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Carta aos Tempos
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Delação de Vorcaro atemoriza e assusta muita gente

Em ano eleitoral, quando as atenções políticas já se voltam para a disputa, e já em ambiente de polaridade ideológica, uma questão pode tornar a disputa ainda mais acirrada e até transbordar do quadro estritamente político para outros setores da vida nacional. Trata-se da delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que se realizaria para obter redução de sua pena. A apreensão, especialmente do meio político-partidário, é grande, assim como em outros setores da vida nacional, tamanha foi, pelo que já se sabe, a atuação criminosa e aliciadora do ex-banqueiro, envolvendo ampla e farta corrupção, com muito dinheiro, cifras bilionárias e cooptação de personalidades em favores, festas, viagens, aquisição de bens patrimoniais — e muito mais.

E até já influiu na sucessão presidencial, com as revelações relativas aos vultosos recursos que destinou para o filme sobre o ex-presidente Bolsonaro, financiado pelo Banco Master a pedido do filho Flávio. Mas são muitos os outros desdobramentos ainda não inteiramente apurados e que, a rigor, teriam que fazer parte da delação de Vorcaro, até porque as investigações da Polícia Federal já avançaram muito, com base nas apreensões de documentos, telefones e apurações. E, além de Vorcaro, seu cunhado e operador, Fabiano Zetel, também já afirmou que fará delação premiada, aumentando o temor de muita gente. E seu pai, Henrique Vorcaro, poderá também depor.

As implicações da delação vão além da classe política: deverão provocar mudanças nos órgãos de controle das atividades financeiras e bancárias, inclusive no Banco Central, que tem a missão de fiscalizar atividades ilícitas e determinar correções em todo o sistema bancário. Assusta a todos a amplitude das condutas ilícitas do Banco Master e a vida faustosa do banqueiro e seu poder corruptor de políticos e instituições. A plena apuração dos muitos crimes e responsabilidades é fundamental para a restauração de credibilidade e confiabilidade nos vários ramos das atividades financeiras. São muitas as explicações a serem dadas, abrangendo todas as dimensões extraordinárias por sua extensão e pelos volumes financeiros envolvidos. Trata-se, segundo opiniões de conhecedores, do maior crime financeiro da história do Brasil.

Explica-se o temor intenso de políticos, senadores e deputados, do próprio sistema bancário, de setores governamentais, empresários, investidores e operadores do sistema financeiro, da chamada “Faria Lima”, comparsas e amigos de Vorcaro que, de diversas maneiras e em diferentes ocasiões, estiveram com Vorcaro ou em ações com o Banco Master. Vale citar o governo do Distrito Federal e o seu banco, o BRB, os culpados por desvios de dinheiro de aposentados da Previdência Social, e muitos outros que, por diversas formas e negócios, tiveram envolvimento direto ou indireto. A verdade é que os tentáculos criminosos do Master e de Daniel Vorcaro são assustadoramente amplos.

Uma CPMI, se instalada pelo Congresso Nacional neste clima eleitoral já acirrado, é seguramente temerária e incerta quanto aos seus resultados, até porque envolveria número significativo de senadores e deputados, como já ocorre com o senador Ciro Nogueira. É difícil prever também o que acarretaria a divulgação, pela Polícia Federal, dos fatos criminosos e dos envolvidos na ampla corrupção promovida pelo Master e por Vorcaro. Certamente “abalaria a República” por sua extensão e pela exposição de muitos crimes e criminosos.

Mas, além e acima de todas essas graves consequências, é fundamental que as investigações sejam amplas e que apontem culpados, pessoas e instituições. Não dá para amenizar, adiar, retroceder, conciliar ou minimizar os crimes e não apontar os criminosos, sem o que o Brasil e todos nós ficaremos com uma lesão moral gravíssima, com consequências que serão vistas como uma grave e deletéria “mancha ética da História do Brasil”.

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