Classe da enfermagem protesta contra vereador. Imagem e Texto: Victória Oliveira
A reunião ordinária da Câmara Municipal de Itabirito, realizada nesta segunda-feira (9), foi marcada por protestos de profissionais da saúde, discussões acaloradas e críticas à gestão municipal. O estopim das manifestações foi a divulgação de um vídeo pelo vereador Anderson Martins (PL), em que aparecem enfermeiras da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Celso Matos Silva realizando a compra de alimentos dentro da unidade enquanto pacientes aguardavam atendimento.
O vídeo, publicado inicialmente nas redes sociais do parlamentar, repercutiu uma gravação recebida por Anderson Martins de um paciente que aguardava atendimento na UPA. Nas imagens, aparecem profissionais de enfermagem identificáveis realizando a compra de um produto em um balcão instalado dentro da unidade de saúde. Ao comentar as imagens, o vereador afirmou que o paciente teria aguardado cerca de 40 minutos por atendimento enquanto presenciava a situação.
Na gravação, o parlamentar questiona a coordenação da UPA e critica o fato de, segundo ele, servidores públicos estarem comprando alimentos durante o horário de trabalho. “Enfermagem médica pediátrica comprando bombom. Eu recebi isso aqui agora. Já mandei pra secretária, ela falou comigo que a chefe vai investigar, mas eu vou dar publicidade nisso aqui, porque são funcionários públicos no horário de trabalho, comprando bombom na UPA. E cheio de gente, há uma hora, duas horas, com o filho com febre, com o filho passando mal, aguardando pra ser atendido”, afirmou Anderson Martins em vídeo.
Em meio à repercussão do vídeo e em reação a episódios anteriores de fiscalização nos serviços de saúde, a Câmara Municipal recebeu um documento da Secretaria Municipal de Saúde com novas normas para a entrada e atuação de parlamentares em ambientes de saúde. O conteúdo do material gerou grande descontentamento entre os vereadores, que passaram a questionar a ética e a legalidade das restrições impostas ao exercício da fiscalização legislativa.
Nota de repúdio denuncia exposição e humilhação
Os profissionais de enfermagem encaminharam aos vereadores uma nota de repúdio contra a atitude do parlamentar, à qual o Jornal O Liberal teve acesso. No documento, a equipe afirma que fiscalizar é dever do vereador, mas que expor e humilhar trabalhadores configura abuso.
“Gostaria de lembrá-lo que a nossa imagem não é patrimônio público para ser usada em busca de curtidas. Somos profissionais, pais e mães de família que merecem respeito”, diz um trecho da nota.
O texto também rebate a tentativa de criminalizar o momento de alimentação dos profissionais, ressaltando que muitos trabalham em plantões de 12 ou até 24 horas, sob pressão constante, e que pausas para descanso e alimentação são direitos previstos na legislação trabalhista e fundamentais para a segurança dos pacientes.
A nota ainda questiona por que o foco recai sobre o lanche dos profissionais, enquanto persistem problemas como a falta de insumos e condições adequadas de trabalho, além de cobrar uma retratação pública do vereador e maior empenho na defesa do piso salarial da enfermagem e de uma saúde pública de qualidade.
“A enfermagem não é o problema do sistema; nós somos quem faz o sistema funcionar, apesar de todas as falhas. Fiscalizar não é filmar escondido para lacrar na internet. Fiscalizar é ser ético. Exigimos uma retratação e que o senhor direcione sua energia para lutar pelo nosso Piso Salarial e por uma saúde de qualidade, em vez de perseguir quem dedica a vida ao cuidado do próximo”, consta outro trecho da nota.
Durante o protesto, os manifestantes exibiram faixas com frases como “A enfermagem salva vidas, respeito” e “A UPA não é seu comitê eleitoral”.
Reprodução do vídeo na Câmara e questionamentos sobre venda de alimentos
Durante a sessão ordinária, o vereador voltou a exibir o vídeo na tribuna, desta vez com os rostos das profissionais desfocados. Na ocasião, Anderson Martins afirmou que o produto adquirido seria morango e levantou questionamentos sobre as condições sanitárias da venda de alimentos dentro de uma instituição de saúde.
