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O poder carismático na política

A capacidade de um indivíduo encantar uma multidão através de discursos, mensagens e ações que provocam uma mobilização popular em torno de sua liderança é o que se chama de poder carismático.
Max Weber foi o cientista social que soube trabalhar esse atributo como uma fonte legitimadora de poder social. Segundo ele, essa capacidade que alguns indivíduos possuem seria a fonte primordial de construção de uma “dominação social”, ou de uma “autoridade”. E se os efeitos desse encantamento continuarem após a morte do indivíduo, através de seguidores e até mesmo de instituições criadas à luz dos ensinamentos e ações referenciados à antiga liderança, um outro tipo de dominação social, de acordo com Weber, irá se constituir, que é a “dominação tradicional”. Como exemplo clássico, temos um indivíduo, Jesus Cristo, que em vida se fez uma liderança popular que criou uma religião. Após sua morte, seus discípulos continuaram seus ensinamentos e fundaram uma Igreja, que mais de dois mil anos após a morte de Jesus Cristo continua a mobilizar milhões de indivíduos que seguem a palavra de Cristo, tornada imortal pela sua institucionalização.
A conclusão weberiana é lógica: uma liderança carismática tem o poder para fundar uma novar ordem social que poderá ter uma duração além do tempo de vida do líder carismático. Assim, mais que a força de instituições erguidas, é a fonte primordial do poder carismático que opera as mudanças sociais mais expressivas.
Um dado importante é que a ação carismática de um indivíduo acontece em qualquer período histórico considerado, não tem a ver com um tipo específico de sistema político. Mesmo naqueles mais autoritários, isto é, mais concentrados no poder de uma só pessoa, a ação carismática pode acontecer. Novamente, o exemplo de Jesus Cristo é ilustrador, pois ele nunca foi um governante, pelo contrário, suas palavras e ações foram entendidas como perigosas e ele foi perseguido pelas autoridades da época. E, continuando com o exemplo, a Igreja fundada pela força do carisma de Cristo se tornou, séculos depois, na instituição que legitimava o governante de plantão (aconteceu ainda na época do Império Romano e depois com as monarquias da Europa Ocidental).
Na época atual, quando a maioria dos países procura ser governada por sistema políticos democráticos baseados na delegação do voto pelos cidadãos, o papel de indivíduos que possuem a capacidade de encantar multidões (os carismáticos) assume uma dimensão sem precedentes na história. Afinal, os sistemas democráticos baseados no voto popular dão mais oportunidade para que esse tipo excepcional de indivíduo apareça e procure legitimamente assumir o governo do país através do processo eleitoral.
Portanto, as democracias amparadas na disputa regrada e institucionalizada do voto popular proporcionaram condições políticas e legais ideais para a emergência de lideranças carismáticas. O fato de nem sempre o governante eleito ter carisma se deve ao fato desse atributo não ser facilmente encontrado na humanidade. Poucos têm essa capacidade e, mesmo assim, não são todos que se dispõem a virar lideranças políticas (podem preferir serem lideranças corporativas, ou artísticas, ou esportivas, entre outras atividades). Mas, se alguma dessas lideranças encontra força de vontade para investir na política, para construir uma liderança política que lhe capacite a chegar ao governo de uma sociedade, ela terá condições de propor mudanças nas leis e até mesmo nos costumes sociais.
A dificuldade de uma liderança carismática conseguir operar reformas nas leis e nos costumes estará colocada pelas instituições existentes, cujo poder legitimador veio de uma antiga fonte não pertencente à do líder carismático. Logo, uma liderança política carismática que queira realizar reformas na sociedade, seja nas leis, ou nos costumes, vai provavelmente gerar crises políticas por conta da reação das instituições existentes que provavelmente não concordarão com essas reformas. As crises poderão ser absorbidas pelo sistema político instituído, tanto no sentido de aceitar parcialmente algumas das reformas que a liderança carismática queira implantar, como as negando, mas sem causar uma grave crise institucional que coloque em risco a manutenção do sistema político. Claro está que é mais fácil de se evitar uma grave crise institucional se uma parte das reformas venha a ser aceita e absorvida pelo sistema, que, assim, terá oportunidade de se revitalizar com o carisma da liderança que propôs as reformas e ficou satisfeito com o resultado alcançado.
O desafio das modernas democracias baseadas na regrada e institucionalizada delegação do voto é se revitalizar com o surgimento excepcional de lideranças carismáticas que tenham parte de suas políticas propostas aceitas e absorvidas. Mas é muito alto o risco de caírem em uma grave crise institucional, quando as instituições existentes se recusam a dividir o poder com o líder carismático. A história ensina que, na maior parte das vezes, quem vence a crise é a liderança carismática, com graves consequências para o sistema político existente.
*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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