(Lição 2 – Manual de sobrevivência aos fantasmas)
A minha mudança para Ouro Preto seria menos conturbada se além de aprender onde fica a padaria, a farmácia e o supermercado; eu não tivesse que também aprender a lidar com os fantasmas! Já havia começado a trabalhar e ainda não tinha me mudado. Então era casa vazia e um colchão no chão, um ventilador e um micro-ondas – janela aberta por conta do calor. Estava começando a dormir, quando aconteceu: tive meu primeiro contato com os fantasmas! Minha primeira noite de terror!
O sonho foi aterrador: Alguém tinha sido assassinado em um pagode de domingo. A alma, como um véu azul, saía do corpo e ia para dentro da escultura da cabeça de um querubim barroco de bronze (que não existia antes ali em casa). Ele vomitava um pergaminho e me ordenava ler. Eu não entendia muito o sentido do que estava escrito e dizia: “que bonito!”. A cabeça de bronze com uma voz desfigurada desfalecia de dor à minha resposta. “Você não entendeu” – disse a cabeça. “Entendi sim, é lindo”. Aí ele revelou “Não era para ser bonito! Não era nem para entender! Tá vendo? Ninguém me compreende, ninguém jamais vai me compreender.” E, dito isso, começa a gritar: “SERÁ QUE É ISSO O INFERNO” repetidamente, com a mesma voz de taquara que habita o menino do filme O Iluminado.
Fiquei muito assustado. Por isso, acordei antes de poder falar pro fantasma que, se ele fosse escrever poesia, tinha que se acostumar com o fato de ninguém conseguir entender mesmo, uai! Até porque, se o poltergeist parar mesmo pra pensar, não faz o menor sentido algo escrito não ter o objetivo de ser entendido! E, alma-penada, vamos combinar que “belo” tem um significado muito mais amplo do que esse aí pelo qual você tá rangendo os dentes. Ajuda o leitor… se não é pra entender por que tem alguma coisa escrito? E vamos parar de drama: essa falta de compreensão é o dia a dia da gente…
Mas isso era sonho… E agora estava eu acordado, certeza que estava, sei a diferença na maioria das vezes. E como explicar a respiração de tuberculoso que tomava conta da casa? Aquilo sim, som de verdade. Vibração atravessando o ar. Depois de alguns minutos completamente paralisado pelo medo, fiquei indignado e saí procurando a fonte. Não achei. Mas vinha do forro do telhado, e um tossido-piado me fez entender que aquilo era exatamente o que parecia. Uma respiração de tuberculoso. No caso, uma pomba tuberculosa, ou algo que o valha.
Supor que era um pássaro passando mal deixou a noite mais leve? De jeito nenhum. Aquele filhote de Freddy Krueger tinha acabado com minhas chances de dormir.
Mas, se é que tinha como, quando finalmente comecei a cochilar a coisa ficou ainda mais estranha: pela janela aberta da madrugada surge um odor amadeirado e ecoa uma voz feminina e, aí sim, a minha alma quase sai do corpo: “Tantos mortos na extração de ouro e vocês, forasteiros malditos, vêm aqui dia após dia profanar nossa dooooor”. Seguida de uma outra voz masculina: “Hoje é o dia que nos vingaremos de todo o deleite que nosso derramamento de sangue caaaaaaausaaaaa”. Não deixei de ficar com medo depois dessa, mas pelo amor de Deus, que assombrações clichês! Daí um terceiro “Não haverá mais saídas! Abandone as esperanças vós que aqui entrareeeeeees”. Sério, inferno de Dante? Vai vir o que agora, Poe, ‘o corvo grasna: nunca mais’? Daí veio a quarta voz, e esta dizia “Pô esse texto ficou muito bom, vamos lá acabar de gravar”.
Nisso me levanto, vou até à janela e vejo um monte de jovens com tripé, câmera e claquete. Não é que duas da manhã de uma quarta-feira útil tinha um bando de estudantes gravando um curta-metragem de terror na mina turística da qual eu era vizinho? E fazendo a pausa para fumar bem debaixo da minha janela? Aí é brincadeira.
Pensei em acenar para eles e dizer que o texto estava, na verdade, uma porcaria – tenho baixa resistência a roteiro clichê! Mas deixei pra lá, talvez eles se assustassem quando eu os chamasse.
Pelo menos ajudaram a amenizar o pavor das duas outras aparições, cortei um dobrado, viu? Mas é isso que dá morar em cenário de filme de terror! Conforme o silêncio se reinstalava, o medo ia voltando.

Sobre o autor: Vinicius Tobias é poeta e escritor. Autor dos livros “A estrada e o Moirão” (Ed. Capim Limão) e “A luz da minha irmã” (Ópera Editorial) e de uma dezena de auto publicações. Foi figura central no movimento Larvas Poesia que marcou a produção independente da região das vertentes. É também doutor em Ciência da Religião, especialista em Religião e Arte e professor da Rede Municipal de Itabirito.