Na primeira edição do ano o berro crítico ou de indignação é, infelizmente, substituído pelo lamento; lamento triste pela perda física do Dedê, entre nós! No primeiro fim-de-semana já não mais se ouviram as sonoras risadas do Dedê que, por muitos anos, animou com sua alegria ingênua as pessoas nas ruas. Tantas pessoas passam pela vida e não deixam marcas, apesar do nome, CPF e conta bancária, mas Dedê era diferente. Era apenas Dedê, a correr para baixo e para cima, tendo como marca própria a deficiência mental, que não o impedia bem relacionar com os semelhantes. Por isso deixa saudades! Dotado de boa voz e habilidade no violão bem afinado, era comum e agradável vê-lo e ouvi-lo a desfilar pelas ruas, a cantar hinos religiosos. As letras saíam estropiadas devido a problemas na dicção, mas a execução musical faria inveja a muitos ditos “artistas”, se estes tivessem consciência da própria insignificância. Tem-se, muitas vezes e erroneamente, a ideia da felicidade representada pela posse material, engano do qual Dedê era a prova, pois era feliz. Sim, era feliz! Com nada se aborrecia e com nada tinha que se preocupar, a não ser por estar bem-informado e informar aos demais sobre falecimentos. Era o porta-voz dos falecimentos e fazia questão de comparecer aos velórios, durante os quais se conservava em silêncio respeitoso. Os velórios eram a exceção na alegria, raramente cortada pela seriedade. Num dos raros momentos de silêncio, sentado num banco de rua, respondeu “estou pensando”, quando lhe foi perguntado se estava triste. Que esteja com Deus, Dedê!
Ademir Valente, nosso eterno Dedê no escritório do Jornal O Liberal.