Um dia a gente acorda e percebe que o tempo passou. Assim de repente, em um piscar de olhos, constatamos o quanto a vida mudou e não vimos, o quanto muito do que era já não é mais e muito do que é nunca imaginamos que um dia seria.
Lembramos de questões vividas, pensamos naquele familiar ou amigo que não está mais entre nós, memórias são reativadas, voltamos àquela festa de aniversário ou àquele Natal, quando todos os que amamos ainda estavam presentes. Uma dor silenciosa se aproxima, sentimos vontade de chorar, e nos perguntamos porque estas pessoas se foram. Quando a partida aconteceu há mais tempo, rezamos e pedimos a Deus que os guarde, e quando ainda está recente, nos revoltamos com este mesmo Deus, perguntando porque aconteceu.
Procuramos o espelho em busca de rugas, passamos a mão pelos cabelos buscando encontrá-los mais ralos, e decidimos no dia seguinte ir à balança mais próxima para vermos a diferença de peso, de quando éramos jovens.
Uma angústia toma conta da gente, pelas perdas físicas e emocionais trazidas por um tempo que não tivemos tempo de ver passar. Onde estávamos que não percebemos? O que estávamos fazendo, quem estava conosco? Em que momento de nossa vida perdemos tanto?
Primeiro os nossos avós, quando nossa juventude nos fazia eternos, depois nossos pais, quando já éramos adultos, mas ainda uma geração abaixo deles, até que amigos, parentes, irmãos, também começaram a partir, atirando em nossos rostos que poderemos ser os próximos.
Não existe uma idade para morrer, mas pela lei natural da vida, quanto mais a maturidade chega, mais perto estamos da morte, e quando tomamos consciência deste salto do tempo, é porque ela está mais próxima. Talvez o salto nem seja tão grande, nós é que nos recusamos a ver, por medo das consequências.
Quando olhamos para trás e a realidade grita a proximidade desta consequência, chega este despertar, que dizemos “de repente”, mas que na verdade não foi tão de repente assim. Estava ao nosso lado o tempo todo e nós é que não percebemos, mas sempre há tempo, podemos começar a perceber aqui e agora.
Ao olhar nossas rugas, em lugar de nos entristecermos pelo sinal do envelhecimento, podemos ser gratos por vivermos até vê-las aparecerem, quando notamos os cabelos mais ralos, podemos nos lembrar deles espessos e longos e quanto à balança… que importância tem uns quilinhos a mais, se estamos vivos e com saúde
Quanto a quem se foi, precisamos aprender a não lamentarmos sua partida e sim agradecermos pelo tempo que tiveram conosco.