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Sinais do cenário eleitoral de 2022

Adriano Cerqueira*
As últimas semanas foram de fortes sinalizações sobre o provável cenário eleitoral para a disputa à presidência da República brasileira, em 2022.
Primeiramente, o processo de votação da PEC 023/2021 (mais conhecida como “PEC dos Precatórios”) na Câmara dos Deputados indicou que está bem consolidada a base de apoio ao presidente Bolsonaro, pois a PEC foi aprovada nos dois turnos. Essa PEC tem por objetivo permitir o parcelamento de precatórios e altera o cálculo do teto de gastos, liberando R$ 91,5 bilhões para o Orçamento do próximo ano. Os precatórios vêm de diversas ações judiciais desde 2002, mas que, por conta de decisões judiciais superiores, deverão ser pagas no ano que vem, praticamente inviabilizando o governo federal em pleno ano presidencial. Em razão desse problemão, o governo e os aliados no Congresso elaboraram a “PEC dos Precatórios”.
Mas, com a aprovação em segundo turno da PEC, por ampla maioria dos deputados (323 votos a favor), o governo mostrou que tem uma base fiel, em especial de deputados do PL e do PP. E, há poucos dias, o presidente Bolsonaro informou que deverá se filiar ao PL para sua campanha presidencial de 2022, com o PP tendo grandes chances de indicar o vice da chapa presidencial, consolidando uma aliança com os dois partidos. A definição de Bolsonaro de se filiar ao PL provocará uma pequena reforma na composição dos partidos políticos, com alguns deputados saindo do PP e do PL, outros saindo do PSL para se filiarem a um desses dois partidos, mais eventuais outras mudanças nos diversos partidos existentes.
A importância eleitoral da aprovação da “PEC dos Precatórios” é que ela reforça a iniciativa do governo de substituir o programa “Bolsa Família”, marca registrada do lulopetismo, pelo novo programa de auxílio, chamado “Auxílio Brasil”, como uma marca do atual governo. O alívio financeiro-orçamentário provocado pela PEC permitirá que possa ser dobrado o valor desse novo auxílio e será um forte estímulo eleitoral para Bolsonaro, especialmente no Nordeste, onde Lula tem boa intenção de votos. Deve ser lembrado que a aprovação da PEC ainda depende de dois turnos no Senado Federal, mas interlocutores do governo estão otimistas quanto à sua aprovação.
No lado da oposição, houve uma novidade na candidatura de Lula, com a possibilidade de Geraldo Alckmin ser o vice de sua chapa. É ainda uma hipótese remota que foi lançada pelo próprio Lula, pois essa chapa mexeria com muitos interesses antagônicos tanto no PT quanto no PSDB, partido que ainda abriga Geraldo Alckmin, que está em rota de colisão com o presidenciável e governador de São Paulo, João Dória. De qualquer modo, com esse anúncio hipotético, Lula sinalizou que busca um nome que aproxima mais a sua candidatura do centro político.
Pelo lado dos “terciários”, como eu denomino aqueles candidatos que procuram ser a terceira via na disputa presidencial, a novidade foi o anúncio da filiação do ex-juiz Sérgio Moro no partido Podemos. No dia da filiação, Moro fez um discurso de presidenciável, mas há dúvidas quanto a sua real disposição de disputar a eleição presidencial, pois ele teria vida mais fácil caso tentasse a Câmara dos Deputados ou mesmo o Senado Federal. Não há dúvidas que Moro ingressará na vida política, mas a confirmação de sua candidatura presidencial não foi feita, pois ainda é cedo para essa definição, além dele prematuramente virar alvo de críticas caso faça esse anúncio.
Os demais prováveis candidatos seguiram em relativo silêncio, com exceção de Ciro Gomes, que anunciou a suspensão de sua candidatura após o resultado do primeiro turno de votação da PEC dos Precatórios, quando quinze deputados do PDT votaram a favor dela. Demonstrando grande preocupação com o aspecto eleitoral da PEC, Ciro fez o anúncio da suspensão para impedir sua aprovação no segundo turno, o que não conseguiu, mesmo com o recuo dos deputados do PDT, quando votaram contra a PEC. Assim, o anúncio da suspensão revelou a fragilidade que se encontra a candidatura de Ciro Gomes e dos demais candidatos que batalham na terceira via, pois os espaços de crescimento deles no eleitorado são muito estreitos, e com muitos nomes se apresentando nessa particular disputa.
As últimas semanas foram importantes por sinalizarem que Bolsonaro está com um apoio partidário significativo para sua candidatura presidencial, que Lula está à busca de um vice de perfil mais moderado e aceitável para o eleitorado de centro, que Moro entrou de vez na vida partidária e que deverá ser candidato no ano que vem a algum cargo, seja de presidente da República, seja de Senador, e que os candidatos “terceiristas” ainda estão à procura do eleitor mais fiel que possa colocar algum deles no lugar de Bolsonaro ou de Lula no segundo turno da eleição presidencial. O problema para os “terceiristas” é que, segundo as últimas pesquisas de intenção de voto a presidente, entre 60% e 70% dos eleitores estão querendo Bolsonaro e Lula, indicando que, no momento, não há espaços para uma terceira via se impor no primeiro turno da eleição presidencial de 2022.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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