Texto e Imagem: Victória Oliveira
O Carnaval de Itabirito 2026 marcou um novo momento para a festa na cidade. Reformulada após processo de escuta pública promovido pela Prefeitura no ano passado, a programação apostou na valorização de artistas locais e regionais, na reorganização do circuito e no reforço da segurança.
A mudança ocorre em um cenário desafiador para os municípios do interior, especialmente após o crescimento expressivo do carnaval de Belo Horizonte, que nos últimos anos se consolidou como um dos principais polos carnavalescos do país e alterou o fluxo tradicional de foliões na região. Se em décadas anteriores Itabirito chegou a atrair visitantes de cidades vizinhas, hoje muitos itabiritenses optam por passar o feriado na capital. O esvaziamento progressivo também é atribuído por parte da população a decisões de planejamento adotadas ao longo dos anos. Diante desse contexto, a administração municipal optou por reposicionar a festa, priorizando a identidade cultural do município.
Diferentemente de edições anteriores, que contaram com atrações de projeção nacional, a programação deste ano foi composta majoritariamente por artistas locais e regionais, distribuídos em dois palcos centrais montados na Praça da Estação ou circulando em trios elétricos. A estrutura manteve iniciativas já consolidadas, como a Tenda da Diversidade, o Espaço Kids, a área destinada a pessoas com deficiência (PCD) e o circuito organizado na região central, além da continuidade dos blocos sonorizados, marca tradicional do carnaval itabiritense.
UBV e Bandalheira se destacaram no fim de semana
Entre os destaques da programação, estiveram o bloco Unidos da Boa Viagem e a Bandalheira, que atraíram públicos diferentes, mas em volume considerável pela cidade no fim de semana festivo.
O UBV reuniu centenas de pessoas no sábado (14), no bairro Boa Viagem e arredores, com saída da região da Igreja do Matozinhos. Com fantasias livres, clima irreverente e forte participação jovem, o bloco reforçou a ocupação dos bairros e a força da organização independente.
Já no domingo (15), a tradicional Bandalheira levou famílias ao circuito central. O desfile foi marcado por fantasias em grupo, presença de diferentes gerações e repertório de marchinhas, reforçando o perfil mais tradicional e familiar da festa.
Modelo de blocos privados segue em destaque
Os blocos privados também mantiveram papel relevante na programação. Parte deles funciona em lógica semelhante à do carnaval de Salvador, com divisão entre foliões que adquirem abadá, e podem acompanhar o trio dentro da corda, e aqueles que seguem o desfile como numa “pipoca”, do lado externo, participando gratuitamente.
O Bloco Sem Limite foi um dos destaques, trazendo atrações do funk nacional, incluindo o DJ Japa NK, que atualmente figura entre os mais ouvidos do país nas plataformas digitais. Ele se apresentou no desfile pela avenida.
Já o bloco Sensação apostou na chamada “festa das cores”, conhecida mundialmente como Holi Festival, como um diferencial, promovendo a distribuição de pós coloridos que podem ser jogados para o alto durante a programação, colorindo as ruas.
Divisão de opiniões entre os foliões
Apesar da reorganização e da diversidade de formatos, o carnaval dividiu opiniões. Um dos comentários mais recorrentes nas redes sociais foi a percepção de esvaziamento em determinados dias e horários da programação.
O debate sobre o novo formato também foi atravessado por um sentimento de saudosismo. Muitos moradores relembraram períodos em que o Carnaval de Itabirito era considerado um dos mais expressivos de Minas Gerais, atraindo grande público e se consolidando como referência regional. A mudança da tradicional concentração no Largo do Banco do Brasil para a centralização dos palcos na Praça da Estação foi citada por alguns como um símbolo negativo dessa transformação estrutural.
Parte dos foliões também atribuiu esse cenário ao encerramento das atividades pouco depois da meia-noite, modelo adotado nos últimos anos, o que, segundo relatos, teria contribuído para a dispersão antecipada do público
O reforço da segurança, anunciado como uma das prioridades da edição 2026, também gerou controvérsias. Embora parte do público tenha elogiado a presença ampliada de guardas e policiais, houve relatos de abordagens consideradas excessivas. O portal Radar Geral divulgou denúncia de que um homem teria sido atingido por spray de pimenta durante uma ação de dispersão, relatando posteriormente comprometimento parcial da visão. Segundo comentários na publicação, o uso do spray também teria afetado pessoas que estavam nas proximidades. Até o momento, não houve divulgação oficial da Polícia Militar de Minas Gerais sobre registro de crimes graves durante os dias de festa.
Entre críticas e elogios, o Carnaval de Itabirito 2026 se consolida como um marco de transição. A repercussão do novo formato deverá influenciar as próximas decisões do poder público, que poderá optar pela continuidade do modelo ou por novos ajustes estratégicos.
