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O Berro do Bode Zé
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Quando há merecimento, o inexplicável acontece

O tema desta semana não se prende a denúncia, críticas ou louvação a quem quer que seja, mas narra um fato insólito, do qual este autor foi protagonista e testemunha; algo inexplicável, como uma “conjura”, para alterar a linha dos acontecimentos, alheios à vontade de uma pessoa, que necessitava, realmente, tê-la alterada. O fato se deu há alguns anos, quando a Receita Federal ainda exigia o recadastramento anual do CPF. Atendi à porta um grandalhão, musculoso, trabalhador do pesado, pelas aparências, mas com os olhos quase a verter lágrimas. Contou-me que estava desempregado, havia três anos e que nesse período estava a viver de “bicos”. Naqueles últimos dias havia conseguido um emprego, mas seu registro dependeria de o CPF estar regular, coisa que ele não tinha por não ter se recadastrado. Apresentou-me um documento de consulta, feita pelos Correios, que apontava a situação irregular do seu CPF. Pela hora gravada naquele papel, havia poucos minutos que ele fizera a consulta. Implorou-me que fizesse algo por ele, pois necessitava muito daquele emprego. Disse-lhe que nada poderia fazer, pois o período de recadastramento já havia passado. Entretanto, algo no meu interior dizia para, pelo menos, fazer uma consulta ao site da Receita. Percebia-se que, ao invés de desespero, o rapaz se mostrava sereno. Dir-se-ia que ele estava em estado de súplica, estado de oração. Convidei-o a entrar, fui ao computador, acessei o site da Receita Federal e abri a página relativa ao CPF, na qual inseri os dados do interessado. Quando veio a resposta, quase não acreditei no que li: SITUAÇÃO REGULAR. Conferi, rapidamente, os dados e, mais, rápido ainda, acionei o comando de impressão, temendo por repentina mudança daquela página. Informei o resultado e entreguei o documento ao rapaz que, como reação ao fato, dobrou os joelhos, para agradecer a Deus. A lógica apontava para a negativa, mas como “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia” (William Shakespeare), resolvi ouvir o meu íntimo, confirmando-se então a assertiva do poeta, dramaturgo e filósofo. Agradeci também por não ter atendido à lógica e, sim, à súplica do rapaz!

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