Valdete Braga
Depois de um dia de muito trabalho, cansada, mas sem conseguir relaxar para dormir, coloquei um destes áudios de som de chuva, para “chamar o sono”, como diziam os antigos. Nada é mais reconfortante do que dormir com o barulho de chuva.
Funcionou, porque não sei quando adormeci, mas quando acordei, o áudio já tinha rodado inteiro, e tive um sono reparador.
Gostei da ideia, e repeti na noite seguinte, dormindo também rapidamente. Fiz o mesmo na seguinte e na seguinte, e quando dei por mim, estava ficando focada em só dormir com o barulho da chuva “lá fora”, e decidi parar. Estava tão acostumada que demorou alguns dias para voltar ao ritmo normal do sono. O som da chuva nina, embala, e sem ele demorei um pouco a pegar no sono naturalmente.
De volta ao ritmo normal, fiquei imaginando como deve ser triste qualquer tipo de vício, e como deve ser dolorido o processo de sair dele.
Veio-me à mente reportagens e depoimentos recentes sobre casas de apostas, jogos on line, propagandas feitas por artistas e influenciadores sobre eles e a repercussão, na época.
A coisa é tão séria que chegou a ser criada, pela Câmara dos Deputados, a tal CPI das bets, cujo resultado foi o já esperado, infelizmente.
Obviamente, não existe termo de comparação entre deixar um hábito que não chegou a ser um vício, de ouvir um som para dormir, a algo tão sério como vício em jogos. São coisas distintas, mas, dadas as devidas proporções, ambas começam de forma despretensiosa e podem crescer de forma desproporcional.
Eu poderia passar o resto da minha vida ligando o som na hora de dormir, que isto não faria mal a mim mesma nem a ninguém, mas mesmo assim, só a possibilidade de criar uma dependência ligou o alerta para que eu parasse. Imagino então alguém perdendo tudo, se endividando, em alguns casos perdendo até família, sem conseguir se livrar.
Repito, não há termos de comparação, mas talvez porisso mesmo é que me vi comparando. Se pode acontecer com uma coisa tão boba e sem importância, o que dizer então de algo tão sério, que mexe com o financeiro a ponto da pessoa se ver sem nada?
Difícil imaginar alguém viciado em jogos dentro da própria casa, através da tela de um celular. Difícil imaginar o desespero de querer sair de uma situação dessas sem conseguir, perdendo tudo e ainda assim continuando. Mais sério ainda, e muito triste, é pensar que figuras públicas incentivam isto, fazem propagandas, recebendo altas quantias para suas “publis”, às custas do sofrimento alheio.
Influenciadores digitais que estimulam esta prática a seus seguidores deveriam ser responsabilizados. Quem sabe assim acabariam?