Igreja Matriz de São Gonçalo do Amarante. Texto e Imagem: Victória Oliveira
Pequena em tamanho, Catas Altas da Noruega revela grandes experiências por meio da fé, da cultura e da hospitalidade de seu povo
Pouco mais de três mil habitantes. Ruas tranquilas, montanhas que cercam o município e um nome capaz de despertar a curiosidade de qualquer visitante. Afinal, qual seria a relação entre Catas Altas da Noruega e o país europeu?
Essa costuma ser uma das primeiras perguntas de quem chega à cidade, localizada próxima a Conselheiro Lafaiete. A resposta passa pela própria formação histórica do município.
“Catas Altas” faz referência ao antigo sistema de exploração mineral realizado em escavações profundas durante o ciclo do ouro. Já “Noruega” possui diferentes interpretações. A mais difundida relaciona o nome ao clima ameno, ao relevo montanhoso e às áreas úmidas da região, que teriam lembrado paisagens do país europeu. Outra hipótese aponta que o termo remete ao significado de “caminho do norte”, em referência às rotas percorridas pelos bandeirantes rumo às minas.
As origens do município remontam ao final do século XVII, quando a mineração impulsionou o surgimento do povoado de São Gonçalo de Catas Altas. Durante décadas, a localidade permaneceu como distrito de Conselheiro Lafaiete até conquistar sua emancipação política em 1963.
Foi nesse cenário que o Projeto Minas Inédita, no roteiro Vilas e Fazendas, desembarcou no segundo dia do press trip. Mais do que visitar atrativos, a experiência foi um convite para compreender a identidade de Catas Altas da Noruega por meio de suas histórias, da religiosidade que une a comunidade, dos sabores preparados na zona rural e dos empreendimentos que encontraram, nas montanhas e no campo, novas formas de preservar tradições e gerar renda.

A cidade onde uma santa caiu do céu
Embora sua formação remonte à exploração do ouro, em Catas Altas da Noruega,sua mais importante história não veio da terra, mas do céu. Tudo teve início em 1949, quando o recém-chegado padre Luiz Gonzaga Pinheiro desejava inaugurar sua missão religiosa no município com a bênção de uma imagem de Nossa Senhora das Graças, santa de sua devoção. A encomenda, porém, não chegaria a tempo por problemas de transporte.
Dias depois, em 29 de julho daquele ano, um avião cargueiro que seguia do Rio de Janeiro para Belém apresentou uma pane durante o voo. Para reduzir peso e tentar realizar um pouso de emergência, a tripulação lançou parte da carga sobre a região. Geladeiras, tecidos, calçados e diversos objetos caíram sobre o território. Entre eles estavam três imagens sacras. Duas foram destruídas. A terceira, uma imagem de Nossa Senhora das Graças, permaneceu praticamente intacta. Para os moradores, não havia dúvidas: a santa havia chegado da forma mais inesperada possível, exatamente quando o padre aguardava sua chegada.

