Vista aérea do Santuário do Bom Jesus do Bacalhau. Imagem: Gabriel Araújo/ Secult-MG/ Victória Oliveira
No último destino da Press Trip Minas Inédita, roteiro revelou a força da religiosidade, das paisagens naturais e da produção artística que fazem de Piranga um dos territórios mais autênticos de Minas Gerais.
Berço de acontecimentos que ajudaram a formar o estado, Piranga é conhecido pelo patrimônio histórico, pelas tradições religiosas e por integrar importantes capítulos da ocupação do território mineiro. Mas, para além desse legado, guarda uma riqueza construída diariamente por suas comunidades, por seus modos de vida e pela forma acolhedora de receber quem chega.
Foi justamente esse outro olhar que guiou o último dia da Press Trip Minas Inédita – Circuito Vilas e Fazendas, promovida pelo Instituto Mundu e acompanhada pela equipe do O Liberal. O roteiro percorreu diferentes expressões da identidade piranguense, passando pela religiosidade do distrito de Santo Antônio do Pirapetinga, conhecido como Bacalhau, pelas experiências em meio à natureza e pela arte que transforma memória em monumento.
O distrito de Bacalhau, localizado a cerca de 12 quilômetros da sede de Piranga, recebe esse nome em referência a um antigo proprietário de terras da região, conhecido como Barra do Bacalhau. Hoje, o lugar é reconhecido como um dos principais destinos de turismo religioso de Minas Gerais e também como um território onde fé, cultura e identidade caminham lado a lado, revelando um patrimônio que vai muito além de seus templos.
Fé que atravessa gerações
Um dos maiores convites para conhecer Piranga nasce da fé. Não apenas pela imponência de seus templos ou pela beleza do patrimônio religioso, mas pela devoção que, há mais de dois séculos, continua reunindo milhares de pessoas em um pequeno distrito da zona rural.
Em Santo Antônio do Pirapetinga, mais conhecido como Bacalhau, a religiosidade faz parte da paisagem e da identidade da comunidade. Reconhecido oficialmente como território quilombola em 2019, o distrito preserva tradições que atravessam gerações e, ao mesmo tempo, fortalece outras manifestações culturais que vêm sendo retomadas nos últimos anos, como o Congado. A tradição, embora recente em sua reorganização local, representa um importante movimento de valorização das raízes afro-brasileiras da comunidade e se soma à atuação da Corporação Musical Bom Jesus, presença constante nas celebrações religiosas que movimentam o distrito.

É nesse cenário que acontece um dos mais antigos jubileus de Minas Gerais. Entre os dias 1º e 15 de agosto, milhares de romeiros chegam a Bacalhau para participar do Jubileu do Senhor Bom Jesus, manifestação religiosa que, em 2026, celebra sua 240ª edição. Muitos percorrem quilômetros de caminhada até o distrito. Alguns grupos partem de Ouro Preto e levam dois dias de peregrinação para cumprir uma tradição passada entre gerações.
Quem recebe esses fiéis encontra um conjunto arquitetônico que também conta a história da devoção. O Santuário do Senhor Bom Jesus do Bacalhau, tombado pelo IPHAN como patrimônio nacional, começou a receber romarias ainda no século XVIII, antes mesmo da construção da igreja em sua forma atual. Ao redor do templo surgiram pequenas casas destinadas a acolher gratuitamente os romeiros que chegavam após longas jornadas. Muitas delas permanecem preservadas e continuam abrindo suas portas apenas durante o jubileu, mantendo viva uma forma de hospitalidade que resiste ao tempo.
Durante a visita da equipe do O Liberal, o pároco Vítor Nogueira conduziu o grupo pelo santuário e apresentou a história da devoção, enquanto a comunidade já vive a expectativa para receber mais uma edição do jubileu. Segundo a tradição local, a imagem do Senhor Bom Jesus foi encontrada após antigos conflitos ocorridos na região e levada para a antiga Capela de Santo Antônio. No entanto, ela reaparecia repetidamente no alto do morro onde hoje está o santuário. Interpretando o episódio como um sinal divino, os moradores decidiram construir ali a nova igreja. Outra narrativa preservada pelos fiéis conta que, durante a construção, uma nascente passou a brotar morro acima, garantindo água para a obra e reforçando o caráter milagroso atribuído ao lugar.
O interior do santuário guarda um patrimônio artístico igualmente expressivo. As pinturas do forro da nave, da capela-mor, da Via-Sacra e do camarim do Senhor Bom Jesus são atribuídas, em grande parte, a Francisco Xavier Carneiro, um dos principais representantes do Rococó mineiro, compondo um conjunto que une arte sacra e memória religiosa.
Mas talvez nenhum espaço emocione tanto quanto a Sala das Graças, também conhecida como Sala dos Milagres ou dos Ex-votos. Ao lado da imagem original do Senhor Bom Jesus, cartas manuscritas, fotografias, objetos pessoais e representações de partes do corpo narram histórias silenciosas de cura, agradecimento e esperança. Cada peça deixada ali registra uma experiência de fé e transforma o ambiente em um arquivo vivo das relações construídas entre os devotos e o santuário ao longo de gerações.

