados outros objetivos; lá se foi a arte, especificamente a música, mas ficaram os resquícios incivilizados, no comportamento inadequado de pessoas nas ruas; barulho desnecessário e provocatório, perturbação do sossego, desrespeito a tudo e a todos, ocupação de espaços destinados a transeuntes, depredação do patrimônio público e privado. O bom carnaval passou, ficou perdido no tempo ou gravado na memória dos que o fizeram e vivenciaram. Sobreviveu o carnaval mediocridade, caricatura mal-feita daquilo que foi, somado aos efeitos colaterais a perdurar por todo o ano, e, não mais por só três dias! A mediocridade não passou; perdura por todo o ano! Era uma vez o carnaval…