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Amar o que se faz

– Você sente tudo o que escreve?

– “Tudo” é muita coisa – respondi e acabei dando risada com meu interlocutor.

Interessante é que não foi a primeira vez que me fizeram esta pergunta, esta curiosidade existe em algumas pessoas, não sei porque.

Obviamente, como todos os escritores, quando escrevo na primeira pessoa, são relatos pessoais, mas quando falo de assuntos gerais, pode ser baseado em uma experiência, própria ou não, dependendo do tema abordado.

Acredito que devemos colocar nossos sentimentos naquilo que fazemos, independentemente de qual seja a profissão.

Poder fazer o que se ama é uma benção, que agradeço a Deus todos os dias. Vivemos em um mundo prático, e precisamos viver na praticidade. Escrever, por mais prazeroso que seja, não garante sobrevivência. Precisamos comer, nos vestir, temos contas para pagar, e tudo isto demanda dinheiro, que precisamos trabalhar para conseguirmos de forma honesta. Em um mundo material, precisamos da matéria e não há nada errado nisto.

A vida adulta exige um trabalho para vivermos com dignidade, e nem sempre o emprego conseguido coincide com o que gostamos ou mesmo queremos fazer. Muitos de nós, arrisco-me a dizer a maioria, se sujeita a um trabalho que não lhe agrada, pelo seu sustento. Mais do que não agradar, alguns podem serem detestados, e assim as pessoas vão seguindo, muitas vezes insatisfeitas, mas conscientes de que precisa ser assim.

Fiz isto por algum tempo, até conseguir conciliar a necessidade com o prazer, a sobrevivência com o contentamento. Escrever é a minha alegria, e eu sinto, sim, como a pessoa me perguntou, o que escrevo, porque faço com tanto amor. Não há sentimento maior.

Sinto-me abençoada por ter conseguido, ao longo da vida, harmonizar um emprego, que me possibilita a sobrevivência material, com um trabalho prazeroso, que me motiva a acordar todos os dias. Se todos tivessem esta Graça, o mundo seria bem melhor.

Existe uma forma, mais acessível, que seria tentarmos fazer o caminho inverso: ao invés de encontrarmos algo que amamos para fazer, podemos tentar colocar amor no que já fazemos. Um engenheiro pode colocar afeto na construção de casas para abrigo de famílias que precisam, um dentista pode atender com ternura clientes com dor, uma modista pode costurar com carinho o vestido da noiva ou da formanda, etc.

São formas de amor que podem ser empregadas onde quer que se esteja, independentemente da profissão. No meu caso, eu sinto o que escrevo, porque escrevo o que sinto. É a minha forma de amar.

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