Nos últimos anos, o complexo já passou e continua passando por obras de restauração e conservação, incluindo intervenções nos telhados, recuperação de elementos artísticos, melhorias nas antigas casas dos romeiros e implantação de novas estruturas para acolher os visitantes durante o jubileu. Um trabalho que busca garantir que, a cada agosto, Bacalhau continue recebendo milhares de peregrinos sem perder a autenticidade que tornou o lugar uma das mais importantes expressões da religiosidade popular mineira.
A experiência religiosa em Bacalhau, no entanto, não se resume ao santuário. A Capela de Santo Antônio, onde a imagem do Senhor Bom Jesus permaneceu antes da construção do templo, e as ruínas da antiga Capela de Nossa Senhora do Rosário, ambas tombadas pelo IEPHA, ajudam a contar diferentes capítulos da formação da comunidade.
Juntas, elas revelam que a fé, ali, não está apenas nas celebrações ou nos edifícios históricos, mas na memória coletiva de um povo que continua encontrando na tradição um caminho para preservar sua identidade.
A natureza também recebe os visitantes em Piranga
Se a fé conduz milhares de visitantes a Piranga todos os anos, a natureza convida a permanecer por mais tempo.Cercado por montanhas, rios e áreas preservadas, o município reúne belas paisagens naturais, com destaque para o Rio Piranga e para a Cachoeira Zé de Arminda, um dos principais atrativos da região, com ponte pênsil, poço para banho e contato direto com a natureza.
Foi nesse cenário que a equipe da Minas Press Trip conheceu o Chalé Caixinha e Marcelina, empreendimento que une hospedagem, gastronomia e turismo de experiência. Cercado pelo verde e pelo som de uma pequena queda d’água, o espaço proporciona ao visitante a sensação de estar imerso em outro ritmo, onde a tranquilidade da paisagem é parte da experiência. Novos chalés estão sendo construídos para ampliar a capacidade de receber turistas sem perder a essência acolhedora do lugar.
Além do descanso, o empreendimento valoriza os saberes tradicionais da região. Durante a visita, a equipe participou da construção de uma parede de pau a pique, técnica centenária da arquitetura rural mineira que mantém vivos conhecimentos transmitidos entre gerações.
O acolhimento, tão característico do interior de Minas, transforma uma simples hospedagem em uma oportunidade de conhecer de perto o modo de vida de quem faz do território seu maior patrimônio.


A memória moldada em concreto
A arte também ocupa um lugar de destaque na construção da identidade de Piranga. Na sede do município, o ateliê do escultor autodidata Felipe Rodrigues revela uma forma pouco convencional de contar a história de Minas Gerais: por meio de esculturas monumentais em concreto armado que transformam personagens, acontecimentos e símbolos regionais em obras de grande escala.
Com formação técnica em edificações e passagem pela engenharia industrial, Felipe decidiu, em 2018, transformar completamente sua trajetória profissional para dedicar-se à arte. Hoje, produz esculturas inspiradas na identidade, na memória e nos personagens que ajudaram a construir a história mineira.
O processo chama atenção principalmente de quem está acostumado às tradicionais esculturas em pedra-sabão. Enquanto o material eternizado por mestres como Aleijadinho é esculpido retirando matéria, as obras de Felipe nascem no caminho inverso: são construídas de dentro para fora, a partir de estruturas metálicas que recebem sucessivas camadas de concreto até ganharem forma. O resultado são esculturas que chegam a pesar toneladas e ocupam espaços públicos de municípios como Itaverava, Conceição da Barra de Minas e Presidente Bernardes.
Ao lado de Guilherme, responsável pela articulação de projetos culturais, pesquisa histórica e conexão entre instituições e territórios, o artista busca transformar cada monumento em uma ferramenta de valorização da memória local. A proposta vai além da escultura: futuramente, as obras também deverão dialogar com vídeos produzidos com apoio da inteligência artificial, ampliando as narrativas e permitindo que visitantes conheçam as histórias por trás de cada criação.

Um território onde tudo se conecta
Foi impossível não perceber um simbolismo especial naquele último encontro. Logo no primeiro destino da Press Trip Minas Inédita pelo Circuito Vilas e Fazenda, em Itaverava, a equipe conheceu a escultura da Primeira Pepita de Ouro, também criada por Felipe Rodrigues. A obra representa o instante que marcou o início de um novo ciclo para toda a região. Ao reencontrar o artista no encerramento do roteiro, ficou evidente que as cidades visitadas não se conectam apenas pelas estradas, mas pelas histórias, pelas pessoas e pela vontade coletiva de preservar aquilo que torna cada território único.
Em Piranga, a viagem terminou como começou: mostrando que Minas é feita de patrimônios materiais e imateriais, de comunidades que mantêm vivas suas tradições, de artistas que transformam a memória em obra e de moradores que recebem cada visitante como quem abre a porta da própria casa.
