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Estação de Engenheiro Corrêa é reinaugurada: o trem das memórias volta a passar

Estação de Engenheiro Corrêa é reinaugurada: o trem das memórias volta a passar

Imagem: Victória Oliveira / Victória Oliveira

Restaurada após décadas de abandono, estação histórica de 1896 renasce como espaço cultural e de convivência

Por muitos anos, a estação permaneceu em silêncio. O tempo e o abandono avançaram, mas não foram capazes de apagar a história nem o afeto guardados entre trilhos e paredes. O trem já não passa por Engenheiro Corrêa, mas a memória ferroviária do distrito voltou a ganhar vida neste domingo (14), com a reinauguração da Estação Ferroviária, um patrimônio que ajudou a formar a comunidade e agora renasce como espaço de cultura e convivência.

Inaugurado em 1896, o edifício, que completou 129 anos no último dia 1º de dezembro, foi restaurado com investimento de R$1,8 milhões e devolvido à população como local de memória, atividades culturais, potencial turismo e encontro comunitário.

A obra foi conduzida pela Holofote Cultural, com patrocínio da Herculano Mineração e do Grupo J. Mendes, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. O projeto contou ainda com apoio da Prefeitura de Ouro Preto e realização do Ministério da Cultura.

De ruínas à reconstrução completa

A estação foi inaugurada em como parte da antiga Estrada de Ferro Dom Pedro II, cujo contrato previa a ligação entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Mais do que um ponto de passagem, o equipamento foi decisivo para o povoamento e desenvolvimento do atual distrito de Engenheiro Corrêa, e permaneceu ativo até a década de 1990. Desde então, o prédio resistia como marco de memória, mas sofria com o abandono e a degradação ao longo do tempo.

Antes da restauração, a estação encontrava-se em estado avançado de deterioração, sem telhado, portas ou janelas, tomada por vegetação e com estruturas comprometidas. O processo de recuperação devolveu ao prédio suas características históricas, ao mesmo tempo em que o adaptou para novos usos.

O investimento total foi de mais de R$ 2,8 milhões, sendo R$ 2 milhões aportados pela Herculano Mineração e R$ 820 mil pelo Grupo J. Mendes. As intervenções incluíram a recuperação estrutural do edifício, implantação de projetos de iluminação integral, drenagem do terreno, cercamento com balizadores e correntes para impedir o acesso de veículos e animais, além da instalação de sistema de segurança eletrônica com câmeras, alarmes e um completo projeto de prevenção e combate a incêndio.

O projeto paisagístico contemplou todo o entorno da estação, com plantio de grama e arbustos, sistema de irrigação automática, recuperação da fonte original e revitalização da histórica caixa d’água, elemento fundamental do conjunto ferroviário.

A proposta é que a estação funcione, a partir de agora, como um espaço multifuncional, abrigando eventos, biblioteca, área administrativa e atividades culturais e socioeducativas. O local também poderá receber cursos, ações comunitárias, pesquisas, além de ser uma atração turística, contribuindo para o desenvolvimento econômico e cultural do distrito.

Imagens da estação antes do início da reforma. Imagem: Ane Souz via Holofote Cultural

Cerimônia marcada por emoção e memória coletiva

A reinauguração reuniu moradores do distrito, autoridades e representantes das empresas patrocinadoras. Estiveram presentes o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, a vice-prefeita Regina Braga, o presidente da Câmara Municipal, vereador Vantuir Silva, a vereadora Lillian França, o vereador Naércio Ferreira, o chefe de gabinete da Prefeitura de Itabirito, Orlando Caldeira, o vice-prefeito de Itabirito, Raphael Rondow, além de representantes da Herculano Mineração.

Um dos momentos mais simbólicos da cerimônia foi a abertura oficial das portas da estação, realizada pelo ex-funcionário da Rede Ferroviária, Murilo da Silva, que trabalhou no local ainda jovem, aos 16 anos, atuando na telegrafia. O gesto foi acompanhado por influenciadoras da região vestidas com trajes típicos do final do século XIX, com vestidos robustos e acessórios inspirados na época de inauguração da estação, o que agradou e emocionou o público presente ao recriar visualmente o passado ferroviário do distrito.

O evento também contou com apresentações culturais, presença de carros antigos de grupos da região e programação gratuita voltada para toda a família.

Murilo ao lado de influencers. Imagem: Victória Oliveira

Patrimônio que vive na memória das pessoas

Para Gilson Antunes, diretor da Holofote Cultural, a restauração vai além da recuperação física do prédio. “Quem viu a estação há alguns meses e vê como ela está agora se emociona. Mas é importante dizer que patrimônio não são apenas paredes”, destacou. Segundo ele, muitos ex-trabalhadores e moradores retornaram ao espaço para compartilhar histórias ligadas à estação. “O que mais ouvimos aqui foram relatos das pessoas que trabalharam neste lugar. A forma como elas contam essas histórias dá sentido ao prédio histórico. A estação estava abandonada há mais de 50 anos, mas a comunidade unida de Engenheiro Corrêa fez com que ela renascesse”, afirmou.

Representando a Herculano Mineração, Gilmar Vieira destacou a importância histórica da estação e o compromisso da empresa com a preservação cultural. “A ferrovia teve um papel fundamental no desenvolvimento de Minas Gerais e do Brasil.”

Ele afirmou ainda que o investimento reforça o compromisso da empresa com a preservação da cultura, da memória e da identidade das comunidades onde atua. De acordo com o gestor, a iniciativa contribui não apenas para a valorização do patrimônio, mas também para o fortalecimento do potencial de Engenheiro Corrêa.

Revelação da placa da obra. Imagem: Victória Oliveira

Homenagem e novos projetos anunciados

Durante a cerimônia, o vereador Naércio Ferreira anunciou que irá protocolar um requerimento para que a estação passe a se chamar Estação Júlia Braga, em homenagem à mãe da vice-prefeita Regina Braga, figura ligada à história e à comunidade do distrito. Visivelmente emocionada, Regina Braga destacou a importância do local para sua trajetória pessoal e para a identidade coletiva de Engenheiro Corrêa.

Em sua fala, o prefeito Angelo Oswaldo ressaltou o papel histórico da ferrovia no desenvolvimento de Minas Gerais e destacou uma série de investimentos realizados no distrito nos últimos anos. Ele mencionou obras como a reforma da escola, a construção de um novo posto de saúde, melhorias em prédios públicos, apoio à restauração da Igreja da Imaculada Conceição e pavimentações de estradas que ligam a região a Itabirito e Santo Antônio do Leire.

“Nosso trem já vem andando. Desde 2021, estamos presentes em Engenheiro Corrêa, e ele não vai parar por aqui. Ainda temos projetos como pista de caminhada, quadra esportiva, academia ao ar livre e a luta pela MG-030, um sonho de toda a nossa região”, afirmou o prefeito.

O prédio restaurado retoma, então, seu papel simbólico na história do distrito, de Ouro Preto e de toda Minas Gerais.

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