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A lenda do riacho de águas límpidas

Valdete Braga

Reza a lenda que Buda, já em idade avançada, caminhava com seus discípulos por uma floresta, sob calor intenso.

Sentindo sede, Buda chama um de seus discípulos, e diz:

– Há uns seis quilômetros atrás, passamos por um riacho. Preciso que volte lá e me traga um cantil de água. Estou fraco e com muita sede.

O discípulo pegou o cantil e seguiu para o riacho. Lá chegando, percebeu que alguns carros de boi o haviam atravessado, revolvendo o leito de folhas secas e deixando a água toda enlameada. Já não era possível beber daquela água, e, assim, ele voltou com o cantil vazio, explicando o que havia acontecido, e acrescentou:

– Seguirei adiante. Ouvi falar que mais para a frente existe um outro rio, trarei água de lá.

Para sua surpresa, Buda insistiu:

– Volte até o mesmo riacho e traga a água. Se ela ainda estiver suja, sente e espere até que ela volte a ficar limpa e encha o cantil. Durante este tempo, permaneça em silêncio e observe a sua volta. Cedo ou tarde, a água estará limpa novamente.

O discípulo não conseguia entender tanta insistência, mas como era um pedido do mestre, retornou ao riacho, mesmo achando um absurdo ter de percorrer todo aquele caminho novamente, sabendo que a água não estava boa para ser bebida.

Ao chegar, a água ainda não estava totalmente limpa, mas as folhas haviam sido levadas e boa parte da sujeira tinha saído e, obedecendo as palavras do mestre, ele sentou e ficou observando o riacho fluir. Lentamente, a água tornou-se límpida. Encheu então o cantil e retornou.

Entregou a água a Buda e agradeceu.

Buda perguntou:

– Por que me agradece? Eu que devo agradecê-lo, por ter me trazido a água.

O discípulo respondeu:

– Agradeço porque agora entendi a mensagem. No início, eu estava com raiva. Não demonstrei, mas senti raiva porque achava um absurdo voltar. Agora entendi, sentado à beira do riacho, que a mesma coisa acontece com a minha mente. E continuou:

– Se eu mergulhar no rio, o sujarei novamente.  Da mesma forma, se eu mergulhar na mente, apenas irei criar mais barulho, e mais problemas serão desenterrados e começarão a aparecer.

Compreendo que devo me sentar também diante da minha mente, observando-a com todas as suas impurezas, problemas, folhas velhas, mágoas, feridas, memórias e desejos, e assim devo permanecer, até que tudo fique limpo.

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