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Iris Raquel, de Cachoeira do Campo, encabeça candidatura coletiva da UP contra a mineração em Minas Gerais

Iris Raquel, de Cachoeira do Campo, encabeça candidatura coletiva da UP contra a mineração em Minas Gerais

Victória Oliveira

Criada em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto, Iris Raquel, de 24 anos, chega à sua primeira disputa eleitoral encabeçando uma candidatura coletiva da Unidade Popular (UP) para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Pedagoga, cuidadora profissional de crianças e militante política, ela começou a se organizar ainda na adolescência, aos 16 anos, em movimentos que deram origem ao partido, com atuação no Movimento de Mulheres Olga Benário e no movimento estudantil.

A candidatura, intitulada “Iris Raquel Contra a Mineração”, reúne também Bernardo e Vandeco, que vivem em diferentes territórios de Minas Gerais atravessados pela atividade minerária. A proposta, segundo a UP, é ampliar as vozes representadas na disputa e levar ao Legislativo uma atuação construída coletivamente, tendo como principal eixo o enfrentamento ao modelo de exploração mineral no estado.

Em entrevista ao O Liberal, Iris fala sobre sua trajetória, a escolha pela candidatura coletiva e as propostas da UP para Minas Gerais, passando por temas como mineração, educação, saúde, políticas para mulheres e reconhecimento dos territórios tradicionais. Confira a seguir.

O Liberal: Você vai para sua primeira disputa eleitoral já para o cargo de deputada estadual. Queria que você contasse um pouco do porquê dessa escolha. É uma estratégia do partido ou uma escolha pessoal?

Iris Raquel: Bom, quero saudar o espaço. É muito importante que a gente tenha oportunidade de ocupar esses lugares para democratizar o acesso à informação e ao nosso programa para as pessoas, sobretudo por ser um partido muito novo. Nós somos uma construção coletiva. Tanto que estamos, inclusive, expressando isso de forma materializada através de uma candidatura coletiva. As nossas decisões são tomadas de forma conjunta. Essa decisão parte da compreensão da importância de ter representações que estejam comprometidas com a voz desse povo nesse espaço legislativo do estado.

OL: A Unidade Popular é recente enquanto partido legalizado. Você participou desse processo de construção. O que te faz permanecer nele e continuar representando esse partido?

IR: A legalização aconteceu em 2019, mas o nosso movimento vem de muitos anos. Estou organizada no partido há mais de dez anos. O Movimento de Mulheres Olga Benário, por exemplo, está completando seus 15 anos, e tem a primeira casa de referência da mulher na América Latina, em Belo Horizonte, que é a Casa Tina Martins. A gente tem também um movimento de luta nos bairros e favelas, que é um movimento que vai debater moradia no nosso país e no nosso estado. A gente costuma dizer: enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito. Nessa perspectiva, nós já montamos mais de quatro ocupações na capital mineira. Então, é um partido histórico de muita luta, que apresenta para o povo o princípio de não flexibilização quando o assunto são os nossos direitos. A gente não negocia isso em medida nenhuma. Com certeza, a materialização da resistência de não negociar os nossos direitos me mantém alinhada com o nosso partido.

OL: A mineração é o centro das discussões da candidatura. Nós estamos em Ouro Preto, que tem uma história profundamente ligada à atividade minerária. Como você enxerga a relação atual entre Minas Gerais e a mineração e como acredita que ela deveria funcionar na prática?

IR: Esse é um debate muito profundo, porque acho que a gente precisa entendê-lo em camadas. Minas Gerais é um estado que carrega o minério no nome. E assim como a gente vai ao supermercado e identifica o produto em setores a partir do que quer comprar, repartiram Minas Gerais em setores: você vai em Ouro Preto para encontrar ouro preto, Ouro Branco para encontrar ouro branco, Esmeraldas para encontrar esmeralda, e assim vai. Nosso território é vendido dessa forma. Existe uma legislação no estado para facilitar que toda a nossa riqueza seja vendida a preço super barato para fora, enquanto nosso povo paga altíssimos impostos. E a gente precisa usar o exemplo de outras cidades em Minas Gerais para entender o quanto precisamos acabar com a minero-dependência para que ela não acabe com o nosso povo. Um exemplo é Itabira, que foi onde a Vale foi fundada. A Vale já anunciou que ela tem mais 17 anos úteis de mineração, porque o minério é um recurso finito, ele acaba. E aí, quando o minério de Itabira acabar, o que vai ficar para o povo que vive em Itabira? Hoje, o município convive com várias barragens em volta do território e, se qualquer uma delas romper, todas as outras podem ser atingidas e inundar a cidade. Então, o que o povo de Itabira vive é um terrorismo minerário, é uma ameaça à habitação e à existência constante, que coloca na mão do povo a obrigação e a função de se autossalvar. Isso é um absurdo.

