Mauro Werkema
Em dimensões extraordinárias, o Brasil se dedica ao Carnaval e mobiliza a todos, em todo o território nacional — cidades e populações, homens e mulheres, jovens e idosos — nesta grande festa popular. Com alegria contagiante, esquecem-se os problemas de cada um e de todos, e a alegria toma conta, no embalo das músicas, nas fantasias, nos desfiles, nas bandas típicas das marchas carnavalescas. A alegria é contagiante e se amplia a cada ano, com números excepcionais revelando, nas suas dimensões, o dedicado gosto do brasileiro por esta festa que é de todos, sem classes sociais ou discriminações de qualquer natureza, mas apenas uma explosão de alegria, de libertação de condicionantes, sentimentos, críticas, pois o Carnaval é livre, espontâneo, permite a todos, com alegria e as sátiras possíveis, se manifestar.
E já o Carnaval não se limita ao que se chamou de “tríduo momesco”, que durava apenas três dias. Hoje, estende-se por duas semanas, com os desfiles antecipados de blocos carnavalescos, alegres, festivos, democráticos, espontâneos, tribais na sua arregimentação e organização, que tomam todo o território brasileiro, ruas e praças, demonstrando, por sua dimensão, uma nova e marcante característica do Carnaval brasileiro. O Carnaval é festa de todos, aberto e contagiante e, a cada ano, demonstra a alegria do povo brasileiro, sua vocação festiva, esquecendo as mazelas nacionais e as dificuldades da vida de cada um e de todos. Reina a alegria e instala-se o reinado de Momo.
Ficou no passado a afirmação, que perdurou por muitos anos, de que o mineiro era retraído, sem aptidão para o Carnaval ou para extravasar alegrias, decorrente de reputação vinda de herança antropológica de timidez e introversão, originária de sua formação sociológica desde os tempos da Colônia. O Carnaval de Belo Horizonte é citado hoje como o terceiro maior do Brasil, após o Rio e São Paulo, onde a festa se destaca por grandes desfiles de escolas de samba, mas que também acontece, cada vez mais, com grandes blocos de rua, em proporções surpreendentes quanto à adesão das populações. O fato mais surpreendente é que ocorre uma veloz explosão do Carnaval, fenômeno extraordinário, e a festa toma conta de todas as cidades, com alegria e crescente participação. E com resultados econômicos positivos, movimentando toda a cadeia de serviços, eventos e turismo, que se prepara e estimula a festa.
Ouro Preto, Mariana e Itabirito, e mesmo distritos da Região dos Inconfidentes, revelam também suas tradições festivas, acompanhando a explosão de participação, característica principal deste ano. Os blocos de rua expandem-se e a festa se torna envolvente, chamativa, motivante, com novos grupos que nascem da espontânea organização popular, congregadores e expressivos nas suas evocações, resultantes de uma rica e variada organização social das cidades. Organizam-se nos bares, praças, esquinas, colegas de trabalho e escola, famílias, avisados e convocados pelo fenômeno das redes sociais, com a sinergia que alicerça e cimenta a alegria, repentinamente não mais contida, conformando a expressividade maior da festa. E surgem os blocos, com multidões, variadas motivações e origens, superando a timidez, realçando novos traços da personalidade dos mineiros, extravasando sua alegria. E aderem também às fantasias e alegorias próprias do espírito momesco.
Escolas de samba e blocos antigos desfilam, resistindo aos tempos. Não é o modelo do Rio ou de São Paulo, luxuosos e suntuosos, ostentatórios e caros, exigentes de um formato empresarial, feito para plateias selecionadas. O Carnaval mineiro se expande e impressiona pelo envolvimento maior da população e pelo grau de organização popular, cada ano com mais componentes. E nascem da iniciativa popular, com a força do povo organizado, na alegria e na fanfarra, que envolve e contagia. É claro que se ampliam também as responsabilidades dos órgãos públicos encarregados da segurança pessoal e patrimonial, planejamento de trânsito, banheiros públicos, limpeza, que cuidam da normalidade da festa.
Há que saudar e comemorar a grande festa que toma conta e envolve a todos, fenômeno que revela traço essencial do brasileiro: vocação para a festa e a alegria, que dança, canta e satiriza governos e tradições, liberto de todos os limites e restrições, pois o Carnaval é de todos, espontâneo, imperando a alegria. O brasileiro se mostra, se revela, alegre em meio às dificuldades de vida de todos. E, hoje, nos nossos dias, antecipa-se até uma semana antes, vai além da Quarta-Feira de Cinzas, quando o brasileiro revela sua dimensão humana da alegria, da sátira, da confraternização na festa de todos.