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Entre fantasmas, arte e poesia: Vinícius Tobias estreia como colunista no Jornal O Liberal

Entre fantasmas, arte e poesia: Vinícius Tobias estreia como colunista no Jornal O Liberal

Imagem: Vinicius Tobias/ Victória Oliveira

“Eu não sei se fantasmas são reais: mas em Ouro Preto eles existem”. É assim que se inicia a coluna de estreia de Vinícius Tobias para o jornal O Liberal. Jornalista, escritor, poeta e doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ele chega às páginas do jornal trazendo uma proposta que mistura arte, literatura, memória e as experiências provocadas pelo contato com uma cidade como Ouro Preto.

Nascido no estado do Rio de Janeiro, filho de pais mineiros, Vinícius foi criado em Ijaci e Lavras, no Sul de Minas. Sua trajetória passou ainda por São João del-Rei e Juiz de Fora, até chegar a Ouro Preto, onde vive atualmente. Foi na literatura, porém, que encontrou uma forma de percorrer diferentes territórios e observar o mundo.

Sua relação com a escrita começou ainda antes da vida acadêmica. Em 2009, participou da criação do Lavras Poesia, coletivo que reuniu poetas, publicou fanzines, organizou saraus e circulou por diferentes cidades de Minas Gerais.  Depois dessa experiência coletiva, vieram outras formas de publicação. Vinícius lançou Metal Físico, em 2013 e A estrada e o moirão, em 2021. Em 2023, estreou como contista com A luz da minha irmã, publicado pela Ópera Editorial. Entre 2009 e 2019, também publicou a série de seis fanzines Intervenção Humana.

Vinícius encontrou na academia outra maneira de investigar aquilo que já aparecia em sua produção: a relação entre arte, experiência e mundo.“Eu venho da arte e vou estudar religião. Minha obra é um pouco assim também, uma obra de descoberta do mundo religioso a partir da arte”, explica. A experiência como professor de Ensino Religioso também mantém essa aproximação. Em sala de aula, ele procura incorporar música, poesia e teatro ao ensino, entendendo a arte não apenas como um conteúdo, mas como parte da formação e da maneira de se relacionar com o conhecimento. Confira, a seguir, a entrevista.

O Liberal: Como surgiu o encontro com o jornal O Liberal? De onde veio a ideia de escrever para o jornal?

Vinícius Tobias: Quando você vem de fora para um lugar, a gente fica muito sem conexões, sem redes. Eu sempre gostei dessa coisa do jornal impresso. Eu lia o O Liberal enquanto estava morando em Ouro Preto, porque agora estou morando em Amarantina. Então, desde a época em que morava em Ouro Preto, sempre achei muito interessante. Lendo o jornal, eu acabava me inteirando de como são as relações aqui em Ouro Preto e na região. Eu sempre tive vontade, mas nunca publiquei em jornal impresso. Sempre publiquei de forma online. E essa vontade de fazer parte de Ouro Preto também. É uma maneira que eu penso de me relacionar com Ouro Preto, tentar me posicionar aqui. Estou muito feliz de estar publicando.

OL: E nós também estamos felizes em te receber. Qual é a proposta da sua coluna? O que você pretende trazer para os leitores?

VT: Então, a gente está acostumado, na verdade, é mais um preconceito, com o estudo da arte de forma muito formal. Mas existe o estudo da arte que é sobre a recepção, os processos que estão envolvidos quando você percebe, quando você entra em contato com aquilo. Eu gosto muito da experiência de Ouro Preto. A gente está vivendo em meio a um patrimônio que tem arte de outro tempo. E essa metáfora do fantasma é muito famosa na história da arte. Os principais autores da história da arte trabalham com essa metáfora. O Aby Warburg, que é um discípulo do Panofsky, tinha o fantasma como um conceito. A história da arte é uma história de fantasmas, porque a gente conhece pessoas e mitos de outro tempo que não estão mais aqui. Ele tem um livro, inclusive, que se chama História de Fantasmas para Gente Grande. Então, é pensar como a arte são resquícios de uma vida e, de repente, aparece para a gente no presente. Eu tenho muito interesse nessa pegada do inusitado. Acho que isso que torna a arte interessante. A arte está sempre aberta por conta dessas possibilidades de leitura. Então, a gente está vivendo num lugar extremamente cheio de arte de outro tempo e é propício para essa leitura. E uma coisa que achei muito engraçada quando morei em Ouro Preto, quando cheguei no bairro Antônio Dias, é que a galera realmente tem certeza de que fantasma existe mesmo. Eu achei isso muito engraçado no começo, mas depois fui entendendo que as pessoas estavam falando sério. E falo um pouco disso nessa primeira crônica.

OL: Você pretende, então, trazer a história da arte conectada com o presente?

VT: No presente, porque essa ideia do fantasma é como aquela obra de arte aparece no presente. Mas não precisa ser só da história da arte. Pode ser também de algo ouvido, de algo visto, de alguma banda, algum elemento de arquitetura, alguma fixação, tudo aquilo que aparece.

OL: E essas colunas vão se estender também para personagens e histórias de toda a região dos Inconfidentes, incluindo cidades como Itabirito e Mariana?

VT: Olha, eu já tenho uma pensada para Itabirito e Mariana, sim. Em Itabirito, eu vou falar sobre um poema que o Carlos Drummond de Andrade fez para o Pico de Itabirito, em que ele fala que o pico vai se transformar em um fantasma. É um poema sobre mineração.

OL: E qual é a sua expectativa em relação ao que os leitores vão sentir a partir desse contato com a coluna?

VT: Olha, eu acho que o convite é olhar de uma maneira mais atenciosa para tudo que circula. Porque eu acho que o olhar daquele que está chegando é interessante, às vezes, para tirar do lugar certas certezas. Quem está aqui olha sempre, está sempre convivendo já com essa experiência. Às vezes, a pessoa nem sabe como é morar em um lugar que não é histórico. E é muito mais chato. E, de repente, seja essa provocação: a gente perceber o tanto que esse lugar é especial e o tanto de coisa interessante que tem para a gente observar. É esse chamado para um olhar diferente.

OL: Para quem gostar dessa coluna e quiser conhecer mais do seu trabalho, qual caminho você recomenda?

VT: Eu não tenho nenhum trabalho anterior de crônicas. Tenho esse livro de contos, que tem uma chave um pouco mais parecida, que é “A luz da minha irmã”. A ideia desse livro é, geralmente, de pessoas passando por dificuldades muito profundas, que poderiam ser médicas ou psicológicas, mas que vão procurar no simbólico da religião. Então, é uma coletânea de pessoas procurando em diversas religiões. Mas é um livro para adultos, não é para o público infantil.

OL: Para encerrar: qual é o convite que você gostaria de fazer aos leitores a partir da sua coluna?

VT: Vamos juntos vencer essa estranheza e trabalhar nela. Os fantasmas existem. Vai aparecer imagem de tudo quanto é tempo para a gente. A gente tem que lidar com elas, sem se esconder, olhar para elas de frente.

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