Victória Oliveira
Imagem: Gabriel Araújo/ Secult MG
Quem viaja por Minas Gerais não atravessa apenas cidades. Percorre histórias, prova sabores, contempla paisagens e descobre pessoas que fazem da identidade mineira um patrimônio vivo. Com o propósito de revelar um estado que vai além de seus destinos turísticos mais conhecidos, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG) criou o programa Minas Inédita, iniciativa que reúne mais de 40 vilas, distritos e pequenas localidades distribuídas de norte a sul do estado, convidando visitantes a conhecer um patrimônio vivo, construído por comunidades que preservam e ressignificam a cultura, os saberes e a hospitalidade tipicamente mineiros.
O programa foi apresentado oficialmente à imprensa durante um encontro realizado na cobertura do Centro de Cultura Presidente Itamar Franco, em Belo Horizonte. O lançamento reuniu jornalistas de diferentes regiões do estado e do país, além do secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leonidas Oliveira, em um momento dedicado à apresentação da proposta e das potencialidades do turismo mineiro.
O secretário levou os convidados à reflexões sobre as chamadas “mineiridades”, conceito que reúne valores, tradições, modos de fazer e de receber que caracterizam a identidade mineira. O encontro também destacou a diversidade do território, que abriga o maior número de municípios e distritos do Brasil.
A proposta do Minas Inédita é justamente ampliar esse olhar. Ao longo dos roteiros da Press Trip, realizada entre os dias 25 e 29 de junho, jornalistas, influenciadores e comunicadores vivenciaram experiências ligadas ao turismo de natureza, à gastronomia, ao patrimônio histórico, ao artesanato, à produção rural e às manifestações culturais de cada comunidade. A programação incluiu visitas a produtores locais, empreendimentos turísticos, atrativos naturais e bens históricos, fortalecendo a divulgação desses destinos e estimulando um turismo que valoriza as pessoas, a memória e a economia local.
Entre os oito roteiros criados pelo programa está o circuito “Vilas e Fazendas”, do qual o jornal O Liberal foi um dos veículos convidados a participar. Nossa equipe percorreu um trajeto marcado por encontros, paisagens e histórias que revelam diferentes faces da mineiridade. O percurso passou pelos municípios de Itaverava, Catas Altas da Noruega, Piranga e pelo distrito de Santo Antônio do Pirapetinga, conhecido popularmente como Bacalhau, proporcionando uma imersão em comunidades que preservam tradições centenárias, belezas naturais e um modo de vida que faz da simplicidade uma de suas maiores riquezas.
Ao longo dos dias de viagem, cada parada se transformou em uma oportunidade de conhecer personagens, sabores, construções históricas e paisagens que ajudam a compreender por que Minas Gerais continua surpreendendo até mesmo quem acredita já conhecê-la bem.
Primeira parada | Itaverava: onde um capítulo da história de Minas começou

Imagem: Gabriel Araújo/ Secult MG
O roteiro Vilas e Fazendas começou em Itaverava, município cujo nome, de origem tupi, significa “pedra brilhante”. Foi ali que, em 1694, aconteceu o primeiro registro oficial da descoberta de ouro comunicado à Coroa Portuguesa, marco que impulsionou o ciclo do ouro em Minas Gerais. Hoje, um monumento no Centro Histórico preserva essa memória e convida à reflexão sobre a importância do patrimônio cultural. Com menos de seis mil habitantes, cidade guarda riquezas que vão muito além de seu tamanho.
A primeira visita foi à Igreja Matriz de Santo Antônio, tombada pelo IPHAN. Única igreja do município, ela conserva um dos conjuntos artísticos mais harmoniosos de Minas Gerais. Apesar das mudanças sofridas pela fachada ao longo do século XX, seu interior permaneceu praticamente intacto, preservando importantes obras atribuídas a Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, um dos maiores nomes da pintura barroca brasileira.
Ao lado da igreja está o Sobrado do Padre Taborda, também tombado pelo IPHAN. Construído no século XVIII, o casarão foi residência do primeiro vigário da cidade e passa por um cuidadoso processo de restauração. Ali também estão pinturas atribuídas ao Mestre Ataíde, um fato muito raro por se tratar de uma residência civil, já que a maior parte da produção do artista está presente em igrejas.
A programação seguiu para a Escola de Alambique Cana Brasil, uma fazenda-escola onde cursos de produção de cachaça de alambique, rapadura e açúcar mascavo unem teoria e prática na própria estrutura produtiva. A visita terminou com uma degustação de cachaças produzidas no local,que depois seguem para todo o estado e país, valorizando um dos produtos mais tradicionais da cultura mineira.
O primeiro dia foi encerrado no Haras Angelim Fazenda Santa Rita, propriedade com quase 300 anos de história que preserva a arquitetura, o mobiliário e a memória do interior mineiro. Hoje, a fazenda recebe visitantes interessados em experiências que unem gastronomia, natureza, hospitalidade e a tranquilidade típica da vida no campo.
Segunda parada | Catas Altas da Noruega: a cidade onde uma santa caiu do céu

