Acordei com uma forte sensação de cansaço, depois de uma noite de sono agitado.
Foi uma noite de pesadelos, ainda que não conseguisse me lembrar deles. Como havia dormido muito pouco, além do cansaço, continuava sonolenta e sem nenhuma vontade de me levantar.
Pensei no que teria de fazer no dia. Não tinha nenhum compromisso de trabalho e nada para fazer fora de casa. Era sábado e eu havia planejado arrumar o guarda-roupas no final de semana, separar peças para doação e organizar as demais, aquela “faxina” necessária de vez em quando.
Lembrei também de que havia deixado algumas vasilhas mergulhadas em água quente (que obviamente já havia esfriado) para terminar de lavar.
Acendi a luz, sentei-me na cama e ouvi um trovão anunciando a chuva que em breve começaria.
Foi o sinal que faltava. Final de semana, nenhum compromisso urgente, e chuva, ainda por cima, tudo conspirando para um sono gostoso.
Apaguei novamente a luz, arrumei os travesseiros e voltei a me deitar, sem culpa. Por que não dormir o que ainda não havia dormido? Não iria faltar a nenhum compromisso, as roupas continuariam no guarda-roupas e as vasilhas não iam sair da água, para serem levadas outra hora.
Voltei a me deitar e tive um sono tranquilo, desta vez, acordando descansada e rejuvenescida.
Este acontecimento me fez pensar em como coisas aparentemente bobas são bênçãos que não valorizamos, ao longo da vida.
Por muitos anos, eu não pude fazer esta coisa simples, que é voltar a dormir, depois de uma noite insone. Assim como milhares de pessoas, o despertador tocava e independentemente de estar frio ou calor, sol ou chuva, os afazeres exigiam horário. Independentemente de ter tido um sono reparador ou uma noite de pesadelos, obrigações exigiam levantar-se. Foi assim durante o tempo que precisou ser.
Hoje não mais preciso, por merecimento, é verdade, mas isto não me torna menos grata, e a vida vai acontecendo. Penso que é assim com a maioria das pessoas. Vamos seguindo, fazemos tanta coisa automaticamente, e nos esquecemos de considerar o que está diante de nossos olhos.
É tão natural que não valorizamos: poder dormir e acordar à hora que quiser, ter roupas no guarda-roupas, comida para as vasilhas, a própria cama onde dormir…
Aprendemos desde cedo que os valores importantes estão longe e corremos em busca deles sem olhar para o que está ao nosso lado. Que bom que vez por outra acontece alguma coisa para nos puxar de volta, ainda que seja poder voltar a dormir depois de uma noite insone.