Marcas do passado
É comum ver internautas nas redes sociais pedindo a volta dos militares. É bom esclarecer sobre atos do regime de exceção que vivemos a partir de 1964. Vivi a época, era estudante, e senti na pele os efeitos da mordaça no direito de expressão.
Presenciei confronto entre estudantes e militares na Avenida Afonso Pena; vi prenderem, em Itabirito, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Regaldino Neto de Souza, e confiscar toda a documentação sindical.
Um batalhão desfilou em nossas ruas para proceder à prisão do médico Antônio Castro Veado, simplesmente porque havia proferido palestras no Rotary Club.
O jovem Antônio Carlos, filho do músico Mata Pinto, foi chamado ao alto comando do Exército em Juiz de Fora para explicar o artigo publicado no jornal mimeografado que antecedeu ao “Esporte Urgente”, exaltando o Dia do Trabalhador.
Participamos da organização do Festival da Canção, criação do Pe. Francisco Xavier, com apresentação do nosso relações públicas Hilton Malheiros. O festival só podia ser realizado depois da liberação, em Brasília, da censura das letras de todas as composições.
A fundação do MDB pelos irmãos José Bastos e Geraldo B. Bittencourt, Raimundo Toledo, Luís Corradi, José Rosendo e tantos outros era vista como afronta, já que na cidade quase todas as lideranças políticas eram filiadas à Arena.
As primeiras reuniões aconteceram nos porões da casa da Tia Lola, nas residências de Chico Marques, na Boa Viagem, ou do Sô Francisco, no Bairro Carioca.
Tempos difíceis, em que o vizinho inoportuno muitas vezes era denunciado como comunista. Geração que teve sonhos desfeitos. Músicas censuradas. Ídolos banidos. Sociedade com medo e direitos suspensos.
Temos que agradecer ao idealismo e à perseverança de líderes como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, que conduziram o país ao caminho democrático.
Encontro que ecoa tradição: Quando a história sopra seus metais, a cidade para para ouvir. Neste domingo, duas centenárias se encontram: Banda Santa Cecília de Mariana e Banda Santa Cecília de Itabirito dividem o mesmo coreto, o mesmo fôlego e o mesmo espaço, tudo no Complexo Turístico da Praça da Estação. E a partitura ganha verso: os escritores de Itabirito se unem à festa, transformando notas em narrativa. Aqui, cada compasso conta uma página da nossa cultura, e cada página, embalada pelo ritmo da Copa, vira memória viva. Entrada gratuita: traga o ouvido, o coração e a torcida verde e amarela.


Para refletir: Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam. (Martin Luther King)