Imagem: Gabriel Araújo/ Secult MG
No segundo dia, o destino foi Catas Altas da Noruega, um dos menores municípios de Minas Gerais, com pouco mais de três mil habitantes. A visita começou pela Igreja de São Gonçalo do Amarante, iniciada em 1727. O templo reúne elementos do barroco, do rococó e de períodos posteriores, revelando diferentes momentos da arte sacra mineira.
Foi ali que a equipe conheceu uma das histórias mais curiosas da viagem: a da imagem de Nossa Senhora das Graças, conhecida como “a santa que caiu do céu”. Em 1949, uma aeronave que seguia do Rio de Janeiro para Belém precisou lançar parte de sua carga antes de um pouso de emergência. Entre os objetos encontrados posteriormente estava uma imagem da santa, intacta, que passou a ser acolhida pela comunidade e deu origem a uma forte devoção popular, preservada até os dias atuais.
Essa e outras histórias são contadas no Museus e Arquivo Histórico de Catas Altas da Noruega que abriga também o Memorial Padre Luiz Gonzaga Pinheiro, visitado pela equipe com a mediação do historiador e curador Giovane Luiz Lobo Neiva. O espaço reúne documentos, fotografias e objetos que ajudam a compreender a formação da cidade e a trajetória de um dos seus personagens mais importantes.
A experiência seguiu para a zona rural. No projeto Café com Roça, idealizado por Anatalia Imaculada e João Batista, fomos recebidos com pratos tradicionais da cozinha mineira, como o delicioso frango no fubá, e acompanharam a produção artesanal de doce de leite, em uma vivência marcada pela simplicidade e pelo acolhimento.
O dia terminou na Estância do Pinheiro, propriedade que cultiva cerca de três mil oliveiras e produz azeites de alta qualidade do Olivais de Catas Altas da Noruega. A visita apresentou um lado ainda pouco conhecido da produção agrícola mineira, incluindo uma degustação que surpreendeu pela harmonização entre azeite e doce de leite.
Terceira parada | Piranga e Bacalhau: fé, memória e natureza

Imagem: Gabriel Araújo/ Secult MG
O último dia começou em Santo Antônio do Pirapetinga, distrito de Piranga conhecido como Bacalhau. A comunidade, reconhecida oficialmente como quilombola em 2019, vive um importante processo de fortalecimento de sua identidade cultural, retomando tradições como o Congado e valorizando manifestações históricas, entre elas a Corporação Musical Bom Jesus.
Entre a singela Capela de Santo Antônio, tombada pelo IEPHA, e o imponente Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos do Bacalhau, tombado pelo IPHAN, a fé se manifesta como uma das principais marcas da comunidade.
Todos os anos, entre os dias 1º e 15 de agosto, milhares de romeiros participam do tradicional e bicentenário Jubileu do Senhor Bom Jesus de Bacalhau. Durante a visita, o pároco Vítor Nogueira apresentou a história do santuário e conduziu a equipe até a sala dos ex-votos, onde objetos e mensagens deixados por fiéis testemunham graças alcançadas e emocionam quem passa por ali.
À tarde, a programação seguiu para o Chalé Caixinha e Marcelina, empreendimento que reúne hospedagem, natureza e experiências ligadas à cultura local. Por ali, participamos do processo de construção de paredes de pau a pique, técnica tradicional da arquitetura rural que será preservada para futuros visitantes.
O encerramento do roteiro aconteceu na sede de Piranga, no ateliê do escultor autodidata Felipe Rodrigues. Com formação na área de engenharia, o artista transforma concreto em esculturas monumentais inspiradas na identidade, na história e na força do povo mineiro. Entre suas obras está o monumento do garimpeiro instalado em Itaverava, que homenageia as origens do ciclo do ouro em Minas Gerais.
De forma quase simbólica, a arte conectou o primeiro e o último destino da viagem, lembrando que, apesar das singularidades de cada comunidade, todas compartilham a mesma essência: uma Minas feita de ricas memórias, muito trabalho e pertencimento e acolhimento em cada detalhe.
A viagem continua
As histórias vividas ao longo do roteiro Vilas e Fazendas revelam apenas uma parte da riqueza cultural, histórica e humana dessas localidades. No site e redes sociais do Jornal O Liberal, os leitores poderão conhecer ainda mais detalhes sobre os personagens, patrimônios e experiências que marcaram essa viagem.
O Jornal O Liberal agradece ao Governo de Minas Gerais e à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG) pelo convite para participar da Press Trip Minas Inédita e pela oportunidade de conhecer e compartilhar histórias que ajudam a construir o nosso estado.