Entrada do parque. Imagem: Victória Oliveira/ Victória Oliveira
A construção de uma praça de lazer dentro do Parque Natural Municipal de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, tem gerado questionamentos e descontentamento entre moradores do bairro Residencial da Vale. A obra acontece em uma área próxima à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do distrito.
A Associação de Moradores do Núcleo Residencial Vale do Rio Doce elaborou um abaixo-assinado manifestando-se formalmente contra a intervenção e contra a supressão de árvores no local, alegando falta de diálogo e exclusão da comunidade das decisões relacionadas ao parque.
Segundo o documento, que já reúne 45 assinaturas, a Prefeitura de Ouro Preto teria iniciado o corte de árvores sem consulta prévia, debate público ou aprovação da associação, que, de acordo com eles, fere a legislação municipal.
O artigo 4º da Lei Municipal nº 765/2012 determina que “a implantação e a administração do Parque Natural Municipal de Cachoeira do Campo serão realizadas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente em parceria com a associação”, tendo como finalidade a requalificação da paisagem, a proteção da biodiversidade e a melhoria da qualidade de vida do distrito.
O Jornal O Liberal esteve no local na terça-feira (26) e conversou com o professor do IFMG Ouro Preto e morador do bairro desde 2010, Júlio Fontenelle, que também integra a associação comunitária. No dia em questão, já havia sido realizada uma pequena operação de terraplanagem, no local da futura praça, algumas árvores haviam sido cortadas e outras estavam marcadas com um “x”, para serem as próximas.
Segundo o morador, o bairro participa ativamente da preservação do parque há anos: “Na doação do local da Vale para a Prefeitura, a Vale colocou a associação como co-gestora do parque. Então é uma gestão participativa da comunidade junto com a prefeitura e isso foi excelente, porque algumas gestões cuidam mais do que outras. Mas nós, os moradores, continuamos sempre cuidando”, afirmou.
Durante a visita, Júlio mostrou mudas plantadas por moradores e relatou que, em períodos de seca, voluntários frequentemente ajudam no combate a incêndios na área verde. “Muitas vezes os moradores colocam até a própria integridade em risco para apagar fogo aqui”, disse.
Apesar das críticas, ele ressalta que a comunidade não é contra melhorias no espaço, mas defende que qualquer intervenção respeite o caráter ambiental da unidade de conservação. “Uma praça é importante como área de convivência, mas poderia ser construída em outro local que não exigisse intervenção dentro de uma área verde já consolidada”, argumentou.

Segundo o professor, os moradores defendem alternativas compatíveis com a proposta original do parque, como trilhas ecológicas, espaços de contemplação e estruturas leves para convivência e educação ambiental.
Outro ponto levantado pelo morador diz respeito à proximidade entre a futura praça e a UPA do distrito. Júlio afirmou que a escolha do local causa preocupação, especialmente em relação à concentração de crianças para lazer em uma área próxima a um equipamento de saúde. Ele pondera que o espaço poderia reunir crianças em situações de saúde diversas, incluindo algumas em condição de vulnerabilidade imunológica ou neurológica, além da circulação constante de pessoas em atendimento médico. “Não sou profissional de saúde, mas sinceramente não sei se é uma boa ideia”, comentou.
Uma moradora que preferiu não se identificar também questionou a demanda real pelo equipamento público naquela região, afirmando que o bairro possui poucas crianças e sugerindo que o investimento pudesse ser direcionado a áreas com maior necessidade.
A reportagem também conversou, por telefone, com Pedro Rodrigues, conhecido como “Preto”, diretor de Parques e Áreas Protegidas da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura de Ouro Preto.
Segundo ele, foram realizados estudos técnicos de viabilidade ambiental antes da intervenção. De acordo com o diretor, foram suprimidas 11 árvores, sendo sete eucaliptos e quatro pinheiros, em uma área que possui cerca de 600 árvores dessas espécies, o que, segundo ele, não representa impacto ambiental significativo.
Pedro Rodrigues afirmou ainda que a obra é tecnicamente viável, trazendo benefícios para toda a população do distrito, como uma opção de atividade de saúde e lazer, e contestou a interpretação de que toda decisão relacionada ao parque precise ocorrer de forma coletiva com a associação.
O secretário municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Ouro Preto, Francisco de Assis, mais conhecido como Chiquinho, também se manifestou sobre a obra. Segundo ele, a Prefeitura mantém o compromisso de diálogo com a comunidade e defende que a intervenção busca ampliar o uso social e a preservação do espaço.
“A gente reafirma o compromisso de responsabilidade conjunta. Estamos dispostos a construir com a comunidade. A Prefeitura está agindo depois de um tempo que o parque ficou parado, sujeito a incêndios”, afirmou. O secretário destacou ainda que a obra conta com recursos de emenda parlamentar destinada pelo vereador Vantuir, a partir de solicitação da própria Secretaria.
Segundo Chiquinho, a praça contará com playground infantil e melhorias no calçamento para caminhadas, o que, segundo ele, deve aumentar a presença da população no parque e fortalecer a relação da comunidade com a área verde.
Ele também afirmou que duas das árvores retiradas estavam ocas e comprometidas por cupins, sendo uma delas afetada por queimadas anteriores. De acordo com o secretário, a supressão foi realizada de forma preventiva para evitar riscos a frequentadores e equipamentos públicos próximos. A Secretaria informou também que está prevista a substituição das espécies retiradas por mudas de árvores nativas, como quaresmeiras, além da possibilidade de inclusão de espécies frutíferas.
O parlamentar Vantuir Silva, autor da verba impositiva destinada para a obra foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até o fechamento desta edição.
Serviços ecossistêmicos e biodiversidade
Durante a conversa com a reportagem, Júlio Fontenelle destacou a importância ambiental da área e os chamados serviços ecossistêmicos prestados pelo parque ao distrito de Cachoeira do Campo.
Segundo ele, embora o local possua predominância de espécies exóticas, como eucaliptos e pinheiros, a área abriga ampla biodiversidade. “Na última semana, durante a Semana da Biodiversidade, catalogamos mais de 200 espécies diferentes no parque”, afirmou. De acordo com o professor, o espaço serve de abrigo para animais como miquinhos, esquilos, aves de rapina e diversos polinizadores importantes para o equilíbrio ambiental.
Ele também ressaltou funções ambientais desempenhadas pela área verde, como retenção da água da chuva, redução da temperatura, diminuição da poeira e da poluição sonora, além da contribuição para o equilíbrio ecológico da região. “Essa área funciona como uma esponja. A água do bairro escoa para cá e é absorvida pela cobertura vegetal. Sem essa vegetação, o solo tende a compactar e a infiltração diminui”, explicou.
Ao final da entrevista, Júlio afirmou que espera maior diálogo entre o poder público e a comunidade em futuras intervenções no parque.
