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Ponto de Vista do Batista
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Tempo em que donas de casa cantavam V

Nylton Gomes Batista

Na semana passada, pensou-se haver esgotado lembranças das principais atividades econômicas, em Cachoeira, durante os anos 40. Assim este autor pensava, até que um maldito desses, “jecas do asfalto” o fez despertar. “Jccas do asfalto” nos perturbam, dia e noite, com o “sub woofer” do som automotivo nas alturas., sem que nenhuma autoridade o coíba, embora a prática seja proibida, quando a perturbar o público.  Pelo menos, neste caso, a tranqueira eletrônica daquele energúmeno nos serviu para lembrar algo interessante.

Uma batida mais seca daquela coisa fez-me lembrar de som parecido, muito comum no ambiente cachoeirense, no período da tarde e a se prolongar pelo início da noite, até que viesse o silêncio do repouso, bem mais cedo do, hoje, praticado. Aqueles sons caracterizavam a última etapa da atividade, que convertia uma frutinha vermelha em matéria prima da mais tradicional bebida brasileira: o café!  A produção artesanal do café era uma atividade, tipicamente feminina, que começava com a colheita, nos cafeeiros de muitos quintais. A partir da colheira, as frutinhas passavam por longo processo, que requeria muito trabalho. Da colheita ia para a secagem da polpa, os grãos espalhados em terreiros, quando eles ficavam prontos para lhes ser removida a casca externa. Confesso não me lembrar de como era processo desse descasque; se era feito com o uso do pilão ou de alguma outra forma.  Sei que, descascados, os grãos já divididos nas duas partes, que dão origem às duas folhas primárias, de um cafeeiro, eram novamente espalhados ao sol, por breve período. Isso servia para que a casca interna se descolasse. Além da casa externa, a cobrir a polpa, uma casca mais resistente e semelhante a um plástico, que recobre as duas partes da semente, essa capa “plástica” era, a seguir, separada, definitivamente, pelo que se denominava “pilar” o café. A “pilagem” consistia, então, em socar os grãos, no pilão, de forma a separar a casca interna, definitivamente e, em seguida, soprá-la. Aqui, as sementes do café estavam prontas para a tarefa, no meu entendimento, mais crucial e penosa, para quem se dispunha a executá-la: a torrefação ou torragem; ou seja, torrar o café até atingir o ponto ideal para a sua transformação em pó. Torrar o café, além do incômodo pela exposição a alta temperatura e o risco de choque térmico, ao sair do ambiente, representava enorme responsabilidade. Havia que ter muita atenção ao ponto ideal, para       que, no final, a bebida tivesse boa qualidade. Finalmente, os grãos estavam prontos para serem transformados em pó, no pilão, mediante firmes socadas, por braços fortes, com a chamada “mão-de-pilão”, instrumento roliço, pesado, de madeira, de quase a altura de uma pessoa. Daquelas batidas ouvia-se o tum… tum… tum… a ecoar bem longe.

Era assim, em Cachoeira, no tempo em que donas de casa cantavam! Andava-se por ruas esburacadas, empoeiradas ou barrentas, a ouvir um… tum… tum…., enquabti, da mesma fonte, se aspirava o aroma do pó, antes de ser levado ao coador, para se tornar o verdadeiro café. Tudo isso era realizado por mulheres laboriosas, corajosas, valentes (algumas também no nome), em nome do sustento de suas respectivas famílias.

Se, hoje, há o caro e apreciadíssimo “café de jacu”, naquela época, tínhamos outro, não mais caro e nem famoso, porém a entrar no processo de produção com meio caminho andado: era o “café de coruja” A coruja, grande apreciadora do café maduro, extrai sua polpa adocicada e lança o restante, livre da polpa e da casca externa. Cabia a crianças o trabalho de catar o “café de coruja”.  Trabalhava-se de cócoras, mãos a deslizar pelo chão, revolvendo folha para encontrar os rejeitos da coruja. Fui catador do café de coruja e não gostei da experiência!

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