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Arte, fé e inquietação: intervenção com sucata na Sexta-feira da Paixão provoca reflexão

Arte, fé e inquietação: intervenção com sucata na Sexta-feira da Paixão provoca reflexão

Victória Oliveira

Na última semana, durante a Sexta-feira da Paixão, a Praça da Matriz de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, recebeu uma intervenção artística que chamou a atenção de quem passava pelo local. Instalada próxima à Casa de Cultura, em frente à Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, a obra reuniu esculturas produzidas a partir de sucata.

A principal peça retratava Nossa Senhora da Piedade, inspirada na Pietà, imagem clássica da Virgem Maria com o corpo de Jesus nos braços. O cenário incluía elementos que remetem à crucificação, tecidos vermelhos simbolizando o sangue, espelhos e quadros com situações contemporâneas, como fome e tráfico humano, propondo uma reflexão sobre a atualidade da mensagem cristã. A intervenção não foi realizada pela paróquia, mas contou com seu apoio.

O autor da obra é o serralheiro, escultor e artista Aguinaldo Veriano Dias, morador do distrito. No dia a dia, ele trabalha com estruturas metálicas, mas encontrou na sucata uma forma de expressão para sentimentos e percepções.

As intervenções na praça começaram a partir de trabalhos realizados para a igreja em períodos de fim de ano. Com o tempo, Aguinaldo passou a propor esculturas mais conectadas ao sentido religioso, iniciando projetos no Natal por dois anos consecutivos e, neste ano, trazendo a proposta para a Semana Santa.

Embora seja o idealizador e responsável pela execução, ele destaca que o projeto é coletivo. A montagem envolve amigos, voluntários e apoiadores da comunidade, que contribuem com trabalho manual e recursos. A proposta também passa pela criação de uma identidade cultural para o distrito.

O Jornal O Liberal conversou com ele sobre o projeto, o processo criativo e o significado da intervenção.

Entrevista

OL: Aguinaldo, suas obras sempre provocam reflexões? Existe essa intenção?

Aguinaldo: Não sei se você percebeu, mas nas obras de Natal nunca teve o menino Jesus. Porque a minha ideia é que Jesus nasça no coração das pessoas. Ele não tinha que estar ali representado, ele tinha que nascer no coração. Outra coisa: o Papai Noel fazia menção à escultura de José e Maria. Ele ficava de mãos postas, como quem assiste, porque quem traz um presente precisa pedir permissão para quem dá o presente maior, que é Jesus. Não sei até onde isso é visto como crítica, mas é uma forma de provocar. Acho que é uma oportunidade de cada pessoa tirar o melhor de si a partir disso.

OL: Neste ano, o projeto aconteceu na Sexta-feira da Paixão. O que motivou essa mudança?

Aguinaldo: Acho que esse momento reflete todos os sentimentos que um ser humano pode ter estão ali na morte: a perda, o amor, a decepção, o abandono. Eu sempre quis fazer essa imagem, e acho que por isso tive uma dedicação maior nesse projeto. Trabalhei com todo o carinho e com toda a capacidade. Como eu já tinha trabalhado duas vezes com o nascimento, senti a necessidade de trabalhar a morte, porque sabia que isso ia impactar as pessoas. Quis entender o que impacta mais: o nascimento ou a morte.

Dentro disso, trouxe um pouco da realidade que a história conta, a forma como ele foi crucificado, mas também o que a gente usa para “crucificá-lo” todos os dias. Isso foi colocado em porta-retratos ao redor do cenário, para ajudar a construir essa ideia.

OL: E como foi a reação das pessoas?

Aguinaldo: Eu tenho até o relato de uma pessoa que chegou, viu o projeto e falou que o que mais machucou foi ver os espelhos, porque ela podia se enxergar dentro de todo aquele contexto e se sentir inútil. Então, assim, esse era o objetivo. Por isso que eu falo: não é uma questão só de religião. Claro que está muito próximo da religião católica, mas quando você traz isso para a rua, você dá oportunidade para todo mundo participar.

