Você está em casa quando o telefone toca. Do outro lado da linha, uma pessoa se apresenta como funcionária do banco. Ela fala seu nome completo, conhece alguns dados pessoais e informa que uma transferência suspeita acabou de ser bloqueada. A voz transmite segurança e o tom é urgente: “precisamos confirmar alguns dados para impedir que sua conta seja esvaziada.” Em outra situação, você recebe uma mensagem de um suposto advogado dizendo que ganhou uma ação judicial e que o dinheiro será liberado no mesmo dia, desde que pague uma pequena taxa. Há também quem receba ligações do falso parente pedindo PIX.
O cardápio dos golpistas parece não ter fim. Todos os dias surgem novas modalidades, adaptadas às tecnologias e aos hábitos da população. E a pergunta inevitável é: por que, mesmo ouvindo diariamente sobre esses golpes, tantas pessoas ainda continuam sendo vítimas?
A resposta pode passar pelos estudos desenvolvidos por Daniel Kahneman, compilados na obra “Rápido e Devagar: duas formas de pensar”. Segundo o autor, a mente utiliza atalhos mentais, chamados heurísticas. Esses atalhos são extremamente úteis na maioria das situações do dia a dia, mas também produzem erros previsíveis de julgamento, os chamados vieses cognitivos.
E é justamente explorando esses atalhos que os golpistas conseguem fazer suas vítimas. Eles criam situações de urgência, medo ou euforia para impedir que as pessoas ativem seu pensamento analítico. Afinal, quem acredita que sua conta bancária está sendo invadida ou que acabou de ganhar uma quantia tende a agir antes de refletir.
Um mecanismo apresentado no estudo é descrito como: “o que você vê é tudo o que existe”. O cérebro constrói rapidamente uma história “coerente” apenas com as informações disponíveis, ignorando justamente aquilo que está faltando. Se a ligação parece profissional, a foto é a do seu advogado e a conversa faz sentido, a mente completa as lacunas sem perceber que as informações mais importantes, como a verdadeira identidade do interlocutor, simplesmente não foram verificadas.
Por isso, sempre que alguém exigir uma decisão imediata, pedir sigilo, solicitar senhas, códigos enviados por SMS ou qualquer transferência urgente, desconfie. Converse com alguém de confiança antes de agir. Em outras palavras, obrigue seu cérebro a desacelerar. Quanto mais espaço você der ao pensamento racional, menores serão as chances de que o pensamento automático caia nas armadilhas meticulosamente preparadas pelos criminosos. Nem todos os problemas têm solução apenas no Direito.