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O Berro do Bode Zé
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Descomunicação

Assim como tudo no mundo, comunicação telefônica tem, ou deveria ter princípio, meio e fim, mas na maioria das vezes, o autor do contato não segue as regras, pela ordem: apresentar-se, dizer com quem deseja falar e, se for o caso, indicar o assunto. No reino tupiniquim, do trono, onde estivera instalado desde sua invenção, o telefone caiu no tamborete e tudo virou de pernas pro ar. Estava inaugurada a era da zoada à distância, pessoas a ligar, de forma anônima, a desconhecidos, para perturbar quem estivesse a fazer algo útil, incluindo-se a mais íntima das intimidades! Larga-se o que está a fazer, atende-se o telefone para ouvir alguém a dar ordens: Ô fulano, faça isso, faça aquilo, quando não descarregam alguns desaforos em cima, pensam eles, de seus desafetos. Mas, eventualmente, até que, nessa balbúrdia, há casos interessantes e divertidos. É o que aconteceu com alguém conhecido, aqui intitulado Zé Mané. Zé Mané precisava fazer uma ligação, mas o telefone de mesa havia sofrido um perereco, naquele dia, razão pela qual foi forçado a fazer uso do celular, que ele tinha, mas não usava como telefone, conservando-o tão somente para outras atividades. Ao teclar o último dígito do número desejado, já se ouviu do outro uma voz masculina: – Oi! Quem qui tá falano? – Só me faltava essa; não uso esse estropício, e, quando dele preciso numa emergência, um zé ruela qualquer atravessa na minha frente – pensou Zé Mané que, mesmo assim, atendeu: – Eu num tava falano nada; ia falá, mas ocê me cortô com a sua fala. Quem qui tava falano era ocê, uai! e, com quem qué falá? – não pensava ele que outra surpresa viria daquele zé ruela – Ah! é ocê mesmo, Luzia, Fofinha! – Zé Mané que, naquele momento pensou em soltar os cachorros e ligar sua metralhadora xingatória, engoliu em seco, lembrando que troteador quer mesmo é ouvir os xingamentos da vítima; por isso, é melhor ficar em silêncio, o castigo para troteadores. Do próprio Zé Ruela veio o que faltava para lhe mostrar a realidade. – Ocê, Luzia, imita quarqué um, hômi ou muié; ocê num tá no lugá qui merece. Cê devia trabaiá na televisão! Cê acha? – perguntou o Zé Mané. Se acho? Num é só eu, é todo mundo que te conhece. Morro de rir quandocê imita o cara da Fazueli! É iguarzinho, sô! Imita um poco ele pr’aeu rir, imita! – Não! – responde o Zé mané, que continua: – não imito mais aquele cara-de-pau, que deu o nó em todo mundo e maldito seja! – Zé Ruela aceita a negativa – Cê tem razão, Fofinha, o hômi tá caindo pelas tabela e sua parcera age como imperatriz! – Imperatriz? – indaga Zé Mané – Ocê não quis dizê ôtra coisa? É que as palavra é muito parecida!… Nesse ponto, ouve-se um ruído suspeito na linha e a ligação é interrompida.

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