OL: E como foram os bastidores da obra?

Aguinaldo: Tudo começa na minha cabeça. Eu comecei pela face de Maria e de Jesus. Dessa vez, trabalhei mais o corpo, então tive que fazer primeiro o contorno dos braços, das pernas, do tronco, fazer o corpo de Jesus inteiro para depois encaixar na Maria. Fiz todas as curvas, a posição dos braços, para depois esculpir a Maria dentro desse contorno. Faltando 15 dias, decidi fazer um soldado, porque queria mais realismo. Muita gente falou que não daria tempo, mas eu comecei, trabalhei até nos sábados e consegui terminar com menos de uma semana.

Pessoas que não faziam parte do grupo chegaram para ajudar na montagem, com muito “sangue nos olhos”. Por isso a necessidade de renovação e do projeto coletivo. O grupo chegou às quatro da manhã, porque a gente não queria estar na praça quando as pessoas começassem a chegar. A gente desmontou por volta das 23h.

Também procurei o padre Harley para saber se não atrapalharia a programação da Semana Santa. Ele disse que não atrapalharia em nada, que só agregaria.

OL: Uma curiosidade: você assina as suas obras?

Aguinaldo: Não, porque esse é um projeto coletivo. As peças são minhas, mas eu estou emprestando para Cachoeira do Campo. Meu objetivo é esse: fazer as pessoas abraçarem, se identificarem, até porque tem muita gente com talento escondido.

Quando o artista cresce fora, ele não deve nada ao lugar, porque a ligação é como pessoa, não como artista. Mas quando o lugar faz o artista, aí sim ele sempre deve aquele lugar. Cachoeira está deixando de criar esse vínculo com as pessoas e com os artistas. Quando eu empresto minhas obras para Cachoeira, eu estou criando espaço para outras pessoas fazerem o mesmo.

Imagens emolduradas e, ao fundo, espelhos, integrando a intervenção/ Imagem: Aguinaldo Dias

OL: E hoje, como você se sente em relação ao projeto, especialmente a este último?

Aguinaldo: Eu acho que, de certa forma, fiquei meio decepcionado. Não é que eu queira que o projeto seja conhecido mundialmente, não é isso. Mas, para você ter uma ideia, na hora da desmontagem já não tinha ninguém vendo o projeto. Não sei se dá para dizer que teve uma adesão cultural positiva. Pode ser que eu esteja errado, que o tempo tenha sido suficiente para todo mundo ver, mas no Natal, a gente ficava quase um mês e sempre tinha gente tirando foto, até na hora de desmontar ainda tinha gente ali. Então você começa a comparar.

E ainda teve gente que fala: “você ia se dar bem se levasse isso para Ouro Preto” ou “se fizesse escultura de cachorro e cavalo, que está na moda”. Você pega um monte de sucata, transforma em algo que representa um momento complexo da religião e ouve isso. Também falaram sobre trazer recurso financeiro para pagar as pessoas. Mas, se fosse para ganhar dinheiro, eu faria projetos individuais.

A questão é: o que Cachoeira do Campo quer? A gente vai deixar isso acontecer? Vou te falar: às vezes é mais fácil desistir do que continuar.

OL: A arte não trouxe respostas definitivas

Aguinaldo: A fala de Aguinaldo revela não apenas o processo por trás da intervenção, mas também uma inquietação sobre o papel da arte e da comunidade. Entre reconhecimento, críticas e reflexões, o projeto aponta para além da estética: a tentativa de provocar pertencimento, estimular novos artistas e construir uma identidade cultural no distrito.

Mesmo diante das frustrações, a iniciativa deixa marcas, seja pela força simbólica das esculturas, seja pelas perguntas que permanecem. Se a estrutura foi desmontada em poucas horas, o mesmo não se pode dizer das inquietações que deixou. E talvez seja justamente aí que o projeto encontre seu sentido mais profundo.

Fiéis saindo da missa e se deparando com a intervenção/ Imagem: Aguinaldo Dias

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