Vítima tornou o caso público para encorajar denúncias; episódio gerou mobilização de mulheres na região e abaixo-assinado por medidas de segurança
Imagem ilustrativa do distrito/Imagem: Neno Viana/ Victória Oliveira
Uma mulher denunciou ter sido vítima de assédio e perseguição dentro de um supermercado no distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, na última terça-feira (7). O caso, publicado por ela nas redes sociais, ganhou grande repercussão e encorajou outras mulheres a compartilharem relatos semelhantes. Em entrevista à reportagem, a vítima, a doula Laura Mullers, afirmou que decidiu tornar a situação pública como forma de alerta e incentivo para que outras mulheres também denunciem.
Segundo ela, o episódio começou no setor de hortifruti, quando foi abordada por um homem que proferiu palavras de cunho sexual. Após encontrar o esposo e relatar o ocorrido, o casal procurou imediatamente a equipe do estabelecimento.
A análise das imagens de segurança revelou, no entanto, que a situação era ainda mais grave. O homem permaneceu no local sem realizar compras ou interagir com produtos, acompanhando a vítima à distância durante todo o tempo em que ela esteve no supermercado. As imagens indicam que ele manteve vigilância constante. Durante todo o período, o suspeito manteve a cabeça baixa e utilizava boné, dificultando sua identificação.
De acordo com estudos sobre violência de gênero, comportamentos como estes, de permanecer em um local sem objetivo aparente e observar repetidamente uma mesma pessoa, podem indicar conduta predatória. Outro ponto destacado é que não há indícios de tentativa de roubo ou furto. A motivação está relacionada ao controle, à vigilância e ao assédio, formas de violência que atingem mulheres em atividades cotidianas.
Nos comentários da publicação de denúncia, mulheres se solidarizaram e muitas delas confessaram terem passado por situações semelhantes em outros supermercados ou pelas ruas da cidade.
A vítima informou que pretende registrar boletim de ocorrência e formalizar a denúncia. O supermercado afirmou que poderá disponibilizar as imagens às autoridades.
Embora nem sempre haja contato físico, situações como essa são enquadradas como crimes na legislação brasileira. Condutas como perseguição reiterada, vigilância constante e aproximações com conotação sexual podem configurar crimes como importunação sexual e perseguição. A orientação, nesses casos, é agir rapidamente: afastar-se, procurar ajuda no local e formalizar a denúncia.
Impacto emocional gera sensação de insegurança
Laura relatou que o impacto do ocorrido foi imediato e profundo. Ao retornar ao supermercado no mesmo dia, após esquecer alguns itens, percebeu o quanto a situação havia afetado seu comportamento.
Ela descreve que caminhar novamente pelos corredores foi uma experiência marcada pelo medo e pela insegurança, especialmente ao observar outras mulheres e crianças no local. “A vontade era avisar todas as mulheres que estavam ali. Ver mães com seus filhos me deu ainda mais medo. A gente acha que no interior está mais seguro, que pode abaixar a guarda, mas é nessas horas que esses predadores agem”, disse ela.
Histórico de violência e dados pelo país
“Não foi a primeira vez que foi assediada, não foi a primeira vez que fui violentada”, contou Laura à reportagem. Ela revelou que já vivenciou episódios de violência anteriormente, incluindo um caso gravíssimo de estupro na adolescência, com apenas 15 anos. Segundo ela, essa trajetória reforçou a decisão de não se calar diante de novas situações.
“A gente se cala por medo e vergonha, mas precisa expor. É assim que esses homens percebem que uma hora a conta chega”, disse. O silêncio ainda é um dos maiores obstáculos para o enfrentamento desse tipo de crime, e os dados ajudam a dimensionar esse cenário. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas, em São Paulo, apontou que medo e vergonha encabeçam a lista de motivos para as mulheres não denunciarem violências.
Em 2025, um levantamento do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva revelou que 82% das mulheres têm muito medo de serem vítimas de estupro no país. Os números oficiais sobre importunação sexual também impressionam. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, o Brasil registra, em média, 54 novos casos por dia levados à Justiça. Os números dialogam diretamente com a experiência de Laura e com os relatos que surgiram após a exposição do caso.
Cobrança por medidas: a luta continua
A repercussão do caso, contudo, motivou uma mobilização importante. Mulheres da região se organizaram e criaram um abaixo-assinado pedindo providências. O documento é direcionado à Secretaria de Defesa Social, à Polícia Militar e ao comércio local, cobrando medidas concretas de segurança, como campanhas visíveis de conscientização e alertas claros de que importunação sexual e perseguição são crimes.
O episódio não deve ser tratado como um caso isolado, mas como parte de uma realidade. “Não é uma experiência individual. Isso acontece com a maioria das mulheres, independentemente da idade ou aparência. Basta ser mulher”. Ela também afirma que os agressores não são exceções distantes, mas parte do cotidiano social. “Não são monstros. São homens comuns”. Ao final da entrevista, Laura reforçou o compromisso de seguir incentivando outras mulheres a denunciarem e deixou um recado direto: “Parem de nos assediar!”.