Nylton Gomes Batista
O mais antigo site dedicado ao município de Ouro Preto, o Ouro Preto World, encontra-se há mais de um mês sob ocupação comercial da gigante chinesa do e-commerce Temu. A invasão digital foi denunciada em 27 de novembro de 2025 pelo editor e fundador do portal, Nylton Batista, que acusa a empresa de utilizar indevidamente o espaço para veicular anúncios e links de vendas, além de ter alterado o layout original da página.
Segundo Batista, o episódio não se resume a uma simples inserção de publicidade: “O administrador ficou sem acesso ao painel de controle, como se o site tivesse deixado de ser nosso”, relata. Dois dias após a denúncia, o acesso ao painel foi restabelecido, permitindo novas postagens. No entanto, Nylton denuncia que a ocupação comercial persiste, com a Temu explorando o espaço para comercializar seus produtos em território digital alheio.
Um pioneiro da internet em Ouro Preto
Criado em julho de 2001, durante a Semana da Cidade de Ouro Preto, o Ouro Preto World nasceu como iniciativa cultural independente, em um período em que não havia qualquer outro site dedicado ao município — nem mesmo por parte das instituições públicas.
O projeto foi fruto da persistência de seu editor, que enfrentou as dificuldades da época: conexão discada, provedores restritos a Belo Horizonte e custos elevados de telefonia. “Era preciso avançar nas madrugadas e aproveitar os fins de semana para escapar das tarifas”, relembra Batista.
Durante cerca de um ano, o editor trabalhou em silêncio na construção do portal, sem revelar sequer à família. “Se desse c’os barros n’água, só eu saberia”, comenta, em referência ao receio de frustrar expectativas caso o projeto não vingasse. O lançamento, contudo, marcou um divisor de águas na presença digital de Ouro Preto.
Patrimônio digital ameaçado
Mais do que um espaço informativo, o Ouro Preto World consolidou-se como registro cultural da cidade, acompanhando sua história e transformações ao longo de mais de duas décadas. A atual ocupação por uma multinacional estrangeira, sem autorização, é vista pelo editor como uma forma de exploração indevida do trabalho de terceiros e um atentado contra a memória digital do município.
“Não se trata apenas de um site invadido. É um patrimônio cultural de Ouro Preto que está sendo usado como vitrine comercial por quem nada tem a ver com nossa história”, afirma Batista.
Casos semelhantes no Brasil
O episódio não é isolado. O Brasil tem registrado diversos ataques e invasões digitais nos últimos anos, envolvendo tanto instituições públicas quanto empresas privadas. Entre os mais notórios estão o ataque de ransomware ao Superior Tribunal de Justiça em 2020, que paralisou processos por dias; o vazamento de dados da Netshoes em 2024, que expôs informações de milhões de usuários; e a recente operação da Polícia Federal contra-ataques a sites oficiais do governo em dezembro de 2025, que revelou uma rede criminosa especializada em derrubar portais estratégicos. Esses exemplos ilustram como a fragilidade da segurança digital continua sendo um desafio nacional.