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Desvendando a Política
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Extrema esquerda e extrema direita

Eu já analisei aqui o debate sobre a régua de valores políticos, na qual uma extremidade é representada pela extrema esquerda (EE) e a outra extremidade é a extrema direita (ED). O meio dessa régua é o centro (C). Entre o meio da régua e as extremidades encontram-se a esquerda (E) e a direita (D). A régua ficaria assim representada: EE—–E—–C—–D—–ED
As posições políticas mais próximas dos extremos são antidemocráticas e intolerantes. As posições políticas mais próximas do centro são democráticas e tolerantes. Desse modo, alguém que se situa entre a esquerda e a extrema esquerda é autoritário e favorável para a cassação política de quem diverge politicamente dele. Do mesmo modo, quem se situa entre a direita e a extrema direita também é autoritário e favorável para a cassação política de quem diverge. Por outro lado, quem se situa entre a direita (ou esquerda) e o centro é tolerante, aceita a convivência com pessoas que diverge politicamente e assim defende o pluralismo e a liberdade de expressão.
A situação se torna mais complexa quando analisamos os discursos. Todos os polos extremados querem se apresentar como “democráticos”, qualificando a democracia como uma ação política que promove um bem considerado público e positivo para um povo determinado. Logo, de acordo com os extremistas políticos (de esquerda e de direita), a política deve ser exercida por quem se incumbe da tarefa maior de fazer o “bem” para o “povo”. Quem discorda dele é, automaticamente, um inimigo do povo e deve ser anulado da política (censura, prisão, execução…). Os extremistas políticos costumam se manifestar violentamente por conta de comungarem valores intolerantes contra quem pensa diferente. O terrorismo político é comumente praticado por esses extremistas.
Já quem pratica os valores da tolerância e desse modo respeita quem pensa diferente raramente tem um conceito elaborado de democracia como alguma coisa que possa ser substantivada (como fazem os extremistas de esquerda e direita). A democracia é mais uma situação gerada pelo exercício da tolerância assegurada por instituições que respeitam esses valores. Os democratas, ou os que se posicionam mais próximo do centro, aplaudem as ações que preservam a pluralidade de pensamento e de manifestações públicas, pois entendem que uma sociedade, quanto mais plural for, mais democrática será. Por conta disso, é comum que, de acordo com circunstâncias de vida ou de momento político, as pessoas mais tolerantes migrem para um posicionamento mais próximo da esquerda ou da direita. O respeito a esses valores facilita uma eventual aproximação, que não será definitiva. A volatilidade política é maior entre essas pessoas.
Mas como podemos significar as posições extremistas? Usando exemplos históricos, pois são manifestações das ações desses extremistas.
A extrema esquerda defende um estado com grande poder de ingerência na vida privada. Esse estado é dominado por um partido que se autointitula como “do povo”. O sistema político é, portanto, unipartidário. Não se tolera a existência de outros partidos e toda associação política divergente será severamente reprimida e seus seguidores serão processados e aprisionados (algumas prisões são chamadas de “centro de reeducação”). Existe execução de presos políticos. Não existe manifestação livre de pensamento, e não há, portanto, imprensa plural. A comunicação é controlada pelo estado e a imprensa é oficial e estatal. O regime político que segue essa caracterização é o socialismo, tal como foi praticado na União Soviética e tal como ainda é praticado em Cuba, Coréia do Norte e China. Assim, quem defende esse sistema de governo deve ser caracterizado como extrema esquerda.
A extrema direita também defende um estado com grande poder de ingerência na vida privada e é também unipartidária. A existência de outras correntes de pensamento e que se associam é severamente reprimida, com prisões e execuções. Não há liberdade de comunicação e a imprensa é a oficial. O regime político que seguiu essa orientação foi o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Não se conhece, hoje, algum estado que siga essa orientação. Assim, quem defende esse sistema deve ser caracterizado como extrema direita.
Fica muito evidente que os extremos se parecem, não? Isso não é nada estranho, afinal, o que eles desejam é que sua visão parcial do mundo seja a única possível. Contra esses extremistas posicionam-se aqueles que aceitam a manifestação de ideias divergentes, que aceitam conviver com governos que destoam de suas preferências políticas e que ainda defendem que as instituições garantam o livre exercício das manifestações políticas.
Não existe sociedade democrática sem um dos polos extremados. Se alguma sociedade não tem “direita” é porque ela é governada por um estado socialista. Se alguma sociedade não tem “esquerda” é porque ela é governada por um estado fascista/ nazista. Quem é democrata e defende a democracia aceita aqueles que pensam diferente e que assim possam se manifestar. Fazem isso não por uma concepção de democracia, mas porque defendem a liberdade. A mesma liberdade odiada pelos extremistas (de esquerda e de direita).
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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