As primeiras semanas de trabalho da chamada “CPI da Covid” não deixaram dúvidas quanta à clara motivação política eleitoral de seus proponentes, que é a estruturação de uma candidatura de oposição à provável tentativa do presidente Jair Bolsonaro de disputar sua reeleição no ano que vem.
A atuação da mesa diretora, em especial do relator, senador Renan Calheiros, não tem movido esforços para enquadrar o governo Bolsonaro em uma versão da história que pretende imputar a responsabilidade do presidente por uma suposta má condução na gestão de medidas contra a pandemia, principalmente na questão da vacinação (que teria sido “lenta”) e no esforço de promover o tratamento precoce com a cloroclina. Nesse sentido, o relator tem centrado suas atenções nas negociações do governo federal com a vacina da Pfizer e, também, no esforço do governo federal de promover a cloroquina como tratamento precoce para enfrentar a doença.
A obsessão da mesa diretora da CPI da Covid com os temas “vacinação” e “cloroquina” indicam a agenda eleitoral da oposição na campanha eleitoral presidencial de 2022. Para promover essa agenda será fundamental que a opinião pública seja rotineiramente inundada por notícias sobre esses temas e uma CPI ajuda nessa tarefa. Logo, é provável que a intenção da mesa diretora da CPI seja a de alongar ao máximo possível o prazo da CPI, sinalizando que governo e oposição deverão se enfrentar duramente tanto na duração da CPI, como no relatório final a ser aprovado por votação no Senado.
Do lado da oposição, a ressuscitada candidatura de Lula – decorrente da decisão do STF de considerar incompetente a 13ª Vara Federal de Curitiba para processar o ex-presidente Lula, que terminou condenado, nesse processo e em todas as instâncias, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro – está procurando se apresentar como o melhor adversário contra Bolsonaro e para tal conta com a ajuda de seu aliado, Renan Calheiros, na atuação como relator na CPI da Covid. Portanto, Lula deverá montar sua campanha usando a agenda da vacinação “lenta” e do uso de uma medicação “não científica” (cloroquina) para atacar o modo como o presidente Bolsonaro enfrentou a pandemia. Com essa agenda Lula tem a esperança de conquistar o apoio da maioria do eleitorado, que estaria assustado com a pandemia ao ponto de esquecer as graves acusações que o ex-presidente sofre nos processos criminais relacionados com a operação Lava Jato.
Por outro lado, o presidente Bolsonaro deverá enfrentar a agenda da pandemia mostrando os números da compra de vacinas feitas pelo governo e usando comparações com ouros países sobre o ritmo da vacinação no Brasil. A mesma tática deverá ser feita com o uso da cloroquina, no intuito de comprovar que o Brasil não foi o único país a investir nessa medicação e, também, mostrar dados científicos mais favoráveis para a cloroquina (ao contrário do que pensa o senso comum, o conhecimento científico é movido por dúvidas e questionamentos, e raramente se chega a consensos capazes de gerar uma verdade “absoluta” sobre algum assunto científico). Só político que tem coragem para falar publicamente em alguma “verdade científica absoluta”…
E é muito provável que o presidente Bolsonaro, e outros candidatos a presidentes não alinhados com o lulo-petismo ressuscitem o tema da corrupção na agenda eleitoral de 2022, por conta da presença de um candidato que já foi condenado por esses crimes. Ciro Gomes, por exemplo, já se pronunciou contra os crimes do ex-presidente, bem como Bolsonaro fez pronunciamentos nesse sentido.
E como pano de fundo da agenda eleitoral estará a situação econômica do eleitor brasileiro em 2022. O governo deverá enfrentar essa situação em duas frentes: a promoção das reformas tributárias e administrativa o mais rapidamente possível, e a adoção de políticas assistencialistas para enfrentar os aumentos do empobrecimento e do desemprego decorrentes de algumas medidas adotadas por governadores e prefeitos para o enfrentamento da Covid, como o “distanciamento social” e o fechamento de atividades econômicas consideradas não essenciais. O auxílio emergencial e uma provável remodelação do “bolsa família” deverão ser as principais ações do governo federal para melhorar a situação econômica do brasileiro em 2022. Do lado da oposição, ela deverá enfatizar o aumento da pobreza e do empobrecimento responsabilizando a condução do governo federal durante a pandemia. Ao mesmo tempo, ela deverá investir na paralisia do legislativo, para retardar ou impedir a aprovação das reformas econômicas pretendidas pelo governo federal. Nesse sentido, a instalação da CPI da Covid (determinada liminarmente pelo STF) ajudou essa estratégia da oposição, pois o Congresso Nacional está muito envolvido nas ações diárias promovidas pela mesa diretora da CPI. Por outro lado, Bolsonaro conta com a atuação de seu aliado, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lyra, para agilizar o processo de votação. Arthur Lyra, de Alagoas, tem todo interesse de conseguir essa proeza, pois é adversário em Alagoas de Renan Calheiros, aliado de Lula e pai do atual governador de Alagoas.
De forma totalmente explícita, as peças do xadrez eleitoral de 2022 já estão se movimentando.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP