A relação entre preferência de candidatura à presidência com a identificação religiosa tem se tornada mais evidente, nos últimos anos, no Brasil. A principal razão é o crescimento da religião evangélica (em todas as suas denominações) na população brasileira, diversificando o universo religioso no sentido de gerar impactos políticos, sociais e culturais significativos.
No início do século atual, de acordo com o Censo de 2000, o universo religioso brasileiro era composto de 74% católicos e 9% evangélicos. Dez anos depois, no Censo de 2010, os católicos diminuíram para 65% e os evangélicos cresceram para 22% da população brasileira. Assim, pelos dados dos Censos de 2000 e 2010, houve uma queda de 9 pontos percentuais da presença dos católicos no Brasil, enquanto houve um aumento de 13 pontos percentuais dos evangélicos. E agora, de acordo com os dados da mais recente pesquisa do PoderData (do grupo de comunicação Poder360), cujo campo foi realizado entre 19 e 21 de dezembro de 2021, 40% dos respondentes se declararam católicos e 32% evangélicos. Na próxima década, a tendência é ter mais evangélicos que católicos na população brasileira.
Em 2018, no segundo turno da eleição presidencial, 69% dos evangélicos votaram em Bolsonaro, enquanto 31% votaram em Fernando Haddad, do PT. Por outro lado, 51% dos católicos votaram em Bolsonaro, enquanto 49% em Haddad. Os dados são de pesquisa Datafolha que foi divulgada em 25 de outubro de 2018.
Na mais recente pesquisa do PoderData, 43% dos evangélicos votam em Bolsonaro no primeiro turno, enquanto 29% votam em Lula. Entre os católicos, 46% votam em Lula e 26% em Bolsonaro. Há uma nítida inversão de tendências, com os católicos se identificando mais com Lula e os evangélicos se identificando mais com Bolsonaro. Sem dúvida, está ocorrendo uma divisão política eleitoral no eleitorado brasileiro, reforçando a polarização entre Bolsonaro e Lula.
Logo, a polarização na eleição presidencial de 2022 está se consolidando nas candidaturas de Bolsonaro e Lula, sendo ela motivada por razões históricas (antiga disputa entre os dois, a mais recente na eleição de 2018), sociocultural (conservadores contra progressistas), ideológica (direita contra a esquerda) e, também, religiosa (evangélicos contra católicos). Todos esses quadros polarizados têm em Bolsonaro e Lula seus protagonistas, o que impediu qualquer chance de um terceiro nome conseguir se alavancar na disputa eleitoral a ponto de ameaçá-los. E, pelo que os dados das pesquisas estão indicando, não deverá conseguir no ano que vem.
Ainda segundo os dados da recente pesquisa PoderData, divulgada em 22 de dezembro de 2021, na simulação do primeiro turno, Lula está com 40%, Bolsonaro com 30%, e os demais candidatos com 19%. Votos brancos e nulos somam 5%, com 6% de indecisos. Por esses dados, Bolsonaro tem mais votos que os demais candidatos, excluindo Lula (são 11 pontos percentuais de vantagem), e Bolsonaro e Lula têm 70% das intenções de votos. A conclusão mais óbvia é que não há espaços para uma terceira via. A única chance de um terceiro nome se impor será com a saída/ desistência de Lula ou Bolsonaro, ou, algo também pouco provável, esse terceiro nome conseguir tirar votos de Lula ou de Bolsonaro.
A polarização entre Bolsonaro e Lula foi marcante durante todo este ano, sendo jamais ameaçada por algum nome. O agravamento da segunda onda da pandemia, com milhares de mortes diárias, deu fôlego para Lula crescer na intenção de votos, saindo de um patamar de 30% (de acordo com as pesquisas do final de 2020 do PoderData) para o patamar de 40%. Bolsonaro, por outro lado, e em um sentido invertido, saiu do patamar de 40% para o atual de 30%.
A forte resistência eleitoral de Bolsonaro se deve à sua fiel base, que se manteve coesa na casa dos 30% do eleitorado brasileiro. A identificação religiosa foi importante na manutenção dessa base, pois Bolsonaro não apenas é evangélico, como faz uso constante de expressões e ações de sua religião, além de ter conseguido indicar, com sucesso, um ministro evangélico para o STF. Seu maior desafio para o ano que vem será aumentar a intenção de votos para além desse grupo de apoio, tarefa difícil, mas viável em termos eleitorais, e dependerá de sua estrutura de campanha em nível nacional para que possa obter mais uma vitória contra um candidato do PT.
Lula, por sua vez, aparenta ter um desafio menor que o de Bolsonaro por causa de sua liderança nas intenções de votos, mas os desafios que terá que enfrentar para chegar à vitória são consideráveis. Seu nome não é mais unânime na esquerda, nem o eleitorado de centro está totalmente convencido de votar nele, novamente. A principal barreira contra Lula são as condenações que ele sofreu pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e que foram confirmadas em todas as instâncias jurídicas brasileiras, a ponto de ele ter sido preso no dia 7 de abril de 2018, tendo sido solto no dia 8 de novembro de 2019 (um ano, sete meses e um dia de prisão). O STF decidiu, posteriormente, anular as condenações por razões de foro jurídico e suspeição, permitindo que Lula seja candidato, novamente.
Uma parte do eleitorado parece estar alheia a esses fatos, mas eles serão tratados na campanha eleitoral e poderão aumentar consideravelmente o grau de rejeição a Lula.
A polarização na eleição presidencial de 2022 está confirmada, mas seu resultado, não.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP