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Medalha de São Bento ou Toque de São Bento – escolha seu patuá!

(Lição 3 – Manual de sobrevivência aos fantasmas)

Depois do meu primeiro contato com os fantasmas, que foi um tanto quanto inconclusivo, tive um vislumbre do que era experimentado pelo pessoal daqui. Cheguei no trabalho no outro dia e durante o intervalo com meus colegas fiz uma provocação, contando o sonho terrível que tive na noite anterior e falando que havia muitos fantasmas na região. E, além disso, a cidade ser cenário de filme de terror não ajuda em nada. Após contar a história de maneira divertida perguntei aos colegas: “Como que vocês fazem com essa fantasmaiada toda aqui em Ouro Preto?”

Achei, por óbvio, que iam me tirar para excêntrico, bobo, ou que iam rir comigo, ou que perguntariam do que eu estou falando… mas: Das nove pessoas no intervalo, sete olharam para mim profundamente e levantaram o braço. Pendiam de seus pulsos pequenas medalha com cruz e algumas letras. Então perguntei, “o que é isso”, “medalha de São Bento”, responderam, “a única coisa que dá jeito nas assombrações”, complementando com algumas descrições de aparições terríveis que viam antes de usarem o amuleto! Me orientaram a comprar em uma loja qualquer e participar da missa do dia de São Bento (11 de julho) para benzer a medalha, um ritual que seria uma espécie de exorcismo menor de todo o mal que me acompanha, só aí ela ia me proteger. Ouvia com atenção, mas, São Bento?  Lembrei imediatamente de uma música que vinha escutando por esses dias.

“Nesse mundo, camará / mas não há / mas não há / mas não há / quem me mande. / Eu só sei obedecer / Se mandar, se mandar, São Bento Grande.” Assim canta Paulo César Pinheiro em seu disco “Capoeira de Besouro” em que apresenta versões de toques de capoeira, vale muito a pena ouvir.

Continuando, me disseram que São Bento é um santo exorcista, detentor do conhecimento de rituais complexos para o afastamento do mal, e que tem uma oração com fortes poderes: “A Cruz Sagrada seja minha luz, não seja o dragão meu guia. Retira-te, satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos.” E ‘veneno’ não está na oração à toa: dizem que simplesmente fazendo o sinal da cruz, São Bento teria feito explodir uma taça repleta de veneno. E, outra vez com o mesmo sinal, teria invocado um corvo que retirou do ambiente um pão envenenado – o mal se estraçalha diante de sua presença! Não é difícil entender por que ele é tão cultuado onde ser assombrado faz parte da experiência cotidiana!

Nessa hora acabei misturando os dois: o São Bento que aparece no toque de capoeira e o da oração. A música diante de toda a informação sobre o santo não faz parecer que aquele que canta se coloca como uma presença maléfica e venenosa que só vai obedecer à São Bento? Passou pela minha cabeça, mas tá errado, né? Pelo menos como sentido principal. Embora seu surgimento, em uma primeira leitura, não deixe de ser rico: No toque, um mestre capoeira desafia os poderes coloniais, aquele lutador poderoso seria como uma assombração para a elite branca colonial. E o guerreiro só recuaria diante do santo que tem poderes contra o mal!

Mas, vamos lá, o sentido não é esse. E se o santo não fosse de sua crença, o mítico capoeirista Besouro não recuaria. O que a canção traz é muito mais interessante e revelador da antiga tradição mágica da capoeira. São Bento, no entendimento capoeirista, é padroeiro da arte marcial. Mas, porque “Grande”? Ah, porque tem o São Bento “Grande”, e o São Bento “Pequeno”. São dois santos? Não, são dois toques de capoeira. Pois é, o santo dá nome a alguns toques de capoeira, toques de capoeira que coordenam os gestos de luta, gestos de luta reconhecidos como poderosos e efetivos contra o poder colonial. São Bento aqui se torna música de guerra contra o mal! E o toque “São Bento Grande” é o enérgico, o mais perigoso; o “pequeno” é o que acalenta. Pelo menos é assim representado por Paulo César Pinheiro, que não deixa nenhum toque de fora.

Agora, se São Bento dá armas de luta contra o mal para aqueles, que sendo oprimidos por questão racial, enfrentam os poderes coloniais. Se o mesmo São Bento dá ferramentas a essa mesma continuidade colonizadora para se proteger: podemos vislumbrar que essa luta espiritual é fomentada por um só santo, e aqui, poderíamos encontrar a pacificação – se temos o mesmo santo contra o mal, talvez sejamos todos da mesma laia, da mesma estirpe! Ora, se São Bento traz toque de luta e a medalha que protege contra o mal, talvez seja a hora de percebemos que estamos todos no mesmo barco – e que é hora de quebrar as correntes e não permitir que este barco volte a ser um navio negreiro, e que a igualdade só se consiga na base da pernada e de reza braba!

Mas em briga de santo eu não me meto, e esses fantasmas ainda iam precisar de um pouco mais de feijão para me pôr desesperado: não fui atrás da medalha, e sou uma negação em capoeira.

Aparição: O logo do grupo Cativeiro, sobrepõe o berimbau aos símbolos judaico-cristãos – camadas de elementos de proteção “para não ser cativo de ninguém”

Sobre o autor: Vinicius Tobias é poeta e escritor. Autor dos livros “A estrada e o Moirão” (Ed. Capim Limão) e “A luz da minha irmã” (Ópera Editorial) e de uma dezena de auto publicações. Foi figura central no movimento Larvas Poesia que marcou a produção independente da Região das Vertentes. É também doutor em Ciência da Religião, especialista em Religião e Arte e professor da Rede Municipal de Itabirito.

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