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Justiça Inglesa condena BHP, acionista da Samarco, pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana

Justiça Inglesa condena BHP, acionista da Samarco, pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana

Imagem: Paula Karacy / Marcos Delamore

O Tribunal Superior de Londres divulgou, nesta sexta-feira (14), a sentença que condena, parcialmente, a mineradora BHP, uma das acionistas da Samarco, pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, em 2015. Os valores da indenização que a empresa terá de arcar ainda não foram estabelecidos e revelados.

A ação movida contra a BHP segue em andamento, desde 2018, na Justiça Inglesa. Considerada uma das maiores ações coletivas da história, o caso é movido por 620 mil pessoas, 31 municípios e cerca de duas mil empresas afetadas, que reivindicam uma indenização de R$260 bilhões.

Responsabilidade pelo rompimento da barragem

Narra os autos da decisão da juíza Finola O’Farrell, que a Corte inglesa apontou uma série de atos e omissões que contribuíram para o rompimento da barragem e, então, desencadearam na maior tragédia socioambiental do Brasil.

“O risco de colapso da barragem era previsível. Diante dos sinais óbvios de rejeitos saturados e contrativos e de inúmeros incidentes de infiltração e fissuras, foi imprudente continuar a elevar a barragem ao longo do alinhamento do recuo de ausência de uma análise escrita adequada da estabilidade do recuo e dos riscos associados”, diz um trecho da decisão.

O tribunal concluiu que uma análise de liquefação e testes de estabilidade adequados teriam constatado o risco de colapso e identificado fatores de segurança. “Um estudo teria identificado fatores de segurança. É inconcebível que se tenha tomado a decisão de continuar a elevar o nível da barragem nestas circunstâncias”.

A Corte Inglesa considerou os seguintes pontos para deferir a sentença:

● A BHP como poluidora, tanto sob a Legislação Ambiental Brasileira e no Código Civil Brasileiro;

● Negligência, imprudência e imperícia da BHP, anteriores ao colapso;

● As empresas BHP e a Vale como operadoras e controladoras da Samarco;

● A rejeição do Tribunal diante das tentativas da empresa de limitar sua responsabilidade. Conclusão dos processos criminais relativos ao rompimento da barragem;

● Os municípios brasileiros têm legitimidade para prosseguir com as ações na Inglaterra.

O Tribunal Superior de Londres, na Inglaterra, recebe as últimas audiências do caso, que abordaram os procedimentos para a segunda fase do processo da tragédia de Mariana na Justiça inglesa. Nessa próxima, prevista para outubro de 2026, serão avaliadas as dimensões dos danos causados pelo rompimento da barragem. Se o parecer for favorável aos atingidos, a Vale será responsabilizada a arcar com 50% do montante a ser pago. Somente em 2028, acontecerá a definição das indenizações individualizadas.

A defesa das vítimas

A defesa dos atingidos e atingidas, representada pelo escritório Pogust Goodhead, argumentou que as empresas tinham ciência dos riscos do colapso da barragem e deveriam ser responsabilizados pelos danos causados.

Os advogados alegaram também que foram detectadas, em agosto de 2014, fissuras, infiltrações e rachaduras na estrutura da barragem. Eles consideram que havia uma “evidência de falha iminente do próprio talude”.

Para o atual prefeito de Mariana, Juliano Duarte (PSB), o resultado é um primeiro reconhecimento formal para imputar culpa à mineradora. “Vencemos a ação na Inglaterra. O município de Mariana foi reconhecido e venceu a ação que estamos lutando contra a mineradora BHP. Vitória de Mariana, vitória dos atingidos, vitória das comunidades, vitória das pessoas que perderam a vida. Essa é a primeira fase do processo e a empresa BHP foi culpada. Seguimos em busca de justiça.”.

O que a mineradora alegou

A mineradora anglo-australiana BHP, por sua vez, emitiu uma nota afirmando que irá recorrer da decisão. “A BHP informa que pretende recorrer da decisão da corte britânica e reforça o compromisso da BHP Brasil com o processo de reparação no Brasil e com a implementação do Novo Acordo do Rio Doce”.

As mineradoras Samarco, Vale e BHP e os governos de Minas, Espírito Santo e as autoridades federais brasileiras firmaram um acordo, no montante de R$ 170 bilhões, para a reparação integral dos danos causados pelo rompimento da barragem.

A Samarco aplicou cerca de R$ 32 bilhões desse recurso no pagamento de indenizações individuais, reassentamentos e recuperação do meio ambiente.

A BHP afirma que a Justiça Inglesa reconheceu os pagamentos das obrigações assinadas e recebidas por alguns atingidos, por meio da compensação no Brasil. Com isso, a expectativa da empresa mineradora é de que o valor das ações no Reino Unido seja reduzido. 

O desastre

O rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, completou dez anos, no último dia 05 de novembro. O colapso na estrutura da barragem do Fundão culminou na liberação imediata de aproximadamente 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro e sílica sobre comunidades e meio ambiente.

O desastre, considerado um dos maiores da mineração brasileira, resultou na interrupção de 19 vidas e na devastação de comunidades, vegetações e da fauna de Minas Gerais e do Espírito Santo, pela grande onda de lama de rejeitos de minério da mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton. Os sedimentos contaminaram a bacia do Rio Doce e o Oceano Atlântico.

Casas, propriedades rurais e bens patrimoniais das comunidades também foram destruídos. Mais de duas milhões de pessoas foram atingidas direta e indiretamente pelo grande volume de rejeitos. Ao todo, 49 municípios foram atingidos, direta ou indiretamente.

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