Assim nasceu a história da “santa que caiu do céu”, um dos episódios mais marcantes da memória de Catas Altas da Noruega e que, até hoje, atrai visitantes e devotos. A imagem permanece preservada na Igreja Matriz de São Gonçalo do Amarante, protegida por uma redoma de vidro, enquanto o dia 29 de julho tornou-se uma das datas mais importantes do calendário religioso do município.
Iniciada em 1727, a Matriz reúne elementos do barroco, do rococó e de períodos posteriores, refletindo diferentes fases da arte sacra mineira. Tombada pelo patrimônio municipal, a igreja preserva características inspiradas na arquitetura jesuítica e guarda um dos maiores símbolos da identidade local.
Memória preservada
Quem deseja compreender melhor essa história encontra outro importante ponto de visitação no Museu e Arquivo Histórico de Catas Altas da Noruega, que abriga também o Memorial Padre Luiz Gonzaga Pinheiro.
Durante a visita do press trip, a mediação foi conduzida pelo historiador e curador Giovane Luiz Lobo Neiva, que apresentou documentos, fotografias, objetos e relatos capazes de reconstruir não apenas a trajetória do sacerdote, mas também a formação da própria cidade.
O espaço nasceu em 1999 graças, também, à participação ativa da comunidade, que doou fotografias, documentos e objetos pessoais para compor o acervo.
A importância do padre Luiz Gonzaga para Catas Altas da Noruega ultrapassa a religiosidade. Após sua morte, uma disputa entre familiares e moradores ganhou repercussão estadual. A família desejava sepultá-lo em sua cidade de origem, enquanto a população defendia que ele permanecesse onde dedicou 46 anos de sua vida religiosa.
O corpo chegou a deixar o município, mas posteriormente retornou, sendo definitivamente sepultado em Catas Altas da Noruega, um desfecho que simboliza o vínculo construído entre o sacerdote e a comunidade.


Sabores que contam histórias
Se a religiosidade emociona, a gastronomia aproxima. Na zona rural, o projeto Café com Roça transforma a hospitalidade mineira em experiência. Idealizado por Anatália Imaculada e João Batista, o empreendimento nasceu após um curso de turismo rural e da vontade de abrir as portas da propriedade para compartilhar o modo de vida no campo.
O que começou com a produção de quitandas tornou-se um espaço que recebe visitantes para cafés, almoços e hospedagem, fortalecendo também a economia local. Grande parte dos ingredientes servidos vem da própria propriedade. O restante é adquirido de produtores vizinhos, criando uma rede de colaboração entre agricultores do município.

Durante a visita, o almoço reuniu clássicos da culinária mineira, como angu frito, tutu, frango com fubá, ora-pro-nóbis, umbigo de banana, doces caseiros e sucos naturais. A experiência incluiu ainda a produção artesanal do doce de leite, permitindo que cada visitante preparasse seu próprio pote, combinando o doce com geleias produzidas na região.
Mais do que uma refeição, o Café com Roça propõe um encontro com o ritmo do interior, onde o tempo desacelera e a conversa ao redor da mesa faz parte da experiência.

Um sonho que floresceu entre oliveiras
Outra surpresa de Catas Altas da Noruega está nas montanhas. Na Estância do Pinheiro, o engenheiro florestal Moacir Batista e sua esposa, Maria de Lourdes, decidiram transformar a aposentadoria em um novo projeto de vida.
Vindos do Sul do país, adquiriram a propriedade e, em 2009, iniciaram o plantio de 800 mudas de oliveiras das variedades Maria da Fé, Arbequina e Grappolo. O clima frio do município mostrou que era possível cultivar oliveiras na região.
O experimento deu certo. Hoje, a propriedade reúne cerca de três mil árvores e tornou-se pioneira na produção e extração de azeite extravirgem na região, processando não apenas sua própria produção, mas também a de outros olivicultores das proximidades.
A visita pela propriedade terminou com uma degustação que incluiu azeites, chá preparado com folhas de oliveira e uma combinação pouco convencional, mas surpreendente: azeite extravirgem servido sobre doce de leite artesanal.
A propriedade também recebe hóspedes, ampliando as possibilidades para quem deseja vivenciar o cotidiano rural cercado pelas montanhas mineiras.

Um destino feito de histórias
No Projeto Minas Inédita, Catas Altas da Noruega mostrou que seus maiores atrativos não estão apenas nas construções históricas ou nas belas paisagens.
Estão nas histórias preservadas pelos moradores, na fé que atravessa gerações, nas receitas compartilhadas à mesa, nos sonhos que deram origem a novos empreendimentos e na hospitalidade de quem faz questão de receber cada visitante como se estivesse abrindo as portas da própria casa.
É um município pequeno em extensão e população, mas enorme na capacidade de transformar causos, memória e tradição em experiências inesquecíveis.
