Texto e Imagem: Marcos Delamore
Hélcio Pereira Fortes, ouro-pretano morto pela ditadura militar brasileira, recebe título de Técnico em Mineração pelo IFMG de Ouro Preto
O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais, campus Ouro Preto, organizou nesta quinta-feira (5) uma homenagem inédita na história do Brasil a um de seus estudantes que foi assassinado pela ditadura militar brasileira.
O ato, que ocorreu no Auditório Arthur Versiani Machado, foi marcado pela diplomação póstuma de Hélcio Pereira Fortes, ex-aluno da instituição e liderança estudantil. Organizada pelo Grêmio Livre Estudantil (gestão MobilizArte), com apoio da Direção Geral do campus, a solenidade é a primeira Diplomação Póstuma Secundarista do Brasil e reconhece o compromisso com a memória, a democracia e os direitos humanos.
O evento contou com a presença de representantes municipais e de movimentos estudantis, organizações sociais, colegas e familiares do homenageado. Representando a família, seu irmão Délcio Fortes, emocionado, ressaltou o legado de Hélcio e afirmou: “Guerreiros são pessoas e destaco o lado humano, solidário, generoso e corajoso de meu irmão Hélcio. Com a redemocratização do país, Hélcio vem recebendo várias homenagens, o que nos leva a crer que ele continua inspirando comportamentos e, acima de tudo, mora dentro dos nossos corações”, enfatizou.

Presente na solenidade, o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, destacou a grande relevância cultural da família de Hélcio para a cidade, além de reforçar a importância de preservar a história e fortalecer os valores democráticos. “Por amor à pátria, ele deu a sua vida. É um reconhecimento muito importante e um momento que nos toca. Com a lembrança e evocação do sacrifício de Hélcio Pereira Fortes, o compromisso brasileiro de lutar pela Democracia, a República e o bem-estar de nosso povo. Esse ato é uma festa da democracia em honra de Hélcio Pereira Fortes”, disse.
Quem foi Hélcio Pereira Fortes?
Hélcio, filho de José Ovídio Fortes e Alice Pereira Fortes, foi estudante de Mineração no IFMG e envolveu-se ativamente nas lutas estudantis durante o período de repressão da ditadura.
Nascido em Ouro Preto (MG), em 1948, o jovem foi uma pessoa interessada pela história política e social do Brasil, participando ativamente dos eventos e manifestações culturais da cidade como teatro e cinema, sendo um dos fundadores do Cine Clube de Ouro Preto. Integrou o Grêmio Literário Tristão de Athayde (GLTA) e tornou-se um dos redatores do jornal “A voz do GLTA”. Foi também um dos fundadores do “Jornal de Ouro Preto” e peça importante e ativa na política estudantil da cidade por meio da União Colegial Ouropretana (UCO).
Hélcio foi capturado em janeiro de 1972, torturado e assassinado pelas forças de repressão, em 30 de janeiro do mesmo ano. Diversas são as versões acerca de sua morte. Em seu atestado de óbito, emitido pela Operação Bandeirante (Oban), foi registrado que Hélcio morreu de anemia aguda traumática, motivada por um “suposto tiroteio” que havia trocado com a polícia na Avenida dos Bandeirantes, em São Paulo. O médico responsável pelo laudo foi confrontado por José Ovídio Fortes, pai do jovem, que confirmou que ele foi morto sob intensa tortura.
Somente em 1975 seus pais conseguiram exumar seus restos mortais do cemitério de Perus para o cemitério da Igreja de São José, em Ouro Preto. Uma Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos foi instaurada em 1996 e aprovou o processo de reparação de Hélcio, que descartou a versão oficial da ditadura.
O livro “Hélcio”, organizado pelo seu irmão Délcio, foi lançado em janeiro de 2017, na capital mineira de Belo Horizonte, no qual antigos amigos e companheiros relatam as vivências significativas que tiveram com o jovem ouro-pretano e símbolo brasileiro de resistência.