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Cachoeira do Campo se despede de Nylton Gomes Batista, um guardião da memória e cultura do distrito

Cachoeira do Campo se despede de Nylton Gomes Batista, um guardião da memória e cultura do distrito

Victória Oliveira

Cachoeira do Campo perdeu neste sábado, 7 de março de 2026, uma de suas vozes mais dedicadas à preservação da memória e da cultura local. Faleceu, aos 86 anos, o cronista, escritor e colaborador cultural Nylton Gomes Batista, por décadas presença constante nas páginas do Jornal O Liberal e figura profundamente ligada às tradições e à vida comunitária do distrito de Ouro Preto.

Nascido em 25 de janeiro de 1940, em Cachoeira do Campo, Nylton era filho de Benedito Gomes Batista e Zélia Gomes de Souza, que o deixaram cedo, antes do 30. Sua vida começou cercada de desafios. Em entrevistas concedidas ao O Liberal, ele lembrava que passou os primeiros meses e anos de vida com a saúde bastante debilitada. A própria mãe temia que o menino talvez não chegasse “nem aos sete anos de idade”.

A infância também foi marcada por perdas dentro da família. Nylton teve ao todo sete irmãos. Dois deles, mais velhos, morreram ainda na infância, antes mesmo que ele pudesse conhecê-los. Depois nasceram mais cinco. As perdas e dificuldades vividas naquele período deixaram marcas profundas.

Ainda adolescente, enfrentou outro episódio doloroso. Quando tinha 12 anos, sua mãe adoeceu gravemente e acabou sendo internada em Barbacena por cerca de dois anos, após diagnóstico de esquizofrenia. Mais velho, ao recordar essa fase, ele afirmou que viveu justamente sem a presença materna “na fase em que o menino mais precisa de sua mãe”. Também lembrava do medo que sentia ao ouvir comentários de que ela talvez nunca voltasse.

Apesar das adversidades, Nylton cresceu profundamente ligado à vida da comunidade. Tinha uma memória impressionante sobre Cachoeira do Campo de décadas atrás e gostava de relembrar o cotidiano de outros tempos: o trabalho, os hábitos da população, a alimentação simples e as brincadeiras de infância. Entre essas recordações estavam as disputas com as “biroscas” (bolinhas de gude) e as refeições deliciosas preparadas com recursos simples, como o umbigo de banana. Lembrava até dos impactos da Segunda Guerra Mundial no cotidiano das famílias do interior. Em casa, contava, sua mãe chegou a comprar latas de balas para dissolver e adoçar o café, já que o açúcar se tornara difícil de encontrar na região.

A música foi outro elemento fundamental em sua vida. Aos 15 anos, passou a integrar a Sociedade Musical União Social de Cachoeira do Campo (SOMUS), conhecida popularmente como “Banda de Baixo”. Ali nasceu uma relação profunda com as bandas de música. Mais tarde, ao estudar em Ouro Preto, onde cursou o chamado “científico”, equivalente ao atual ensino médio, chegou a morar na sede da Banda do Rosário.

Outro capítulo de sua história, um dos mais importantes, começou no carnaval, quando conheceu Maria de Lourdes Neto Batista, a Lurdinha. O namoro seguiu o ritmo e os costumes de uma outra época. Como ele próprio descrevia, era um namoro “olho no olho e mão na mão”, com conversas demoradas, encontros no portão de casa e beijos discretos trocados no banco da porta. Foram cinco anos de namoro e noivado até o casamento, quando Nylton tinha 25 anos. O casal construiu uma longa vida juntos. Maria de Lourdes faleceu em 22 de fevereiro deste ano, aos 90 anos. Companheiros por décadas, permaneceram unidos até muito próximo da despedida.

Ainda jovem, Nylton trabalhou na região de Saramenha, em Ouro Preto. Mas foi por meio da escrita e da memória que construiu sua contribuição mais duradoura para a comunidade. Durante décadas esteve ligado ao jornal O Liberal, onde atuou como redator por 21 anos e, por cerca de trinta anos, como colunista. Desde 1988, registrou, à convite do fundador do semanário, Dyrceu Noronha, reflexões, histórias e acontecimentos da vida social e cultural da região, primeiro na coluna “Opinião” e, mais tarde, em “Ponto de Vista do Batista”.

Além da atividade jornalística, também se dedicou à literatura. É autor de vários livros importantes: Banda de Música, A Alma da Comunidade, obra dedicada à importância das bandas na vida social mineira; O Grande Segredo, pequena coletânea de contos; Alma em Desencanto e Democracia Aberta Já, que resultou de sua luta contra o sistema político-partidário que, na sua visão, exclui o cidadão da verdadeira representatividade.

Com sua partida, Cachoeira do Campo perde não apenas um cronista, mas uma de suas memórias vivas. O Jornal O Liberal manifesta profundo pesar pelo seu falecimento e se solidariza com seus familiares, amigos e com toda a comunidade. Permanece a gratidão por sua escrita, por sua dedicação e pelo legado deixado.

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