Temos uma narrativa de que a mineração gera muito emprego. A gente questiona isso na íntegra. Primeiro porque não gera tanto emprego assim, e a gente vê que a mineração precisa, inclusive, trazer trabalhadores de outros territórios para trabalharem aqui. Vieram do Norte, do Nordeste. Da mesma maneira, existem outros exemplos, como Itatiaiuçu, que no ano passado demitiu 300 trabalhadores de uma vez só porque as ações caíram. Divinópolis, com quase 700 funcionários em férias coletivas, e a previsão é de mais demissões. Então, que garantia de trabalho e de segurança a mineração está oferecendo para o nosso povo? A gente tem que parar para analisar o nosso território e ver, por como podemos realmente garantir um serviço que seja voltado para o nosso povo e que atenda outras áreas, como turismo, turismo ecológico, valorização do nosso território e plantio, que inclusive não vai ter mais ameaça hídrica? Porque a mineração contamina a nossa água, aumenta a especulação imobiliária e traz impactos para a saúde, com possíveis problemas respiratórios e oculares. Tudo isso precisa estar previsto. Sobrecarrega o sistema de saúde e os recursos. Então, falar sobre mineração é falar sobre qualidade de vida, inclusive para quem não está diretamente ligado ao setor. Isso precisa ser discutido agora!

OL: Você mencionou a questão da dívida do Estado. Como a mineração se relaciona com esse debate?

IR: A gente, na Unidade Popular, não reconhece isso simplesmente como dívida. O Estado foi condenado a uma dívida eterna. Se a gente pegar desde 1996, que foi quando a Lei Kandir foi implementada, até os dias atuais, estamos falando de um valor na casa dos bilhões, sem considerar os juros, que a União deve para o estado de Minas Gerais. A gente defende uma auditoria dessa dívida do Estado para entender o que é essa dívida que estamos pagando, porque nem isso o povo sabe. Quando nós, da classe trabalhadora e do povo brasileiro, contraímos uma dívida, a gente sabe por quê, sabe onde e no que investiu. A dívida do Estado, a gente não sabe. E as únicas candidaturas que estão apresentando a defesa dessa auditoria da dívida são as candidaturas da Unidade Popular, que também defendem revogar essa lei e acabar com a Lei Kandir, que determina que a exportação de determinados produtos não tenha taxação, enquanto o povo aqui paga taxação sobre aquilo que consome.

OL: Quais são as propostas da candidatura para a educação, especialmente na região dos Inconfidentes?

IR: Eu atuo na área da educação em escolas há cinco anos. Sou completamente apaixonada pela educação. Quem está na sala de aula está no chão de fábrica da educação. É ali que as trocas mais orgânicas e mais profundas acontecem. Para a educação, a gente vê vários aspectos expressivos que precisam de mudança. A gente defende, de início, a revogação desse Novo Ensino Médio, que não tem nada de novo, só desestrutura e esvazia o sentido da educação para a nossa juventude. Eu já mencionei o piso salarial dos professores do Estado, que é inadmissível. A gente defende o aumento dos salários em 100%. Mas, para além disso, defendemos a ampliação e o atendimento das creches integrais, para que toda a comunidade possa ser atendida. O que a gente vê hoje é uma disputa por vagas nas nossas creches, o que é inadmissível, porque precisa ser uma garantia de serviço público. Também defendemos o fim dos concursos. A gente precisa universalizar a educação do nosso território. Então, Enem e provas pré-seletivas para você ter acesso a cursos técnicos e à educação superior são inadmissíveis. A gente precisa garantir que, se chamamos de educação pública, ela precisa ser pública de fato e atender a todo o público. E a gente precisa correlacionar essa discussão a conjuntura das políticas públicas para mulheres no nosso território.

OL: Explique melhor sobre isso!

