As eleições consagram a democracia brasileira. Muito disputada, em campanha acirrada pela polaridade ideológica, revela, ao final, a maturidade da democracia brasileira com o comparecimento dos eleitores às urnas e a manifestação majoritária do eleitorado pela reeleição do presidente Lula para um quarto mandato. É importante lembrar que tivemos recentemente, no Brasil, duas décadas de regime militar e ditatorial, em que presidentes e governadores foram indicados e não eleitos pelos votos diretos dos eleitores. Tivemos dois impedimentos de presidentes, uma tentativa de golpe de Estado, cassações, corrupção e escândalos. Mas a democracia brasileira se manteve apesar de ameaças autoritárias. E o voto popular se reafirma como pilar e festa maior da democracia brasileira, soberana e consolidada por estas eleições livres.
Reeleito, o presidente Lula inicia um quarto mandato com muitos desafios. Terá um Poder Legislativo hostil, no Senado e na Câmara Federal, e que já promete oposição. E não será fácil a montagem de um governo que possa permitir convivência administrativa capaz de implementar as muitas e graves iniciativas governamentais urgentes e necessárias. A questão fiscal exige ações imediatas e ameaça a saúde financeira do governo, podendo impedir ações que requerem mais investimentos públicos. A carga tributária elevada já não permite maiores arrecadações que possam suportar a pesada dívida pública. Saúde, educação, investimentos em infraestrutura, reforma do serviço público, Previdência, combate efetivo à criminalidade e melhoria da segurança pública exigem ações urgentes e mais gastos públicos. E impõe-se a continuidade do crescimento econômico, essencial à elevação do emprego e da renda dos brasileiros.
Há consenso de que o serviço público federal exige reformas urgentes. E amplas. E não só do Poder Executivo. Mas, especialmente, do Poder Judiciário, com muitos privilégios e “penduricalhos” salariais. E as empresas estatais precisam ganhar maior eficiência e reduzir gastos e déficits. A vida caótica nas grandes cidades exige ações urgentes e abrangentes em apoio aos governos estaduais e prefeituras, em infraestrutura, habitação, transportes públicos, saneamento básico e prevenção de acidentes climáticos, já emergenciais. E qualificação dos serviços públicos federais, para maior eficiência e menores gastos e privilégios. É preciso conter a captura dos serviços públicos por interesses particulares e paroquiais. E não há mais espaços generosos para as “bondades” governamentais.
O Brasil precisa modernizar-se. E investir em pesquisa científica, na qualificação de recursos humanos neste novo mundo da ciência, da tecnologia digital e da informática. Incentivar o ensino tecnológico e profissional. E ampliar as relações internacionais, no comércio, na cooperação científica, nos debates de interesse de todos. São questões urgentes que não foram tratadas convenientemente nas campanhas, mas que se apresentam aos novos governantes e merecem ser lembradas. O processo eleitoral deve servir para um debate sobre as questões básicas da sociedade, explicitando prioridades e urgências que devem ser cobradas dos eleitos, nesta sociedade atual em que as pessoas se mostram mais bem informadas pela extraordinária evolução dos meios de informação e divulgação. E as promessas devem ser cobradas.
O presidente Lula promete mudanças no seu modo de governar. Experiente, sabe das dificuldades e manifesta disposição para os diálogos necessários. Terá que realizar composições políticas e partidárias para aprovar as medidas governamentais e as reformas que se apresentam como urgentes no momento. Como, por exemplo, a reforma do Poder Judiciário, complexa e extraordinária, mas necessária.