Escultura que representa a pepita de ouro encontrada. Imagem: Victória Oliveira
Victória Oliveira
Há cidades que impressionam pelo tamanho. Outras, pela quantidade de atrações. E há aquelas que, mesmo discretas, carregam nas ruas, nas igrejas e na memória um pedaço da história de um estado inteiro. Itaverava faz parte desse último grupo.
Com pouco mais de cinco mil habitantes, o município guarda um dos capítulos mais importantes da formação mineira. Embora não tenha produzido o volume de ouro que projetou cidades como Ouro Preto, Itaverava guarda um protagonismo único: foi ali que nasceu o marco que daria início ao ciclo do ouro em Minas Gerais.
Mas, reduzir Itaverava ao seu passado seria injusto.A cidade reúne, em poucos quilômetros, alguns dos elementos que melhor traduzem a identidade mineira: a fé preservada em seu patrimônio religioso, os saberes transmitidos de geração em geração, a gastronomia do interior e a hospitalidade que faz qualquer visitante sentir-se em casa.
Durante a Press Trip Minas Inédita, no roteiro Vilas e Fazendas, promovido pelo Instituto Mundu, a equipe do O Liberal percorreu esses caminhos e encontrou uma cidade onde história, cultura e experiências se encontram para revelar diferentes formas de viver Minas Gerais.
Onde Minas começou a mudar
O próprio nome da cidade já revela parte de sua essência. De origem tupi, Itaverava significa “pedra brilhante”. Em 1694, foi registrado oficialmente o encontro de ouro na região onde surgiria o arraial de Itaverava. O episódio é considerado um marco decisivo para o início do ciclo do ouro em Minas Gerais.
Hoje, um monumento instalado no Centro Histórico relembra esse acontecimento. Produzida em concreto, a escultura do artista Felipe Rodrigues foi concebida como uma ferramenta de educação patrimonial, despertando em moradores e visitantes a reflexão sobre a importância daquele território para a história do estado.

E se a história do ouro ajudou a construir Minas, foi a fé que moldou muitas de suas cidades. Em Itaverava, esse legado se revela na Igreja Matriz de Santo Antônio. Erguida a partir de 1752 e tombada pelo IPHAN em 1984, ela abriga um valioso conjunto artístico do barroco mineiro.
Embora sua fachada tenha passado por modificações ao longo dos anos, o interior permaneceu praticamente preservado, reunindo um raro exemplo brasileiro de rococó integrado ao barroco mineiro. Entre as obras mais valiosas está a pintura do forro da capela-mor, atribuída a Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, considerado um dos maiores nomes da pintura barroca brasileira.
Mais do que um patrimônio histórico, a igreja continua sendo parte da vida cotidiana da população. Segundo a secretária municipal de Cultura e Turismo, Valdirene Rocha, e a turismóloga Mila Ribeiro, integrante da equipe da secretaria que nos acompanhou durante toda a visita pelo município, durante o processo de restauração, o templo nunca deixou de receber celebrações. Como é a única igreja matriz da cidade, as obras precisaram conviver com a rotina religiosa da comunidade. Enquanto uma parte permanecia isolada pelos tapumes, a outra seguia acolhendo as missas, demonstrando que preservar o patrimônio também significa preservar os vínculos afetivos construídos em torno dele.

Ao lado da matriz está outro patrimônio que surpreende os visitantes: o Sobrado do Padre Taborda. Construído no século XVIII, o casarão pertenceu ao primeiro vigário da cidade e também passa, agora, por um longo e cuidadoso processo de restauração. O trabalho avança gradualmente, tanto pela complexidade técnica de uma intervenção em um bem tombado quanto pela disponibilidade dos recursos necessários.
O imóvel guarda um detalhe raro na história da arte brasileira: pinturas atribuídas ao Mestre Ataíde em uma residência civil. A maior parte da produção do artista está presente em igrejas, tornando o sobrado uma exceção valiosa e um importante registro da presença de sua obra em outros espaços. A expectativa é que, após a conclusão das obras, o espaço passe a funcionar como um centro cultural.
O saber da cachaça transformado em escola
Para além do patrimônio material, os saberes e modos de fazer também ocupam lugar de destaque na identidade mineira. Poucos produtos representam tão bem essa tradição quanto a cachaça de alambique. Embora seja uma bebida brasileira, Minas Gerais é hoje o maior produtor nacional de cachaça artesanal e concentra o maior número de alambiques registrados do país. Sua importância é tamanha que a bebida foi reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural de Minas Gerais. Em Itaverava, esse conhecimento ganhou forma na Fazenda Escola Cana Brasil.
Mais do que uma propriedade rural, o espaço funciona como um centro de formação de mestres alambiqueiros. Ali, alunos aprendem, na teoria e na prática, todas as etapas da produção artesanal da cachaça, desde o cultivo da cana até os processos de fermentação, destilação e envelhecimento da bebida.