IR: Estatisticamente, na educação básica a maior parte das profissionais são mulheres. Então, estamos num estado que é o segundo que mais mata mulheres no Brasil. Nosso programa se compromete com o combate à violência, com a implementação de casas de apoio e delegacias 24 horas, porque aqui no Estado a gente só tem uma delegacia 24 horas. Para além disso, defendemos restaurantes populares, lavanderias populares, para tirar da mulher a condição de trabalho doméstico, que é invisibilizado, que não é assalariado e coloca a mulher numa jornada de trabalho elevada quando comparada aos homens. É uma jornada de trabalho duplicada, se formos pensar nessa perspectiva. A Unidade Popular vem apresentando essa resposta de várias formas, inclusive com suas próprias candidaturas. A gente tem a única mulher negra candidata à Presidência do Brasil, que é a Samara Martins, a única mulher ao governo de Minas, que é a Indira Xavier, e está apresentando expressivamente candidaturas de mulheres.

OL: Vamos falar sobre saúde. Como a Unidade Popular se posiciona e quais propostas a sua candidatura pretende levar para essa área?

IR: A gente defende o combate ao serviço de saúde privada, defendendo que todos os políticos eleitos tenham que obrigatoriamente utilizar o SUS como sistema de saúde. É uma forma de combater o sistema de saúde privado justamente para acabar com essa expropriação do nosso povo e com base no que está garantido na Constituição, que a saúde precisa ser de acesso de todas as pessoas. A gente entende que, por exemplo, Cachoeira do Campo está crescendo exorbitantemente e, concomitantemente a isso, não temos UBS em todos os bairros, não temos uma UPA 24 horas que funcione com todos os serviços. Então, é preciso qualificar o atendimento nesse serviço de saúde, garantir que ele chegue a todas as regiões, entendendo que Minas Gerais tem proporção de um país, mas que, ainda assim, é necessário garantir que esses serviços cheguem a todos os locais. A gente reconhece a precarização do sistema municipal de saúde, não só aqui, mas no Brasil todo. Isso perpassa novamente, diretamente, pela questão do teto de gastos e do arcabouço fiscal. E, para que isso seja possível, novamente precisamos discutir a auditoria da dívida pública, para que definamos de fato a verba necessária, reconheçamos se há de fato uma dívida e, a partir disso, decidir coletivamente como essa dívida vai ser paga.

OL: Outro aspecto da sua candidatura é a defesa das comunidades indígenas e quilombolas. Como você enxerga a importância do reconhecimento desses territórios, especialmente aqui na região dos Inconfidentes?

IR: A gente vive numa cidade histórica, profundamente marcada pelo turismo, e precisa começar a questionar quais narrativas têm sido contadas. O nosso território foi habitado por comunidades indígenas, tanto é que temos o povo Borum-Kren aqui na região, e por comunidades quilombolas. É fundamental que a gente reconheça essa história e é, inclusive, por isso que nos posicionamos também por memória, verdade e justiça. A defesa desses territórios é também a defesa da nossa vida, porque são nesses territórios que se organizam a defesa das nossas nascentes, das nossas fontes hídricas e a reconstrução da nossa fauna e flora. A gente está numa terra muito rica. O que a gente planta cresce, desde que não coloque nossos rios em coma, não adoeça nossa terra. Essas comunidades falam nessa linguagem de preservação do nosso futuro, porque elas são as ancestrais. E é isso que a Unidade Popular é. É a unidade do nosso povo em nome da soberania alimentar, do bem viver, da dignidade, de que possamos passar mais tempo com nossas famílias, trabalhar na redução da escala de horários de trabalho. Tudo isso.

OL: Qual é a mensagem da Unidade Popular para os eleitores que ainda não decidiram seu voto?

IR: A gente entende que o nosso povo está órfão de uma alternativa. O que tem sido expresso nesses últimos anos é que o povo precisa decidir entre o menos pior. E o que a Unidade Popular traz é uma alternativa que defende de fato as ideias do povo. E não o menos pior. E isso sem espaços na televisão, sem espaço de mídia para a construção da democratização do nosso povo, é isso que a gente denuncia. Então, a gente quer fazer um convite expresso para que as pessoas conheçam nossas candidaturas, nossos programas, acessem nossas redes (@unidadepopular), dialoguem com a gente, para que mais pessoas pelo menos conheçam os nossos programas e para que os interessados se organizem nas nossas fileiras.

OL: Se você fosse eleita e chegasse ao fim de quatro anos de mandato, o que gostaria de olhar para trás e saber que aconteceu?

IR: É uma pergunta muito boa. Eu acredito que a ampliação da organização das nossas frentes, do acesso aos direitos e do serviço público, que realmente seja a expressão da organização e da materialização da nossa luta.

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