O Sete de Setembro de 2021 virou um fato histórico por uma singularidade: a presença de milhares (ou milhões?) de brasileiros, em dezenas de cidades brasileiras, manifestando, principalmente, para que seja garantida a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, protestando contra o que entendem que é o aumento indevido do poder do STF ao criar inquéritos investigativos nos quais um de seus ministros conduz a investigação, atua como juiz e analisa os recursos. Uma situação de excepcionalidade e que tem sido usada para reprimir indivíduos por opiniões emitidas.
Um outro aspecto que revela a singularidade do Sete de Setembro de 2021 foi a presença de milhares (milhões?) de pessoas que acreditam em valores tradicionais de nossa sociedade. É uma base social conservadora que, neste século, vem se mobilizando e se articulando usando as redes sociais. Assim, ela provavelmente já havia se manifestado em 2013 nos mega protestos da Copa das Confederações, junto com outros grupos sociais que estavam insatisfeitos com os rumos da política brasileira, depois de vinte anos de governos de centro-esquerda e esquerda.
Quando das manifestações contra o governo Dilma Rousseff, especialmente os que cobravam o seu impeachment, essa base se revelou mais visivelmente, mas estava misturada com outros movimentos de feição mais liberal. As manifestações que resultaram no impeachment de Dilma também tiveram as redes sociais como o principal canal de articulação e mobilização.
Mas, em 2018, na eleição presidencial, a base conservadora encontrou em Jair Bolsonaro o candidato que mais se aproximou de alguns de seus valores e ela sustentou a votação de Bolsonaro no primeiro turno, quando ele teve 34% do eleitorado votando nele (ou 46% dos votos nominais, ou válidos). No segundo turno, o antilulismo garantiu mais votos para Bolsonaro que assim derrotou o candidato sustentado por Lula, Fernando Haddad.
Logo, no Sete de Setembro de 2021 as manifestações em todo Brasil, com milhares, ou até mesmo milhões de pessoas, não foi um mero ato de defesa de Bolsonaro, nem podem essas pessoas ser identificadas simplesmente como “Bolsonaristas”. Elas revelaram, singularmente, a força política e eleitoral de uma base conservadora brasileira. E essa constatação coloca algumas questões de futuro.
Em primeiro lugar, uma mudança na estrutura social brasileira. Na primeira década deste século houve uma ampliação da classe média, que levou os institutos de pesquisa de mercado a mudarem a metodologia para identificação das classes econômicas por capacidade de consumo. Com essa alteração, a classe C, que era uma só, foi dividida para C1 e C2. A classe C2 foi gerada para se diferenciar da Classe D, de menor poder de consumo. Em 2018, segundo estimativas conduzidas pela ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa), o Brasil tinha 2,8% na classe A (a de maior padrão de consumo), 4,6% na B1, 16,4% na B2, 21,6% na C1, 26,1% na C2 e 28,5% nas classes D e E, de menor poder de consumo. A emergência de uma nova classe média pode estar relacionada com o reforço e ampliação da base social conservadora.
Em segundo lugar, a mudança na religiosidade brasileira. O pesquisador José Eustáquio Diniz, professor do ENCE/IBGE, publicou um estudo em que faz projeções de tendências religiosas no país. Segundo o estudo, em 2022 os católicos representarão 49,9% da população, enquanto os evangélicos alcançarão 31,8%, e, até 2032, os evangélicos, com 39,8% superarão os católicos, que cairão para 38,6%. A presença evangélica na base social conservadora é crescente e muitos políticos, como o presidente Bolsonaro, são evangélicos.
Em terceiro lugar, o tratamento de segmentos da sociedade brasileira para com esse grupo tem revelado preconceito e incompreensão da complexidade dessa mudança na nossa estrutura social. Alguns órgãos da chamada “grande imprensa” tratou os manifestantes como “Bolsonaristas”, “antidemocráticos” e “golpistas”. Essa base social conservadora é diferente daquela do passado em composição de renda e religião. Esse tratamento preconceituoso é revelador da falta de espaços nas mídias tradicionais para que essa base social conservadora se manifeste, e por causa disso ela tem se manifestado, majoritariamente, nas redes sociais, justamente as que estão sendo alvo de inquéritos e prisões por parte do STF. Por isso que ministros do STF que se colocaram à frente desses inquéritos foram alvos de protestos nas manifestações do Sete de Setembro.
Finalmente, essa base social conservadora ainda não tem um partido que a represente. O que a história nos ensina é que ainda surgirá um partido de feições conservadoras que será o articulador do crescente número de vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, governadores, senadores e presidente que já foram eleitos por essa base. Várias legendas novas surgiram nas últimas eleições e que hoje abrigam políticos eleitos com esse perfil. Se do lado da esquerda o PT conseguiu se posicionar como o principal partido dessa base social, no lado conservador é provável que surja um partido com essa capacidade. Não podemos esquecer do PSL: uma minúscula legenda em 2018, mas por ter abrigado a candidatura de Bolsonaro se transformou na segunda maior bancada partidária da Câmara dos Deputados, na legislatura iniciada em 2019. O Brasil mudou e o Sete de Setembro de 2021 mostrou essa realidade.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP