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Patrimônio, fé e história: obras sacras de São Bartolomeu restauradas pela FAOP são entregues à comunidade

Patrimônio, fé e história: obras sacras de São Bartolomeu restauradas pela FAOP são entregues à comunidade

Obras restauradas/ Victória Oliveira

A Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, em Cachoeira do Campo, recebeu nesta terça-feira (23) uma cerimônia carregada de fé e valor histórico. Após um trabalho de conservação e restauração realizado pela Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), imagens sacras pertencentes à comunidade de São Bartolomeu foram oficialmente entregues durante celebração conduzida pelo arcebispo da Arquidiocese de Mariana, Dom Airton José dos Santos.

Embora a entrega tenha acontecido em Cachoeira do Campo, o destino das obras é a centenária Igreja Matriz de São Bartolomeu, que passa pelos últimos ajustes de um amplo processo de restauração e tem reinauguração oficial prevista para o próximo dia 7 de julho.

A cerimônia reuniu autoridades civis e religiosas, representantes da FAOP e fiéis do distrito de São Bartolomeu, que acompanharam com entusiasmo o retorno do acervo e manifestaram a expectativa pela reabertura da igreja. O restauro foi viabilizado pela parceria da FAOP com a Arquidiocese de Mariana, a Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré e a Prefeitura de Ouro Preto.

Obras retornam após longo processo de restauração

Ao todo, 11 obras passaram por longos processos de conservação e restauração realizados pelo Núcleo de Conservação e Restauro da FAOP, além de duas bandeiras históricas também recuperadas. Produzidas em madeira entalhada e ornamentadas com técnicas de policromia e douramento características do período colonial, as peças representam um importante conjunto da arte sacra mineira.

O conjunto inclui as imagens de Nossa Senhora do Carmo, São João Nepomuceno, Santa Efigênia, Sant’Ana, Nossa Senhora do Pilar, São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, além de um Crucificado e de uma representação do Divino Espírito Santo, todas datadas do século XVIII.

Entre elas, destaca-se a imagem de Nossa Senhora do Carmo, atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, considerado um dos maiores artistas do período colonial brasileiro.

Também foi restaurada pela Fundação a imagem de Nossa Senhora das Candeias, já entregue anteriormente à Arquidiocese de Mariana. Outra escultura de Nossa Senhora do Rosário permanece em processo de restauração. Durante a cerimônia, também esteve exposta uma imagem de São Bartolomeu pertencente à comunidade, que não passou por restauração na FAOP, mas integrou simbolicamente a celebração.

Comunidade de São Bartolomeu também esteve presente

Acervo reúne raridades da tradição religiosa portuguesa

Segundo a coordenadora do Núcleo de Conservação e Restauro da FAOP, Valéria Tomé França, o conjunto restaurado possui relevância excepcional para a história religiosa e artística de Minas Gerais.

“É um motivo de muito orgulho para a Fundação e demonstra a expertise técnica da instituição em restaurar obras dessa importância. São imagens de uma fatura muito significativa, muitas delas de origem portuguesa, com elementos artísticos e históricos fundamentais. Hoje é um dia histórico”, afirmou.

Segundo a coordenadora, muitas das imagens chegaram a São Bartolomeu vindas de Portugal quando a localidade foi elevada à condição de paróquia. Três delas, inclusive, são mencionadas na obra Santuário Mariano, do Frei Agostinho da Piedade, que reúne relatos de milagres atribuídos à devoção mariana em território português. O dado reforça a importância histórica do acervo, que ultrapassa os limites do distrito e integra um contexto mais amplo da formação religiosa e cultural de Minas Gerais.

Valéria também destacou pesquisas da historiadora Adalgisa Arantes Campos, professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que identificam a forte presença das devoções ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora das Candeias na formação social e cultural de São Bartolomeu. Documentos históricos registram doações, esmolas e provisões destinadas à realização de festas religiosas ligadas a essas devoções.

No século XVIII, a vida social acontecia essencialmente em torno da religião. As imagens participavam das celebrações, procissões, festas e demais manifestações comunitárias, tornando-se parte fundamental da construção da identidade cultural e religiosa do distrito.

Fé e devoção atravessam os séculos

Durante a cerimônia, as obras receberam uma bênção especial conduzida por Dom Airton, reforçando não apenas o valor artístico do conjunto, mas também sua importância espiritual para a comunidade. “São imagens riquíssimas que retratam a piedade e a devoção do nosso povo, e por isso se mantêm até hoje. O trabalho das mãos do passado, de quem talvez não imaginasse que essas obras chegariam até aqui, ajudou a garantir a fé católica. O entalhe, a pintura, tudo aquilo que foi feito pelas mãos humanas também é obra inspirada por Deus”, afirmou o arcebispo.

Para o padre Harley de Carvalho Lima, pároco da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, responsável também pela comunidade de São Bartolomeu, a preservação desses bens está diretamente ligada à continuidade da história da comunidade. “É muito importante a presença da Igreja em nossa comunidade. Muitas coisas se perdem no tempo ou acabam perdendo a finalidade, mas essa matriz, por exemplo, está há mais de 300 anos e se mantém como um verdadeiro testemunho de fé.”, destacou.

Preservação do patrimônio cultural

Para o presidente da FAOP, Rodrigo Câmara, a entrega representa mais um passo no compromisso da instituição com a preservação do patrimônio cultural mineiro.

“Estamos falando de um acervo que traduz séculos de fé, devoção e tradição, e que agora ganha novo vigor por meio do trabalho sério e qualificado de nossa equipe técnica. Cada peça passou por um cuidadoso processo de conservação e restauração, conduzido por profissionais capacitados que dedicam seu conhecimento à preservação do patrimônio cultural de Minas Gerais”, afirmou.

A celebração mostrou que a entrega das obras representa mais do que a devolução de bens artísticos. Era o reencontro de uma comunidade com parte de sua própria história, agora preparada para retornar à sua casa de origem quando as portas da Matriz de São Bartolomeu forem novamente abertas.

Autoridades presentes na celebração

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