O envelhecimento da cachaça em diferentes madeiras transforma quimicamente a bebida. Os poros da madeira permitem a oxigenação e a troca de compostos orgânicos, reduzindo a acidez, suavizando o teor alcoólico e conferindo aromas, cores e sabores particulares, que variam conforme a espécie vegetal utilizada. Durante a visita, foi possível experimentar diferentes variedades e compreender como cada madeira influencia o resultado final.
Instalada em uma fazenda, a escola alia a tradição das antigas propriedades rurais às tecnologias mais modernas para produzir cachaças de alta qualidade. Além da formação profissional, a Cana Brasil também presta serviços para diferentes marcas, produzindo e envasando bebidas que chegam a diversas regiões do país, inclusive para produtores de Ouro Preto, demonstrando como um saber tradicional continua gerando desenvolvimento econômico. Os cursos são particulares, mas a instituição também mantém uma parceria frequente com o Sebrae para oferecer capacitações gratuitas.

Uma fazenda que transforma memória em acolhimento
O encerramento do roteiro acontece em um lugar onde passado e presente convivem de forma delicada. Essa é, aliás, uma realidade compartilhada por muitas fazendas históricas de Minas Gerais. Com quase 300 anos de história, o Haras Angelim – Fazenda Santa Rita preserva sua arquitetura colonial, móveis antigos e a atmosfera típica das antigas propriedades rurais mineiras.
Ali viveram e trabalharam pessoas escravizadas, lembrando que parte da riqueza construída durante os ciclos do ouro e da agricultura também nasceu de histórias de sofrimento. Reconhecer essa história é parte da proposta da fazenda. Sem apagar as marcas do passado, a propriedade busca construir novos significados para esse patrimônio, transformando um espaço marcado pela produção colonial em um lugar de acolhimento, convivência, preservação da memória e valorização da cultura mineira.

Hoje, o Haras Angelim abre suas portas para visitantes e mostra como antigas fazendas podem ganhar novos usos sem perder sua identidade histórica. A propriedade promove experiências ligadas à gastronomia, à vida no campo, ao contato com os animais e ao turismo de experiência, integrando visitantes, comunidade e patrimônio em uma vivência genuinamente mineira.
Quem visita o espaço encontra muito mais do que uma hospedagem ou um passeio rural. Encontra um modo de viver o interior mineiro. O café colonial, servido com bolos, quitandas, queijos, pães de queijo e café coado na hora, é apenas uma das experiências que convidam o visitante a desacelerar, apreciar a paisagem e compreender como tradição e hospitalidade continuam sendo parte da vida cotidiana da fazenda.

Muito além de um destino
Itaverava talvez ainda seja desconhecida para muitos viajantes. Mas justamente aí está parte de seu encanto. É uma cidade onde o turismo não acontece apenas pela contemplação dos monumentos, mas pelas experiências que aproximam o visitante das pessoas, dos sabores, da história e dos modos de viver.
Ali, o ouro deixou de ser a principal riqueza há muito tempo. Hoje, o que realmente brilha são as histórias preservadas, os saberes que continuam sendo ensinados, a fé que atravessa gerações e a hospitalidade da comunidade. Em Itaverava, a “pedra brilhante” que deu nome ao município já não simboliza apenas a riqueza mineral, mas a riqueza das mineiridades.
