O ano de 2022 é um ano eleitoral e por isso toda pesquisa de conteúdo eleitoral publicada deverá, obrigatoriamente, ser previamente registrada no sistema eletrônico do TSE, Tribunal Superior Eleitoral.
A pesquisa registrada deverá conter informações de quem contratou a pesquisa, de quem foi contratado, o seu valor, o questionário que foi aplicado, a metodologia utilizada, as regiões onde foi feito o campo da pesquisa, entre outras informações. Esses dados são públicos e podem ser acessados no site do TSE.
Até o dia 19 de janeiro deste ano foram registradas cinco pesquisas eleitorais de abrangência nacional por cinco institutos. E eles já apresentam diferenças na metodologia utilizada, sendo a principal no campo.
Apenas uma realizou o campo de modo presencial e residencial. Ele é feito por um pesquisador que vai até uma residência sorteada aleatoriamente e nela o questionário é aplicado a um morador que esteja enquadrado na cota de sexo e idade, segundo o plano amostral.
As outras realizaram o campo por meio telefônico, sendo que uma usou o método de voz artificial, enquanto as outras usaram uma pessoa fazendo as perguntas para o entrevistado. Nelas também é usado as cotas de sexo e idade definidas na amostra.
Houve grande variação no valor das pesquisas, a mais cara no valor de duzentos e sessenta e oito mil reais e a mais barata no valor de vinte e oito mil, aproximadamente. As amostras variaram de mil entrevistados a três mil.
No caso dos questionários aplicados, houve diferenças significativas nas pesquisas. A maioria usou a abordagem tecnicamente recomendada, de começar as perguntas políticas com as questões de intenção de voto, primeiro com a espontânea e depois com a estimulada. Uma, a mais cara e a única que foi feita de modo presencial e domiciliar, iniciou com questões sobre o grau de conhecimento de cada um dos nomes que seriam testados como candidatos, e, depois, com questões de grau de rejeição e de adesão a cada um dos presidenciáveis. Só depois dessa bateria que foi feita a questão de intenção de voto espontânea e depois a estimulada. Essa ordem de questões não é correta, porque induz o entrevistado a responder as questões de intenção de voto depois que ele foi lembrado dos nomes em termos de gostar ou não de cada um deles. Quando o cidadão vai votar na urna, ele não é lembrado dessas questões no momento de votar.
Voltando aos campos (presencial ou telefônico), a pesquisa que usou o método presencial e domiciliar provavelmente enfrentou sérias dificuldades por causa da pandemia, ainda mais com o registro de aumento de casos de infecção por causa da variante ômicron. Poucas pessoas estão disponíveis para atenderem um pesquisador que bate nas suas casas ou apartamentos para fazer uma pesquisa eleitoral, mesmo que esteja usando máscara. O grau de recusas certamente foi muto elevado e isso afeta a qualidade do campo, que acaba por selecionar eleitores com um perfil político mais politizado e militante, do tipo que não perde a oportunidade para responder uma pesquisa eleitoral. Por outro lado, o eleitor menos ou nada militante estará pouco propenso a correr riscos por causa de uma pesquisa eleitoral.
Por outro lado, a pesquisa por telefone se mostra mais atraente para o eleitor que teme a Covid, o que gera uma boa vantagem desse método. O desafio da pesquisa por telefone é a maior facilidade que o respondente tem para recusar ser entrevistado, pois basta não atender a chamada ou simplesmente desligar o telefone quando percebe sua intenção. Outra questão relevante na pesquisa por telefone é se quem faz as perguntas é uma pessoa ou uma voz artificial. No caso de uma pessoa, geralmente o entrevistado responde oralmente a pergunta e ela será anotada pelo pesquisador. No caso da voz artificial, o entrevistado responde teclando o número que corresponde a sua opção. Esse método é o mais confiável para registrar a opção do entrevistado. No Brasil., a empresa que usa este método vem há anos realizando mensalmente pesquisas de intenção de voto presidencial com amostras de três mil entrevistados, o que garante uma base de dados significativa que permite a análise temporal das intenções de voto do eleitorado e, no momento, é a empresa que está mais bem capacitada para fazer pesquisas eleitorais para a eleição presidencial, por conta do uso coerente e sistemático de uma mesma metodologia.
Finalmente, as pesquisas que estão sendo feitas no mês de janeiro (o mês das férias) têm um grande desafio que é o de conseguir captar uma amostra representativa, pois, seja na primeira ou na segunda quinzena do mês, um percentual significativo da população está fora de sua cidade de residência e isso afeta a qualidade da amostra em termos de representatividade.
Pelo que já está sendo observado no mês de janeiro, teremos um número recorde de pesquisas eleitorais em 2022 usando várias metodologias (desenho amostral, tipo de campo e, principalmente, tipo de questionário). Os dados dessas pesquisas sempre serão questionáveis e não devem ser aceitos como verdades absolutas. De minha parte, eu irei fazer um trabalho crítico de acompanhamento das pesquisas para ajudar a promover um entendimento mais correto dos dados publicados.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP