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Descoberta arqueológica em Ouro Preto revela pinturas ligadas à cultura africana e ao período da escravidão no Brasil

Descoberta arqueológica em Ouro Preto revela pinturas ligadas à cultura africana e ao período da escravidão no Brasil

Imagem: Leonardo Klink/ Divulgação/ Marcos Delamore

Um importante achado arqueológico descoberto em um casarão colonial de Ouro Preto revela novos vestígios da presença e da memória africana durante o período da escravidão no Brasil. Durante as obras de restauração de um imóvel histórico de cerca de 260 anos, pesquisadores localizaram no porão do edifício um conjunto raro de inscrições, desenhos e pinturas ligados à cultura afro-brasileira.

O material foi encontrado em um ambiente subterrâneo da construção, situada na Rua Conde de Bobadela, popularmente conhecida como Rua Direita, no centro histórico da cidade. O espaço permaneceu fechado por décadas e, segundo os estudiosos, as condições do local, com pouca ventilação, ausência de iluminação e acesso restrito, contribuíram para a preservação dos registros ao longo do tempo.

O sítio arqueológico recebeu o nome de “Inscrições Afrodiaspóricas”, no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e teve reconhecimento técnico por sua relevância histórica e patrimonial. A descoberta reforça a importância de Ouro Preto como um dos principais cenários da formação social e cultural do Brasil colonial, especialmente no contexto da diáspora africana e da escravidão.

O historiador e arqueólogo, Leonardo Klink, que conduz o estudo de doutorado na UFMG, a multiplicidade de desenhos, estilos e materiais preservados no espaço subterrâneo evidencia o caráter inédito do achado bem preservado.

De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, o conjunto arqueológico é considerado raro e pode representar uma das mais importantes descobertas relacionadas à memória da população negra escravizada em áreas urbanas do período colonial brasileiro. A hipótese é de que os registros tenham sido produzidos entre os séculos XVIII e XIX por africanos escravizados e seus descendentes que viveram ou circularam pelo imóvel.

As vinte e seis marcas identificadas nas paredes incluem símbolos geométricos, figuras humanas, representações de animais, embarcações e elementos associados a tradições africanas. Parte das inscrições foi feita com pigmentos escuros e avermelhados, enquanto outras aparecem gravadas diretamente na superfície das paredes. Alguns desenhos precisaram passar por tratamento digital e técnicas especiais de iluminação para serem totalmente visualizados devido ao desgaste provocado pelos séculos.

Entre os elementos que mais chamaram atenção dos especialistas está um desenho que retrata pessoas em um ambiente cercado por muralhas e torres, estruturas que se assemelham a referências históricas do interior da África Ocidental. Outro elemento considerado significativo é uma espécie de máscara confeccionada com grafite e fibras, cuja estética remete a tradições culturais da África Centro-Ocidental.

Uma figura ainda tem interpretação incerta. O desenho reúne características humanas e animais, incluindo chifres e dentes pontiagudos, e segue despertando diferentes hipóteses entre os pesquisadores.

Os estudiosos acreditam que, entre o início da segunda metade do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, o espaço pode ter funcionado não apenas como área de permanência, mas também como ambiente de expressão simbólica, preservação de memória e resistência cultural.

A descoberta também traz novas perspectivas sobre a formação histórica de Ouro Preto. Para os pesquisadores, o achado ajuda a ampliar o entendimento sobre a cidade, tradicionalmente associada ao barroco, à mineração e às elites coloniais, incorporando ao debate a presença e a experiência da população negra escravizada.

Os estudos apontam que os espaços subterrâneos dos casarões históricos podem ter exercido funções mais amplas e complexas do que a ideia restrita de “senzalas urbanas”, frequentemente reproduzida em narrativas históricas e turísticas.

Na avaliação dos especialistas, o ambiente encontrado no imóvel pode ter servido como espaço de convivência, preservação cultural, construção de memórias e manifestações simbólicas ligadas às tradições africanas, mesmo diante das limitações impostas pelo regime escravista.

Os pesquisadores ressaltam ainda que Minas Gerais recebeu africanos de diferentes regiões do continente entre os séculos XVIII e XIX. Documentos da época registram grupos identificados como “mina”, “cabinda”, “congo”, “angola”, “benguela” e “calabar”, denominações utilizadas durante o tráfico negreiro e pela administração colonial.

O casarão segue passando por intervenções de preservação e adequações técnicas. A expectativa é de que, futuramente, o espaço possa ser aberto para visitação pública e atividades educativas, permitindo que o acervo contribua para ampliar o conhecimento sobre a história, modos de vida, práticas culturais e religiosidade.

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