Quando o Criador escolheu a carne para nossa alma habitar, já deve tê-lo feito por ela ser tão perecível e de curta duração. Deve ter escolhido um material tão transitório por misericórdia a nós, pois sabia o quanto nossa passagem por aqui seria difícil.
Viver não é fácil. É uma benção a que devemos agradecer, mas fácil não é. O planeta, que deveria ser local de aprendizado, tem se tornado cada dia mais sombrio, as pessoas que aqui estão para evoluir, parecem estar andando para trás, perdendo a humanidade, alimentando-se de sentimentos mesquinhos e cultivando ódio e agressividade.
Cada época tem as suas belezas e suas dificuldades, isto é fato, mas em épocas passadas, a impressão que se tem é a de que o ser humano passou pelas dificuldades para aprender e tornar-se melhor. Aprendemos com as provações e seguimos em frente, mudando os comportamentos que as provocam e tentando, sempre, melhorar.
Nos dias atuais, entretanto, a impressão é inversa. Quanto mais sofremos, quanto mais a vida se torna difícil, menos tolerantes nos tornamos e reagimos cada vez mais agressivamente.
Há alguns anos, passamos por uma pandemia, o mundo inteiro vivenciou um enorme sofrimento, perdemos entes queridos, ficamos por dois anos privados, por necessidade, do convívio em sociedade, e nem assim aprendemos.
Nossa esperança, na época, era de que esta experiência nos ensinasse a valorizar este convívio e nos tornarmos pessoas melhores, mas infelizmente foi uma esperança vã. Continuamos do mesmo jeito, parece que até pioramos, em muitos aspectos.
Em uma capa de carne, conseguimos ficar 80, 90 anos, até que a deterioração se concretize, tempo mínimo diante da eternidade. Se nosso corpo fosse de ferro, ou chumbo, ficaríamos muito mais tempo nele, e consequentemente teríamos muito mais tempo para mais e mais erros. Se na carne não aprendemos, por que aprenderíamos em outro tipo de matéria?
Obviamente, nem tudo são sombras, existe também luz neste mundo complicado, cabe a cada um usar o seu livre arbítrio e seguir o caminho escolhido. Pela lei natural da vida, quando a carne não aguenta mais, nos retiramos. Claro que há exceções, de acordo com o estabelecido quando viemos para cá, e alguns “furam a fila”, como se diz, partindo precocemente, mas no geral, é como funciona.
A carne resiste ao tempo necessário. Se foi escolhido material tão perecível para habitarmos, é porque o tempo dele é o suficiente. Talvez porque, se ficássemos mais, também erraríamos mais.