O parlamentar anunciou ainda que protocolou um requerimento solicitando à Prefeitura e à Secretaria Municipal de Saúde a proibição de qualquer tipo de comércio ambulante dentro da UPA, argumentando que normas sanitárias vedam a comercialização de alimentos em ambientes de saúde.
Apesar do desfoque aplicado na versão apresentada em plenário, o vereador não se desculpou com as profissionais envolvidas. Enfermeiras e técnicas de enfermagem presentes na sessão se manifestaram em protesto, inicialmente permanecendo de costas durante a fala do parlamentar.
Quando o vídeo foi exibido, os manifestantes passaram a gritar palavras como “mentira” e “Pinóquio”, afirmando que, no primeiro vídeo divulgado nas redes sociais, que se espalhou pela cidade, as profissionais estavam claramente identificáveis e que as críticas atingiram diretamente toda a equipe da UPA. A gravação que os profissionais guardam como registro da ação do vereador não está mais disponível nas redes sociais.
Documento da Secretaria de Saúde gera reação entre vereadores
Ainda durante a sessão, a Câmara repercutiu um documento recebido da Secretaria Municipal de Saúde intitulado “Protocolo de Fluxo para entrada de parlamentares na UPA”. O texto estabelece regras para visitas de vereadores à unidade, como a necessidade de comunicação prévia do motivo da visita e acompanhamento pela coordenação da UPA durante o horário administrativo.
A medida gerou forte reação negativa entre parlamentares. Anderson Martins se manifestou em repúdio ao documento e afirmou que irá encaminhá-lo ao Ministério Público.
A vereadora Rose da Saúde, que afirmou ter sido barrada em uma visita recente, criticou duramente o protocolo. “Isso é de dar vergonha. Eu, com cinco mandatos e quase 30 anos como funcionária pública, nunca vi Secretaria de Saúde querer dar ordem na Câmara. Eu acho que o prefeito não deve saber disso”, disse.
Ao comentar um trecho do documento que exige comunicação prévia à coordenação da UPA, Rose questionou a viabilidade da regra. “Até parece que a coordenação tá sempre por lá”, disse. A vereadora garantiu que continuará realizando seu trabalho de fiscalização e anunciou que, da próxima vez, recorrerá à polícia e, se necessário, ao Ministério Público.
O vereador Renê Butekus também criticou a iniciativa da Secretaria de Saúde e defendeu o direito de fiscalização do Legislativo. “Por regra no meu trabalho você não vai, porque não está dando conta do seu trabalho, quem dirá do trabalho de quinze vereadores. Vamos entrar, vamos trabalhar, que é direito nosso. Respeitar também é um dever, mas proibir um vereador de adentrar onde ele precisa fiscalizar, nós vamos parar na Justiça. Tome conta da sua pasta para depois querer dar pitaco no parlamento”, afirmou.
Sindicato reforça apoio às profissionais
O diretor sindical do Sindicato dos Servidores Públicos de Itabirito (Sindisemi), Sérgio Recepute, esteve presente na sessão e reforçou o repúdio à ação do vereador.
“A gente veio junto com as colegas, organizando essa manifestação contra as últimas atitudes, inclusive a atitude de hoje, de acreditar que ele é algum tipo de patrão que pode coagir o servidor público no exercício da sua função, confundindo o que de fato seria o papel dele de fiscalizador”, afirmou.
Segundo Sérgio, a postura do parlamentar se mantém mesmo após as manifestações, o que reforça, segundo ele, a necessidade de união da categoria para combater esse tipo de atitude. Ele também destacou que o sindicato tem cobrado da Prefeitura um diálogo mais claro sobre outras pautas pendentes, como a regularização do tempo trabalhado durante a pandemia, o pagamento retroativo desse período, a data-base salarial de 2025 e a ausência de anúncio de reajustes e melhorias nas condições de trabalho.
Algumas dessas demandas, além de outras reclamações, como falta de medicamentos e insumos e demora para alguns tipos de atendimento, também foram mencionadas pelos vereadores em suas falas na Tribuna Livre. O episódio evidenciou fragilidades estruturais da saúde pública no município, o que deve seguir no centro dos debates políticos e institucionais ao decorrer do mês.